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Diário do Pará online

Problemas no abastecimento não é de falta d'água: a crise é de gestão

Publicado em 22 março 2009

Agência Fapesp

Para o coordenador do Laboratório de Recursos Hídricos e Meio Ambiente da UFPA, uso de águas subterrâneas é mais barato e eficiente para Belém

Com águas subterrâneas abundantes e de qualidade, o Pará deveria repensar o atual modelo de abastecimento. É o que afirma o doutor em Hidrogeologia e Recursos Hídricos Milton Matta, coordenador do Laboratório de Recursos Hídricos e Meio Ambiente (Larhima), do Centro de Geociências da Universidade Federal do Pará. Matta, que afirma ainda que campanhas contra o desperdício falham ao tentar atingir apenas o consumo doméstico, concedeu esta entrevista ao DIÁRIO:

P: A UFPA promoveu o workshop "Belém: Pura Água, mas sem água pura". Qual o significado desse tema?

R: A gente acha absurda a quantidade de água que existe na Amazônia, onde tem a maior descarga de água doce do mundo. Então porque numa área cheia de água temos determinadas épocas em que falta água em nossa cidade? Quais os problemas em relação ao abastecimento? Por que as pessoas, quando não têm água, têm água de baixa qualidade? Esse workshop conta com a participação da Associação Brasileira de Água Mineral (Abinam), Ministério Público, Estado e prefeitura. Discutimos, principalmente, o que cada uma dessas entidades pode e deve fazer para evitar esse desperdício. Na época em que analisamos a qualidade da água consumida em Belém e detectamos que a água não era mineral, mas sim potável, o Ministério Público nos chamou e mostrei toda a pesquisa. Na época, o órgão deu 20 dias para as empresas responderem a uma série de questionamentos e, de repente, tudo foi esquecido. Por que o Ministério Público não investiga os motivos pelos quais a população de baixa renda passa dias e dias sem água? No workshop darei uma palestra com todas as informações acerca das águas em Belém, mostrando o quanto chove aqui, quanto de água possuímos no subterrâneo da cidade, o quanto dela escorre e mostrar que não existe crise da água. O que existe é crise de gestão, de gerenciamento da água. No Nordeste não há água. Lá, eles gerenciam a escassez da água. Aqui, a gente gerencia o excesso.

P: Já que as águas subterrâneas são tão abundantes e mais puras, por que não as utilizamos?

R: A água subterrânea é mais barata e possui muito mais qualidade, sem dúvida, além de estar mais protegida de contaminação e de evaporação. São nove qualidades em relação às águas superficiais. Temos os lagos Bolonha e Água Preta, que abastecem Belém. Quando a água desses dois lagos baixa muito de nível, a adutora é ligada e possibilita a entrada da água do rio Guamá nos lagos. De lá, essa água vai para as estações de tratamento. A água é muito bem tratada. Ocorre que das estações a água segue para as redes de distribuição, que estão capengas e cheias de buracos. Daí, cerca de 60% da água é perdida, desperdiçada pelo caminho. Nos melhores Estados do país, essa perda é de 45%. Quando a água passa com uma pressão forte não há problema. Agora quando essa pressão é fraca, ela puxa toda a sujeira de fora e se contamina. É essa água que chega às nossas torneiras.

P: Por que, na sua avaliação, o problema da água em Belém é de gestão?

R: Se você fosse um gestor sério, responsável, colocaria um lixão como o do Aurá ao lado dos lagos que abastecem Belém? O problema já começa por aí... Outra: se temos tanta água subterrânea, mais barata e mais protegida, por que cismar em abastecer Belém com água superficial? Agora, a governadora terá recursos para duplicar o sistema de tratamento do Utinga. É bom ressaltar que a perda de água também será duplicada. Gastar esse recurso precioso nesse projeto é um equívoco. Tenho alunos aqui que já mostraram em seus trabalhos como podem ser feitos sistemas de abastecimento em diversos bairros da capital e quanto custa esse sistema per capta. Na minha tese de doutorado, financiada pelo próprio governo do Estado, através do Funtec, sob o título "Fundamentos Hidrogeológicos para Gestão Integrada dos Recursos Hídricos da Região de Belém e Ananindeua", de 2002, apresento 17 propostas técnicas e sociopolíticas para a gestão integrada de recursos hídricos em Belém e Ananindeua.

P: Então por que essas propostas não são colocadas em prática?

R: Política. Um poço de água subterrânea aparece basicamente como um cano  visível para fora. Como colocar uma placa de obra em cima de um cano? Para gerar dividendos políticos, é mais vantajoso inaugurar uma pomposa estação de tratamento. A água subterrânea não é fotogênica e não dá status para os políticos. O mesmo raciocínio se aplica às redes de saneamento básico. Belém não tem 10% de áreas saneadas e, hoje, centenas de pessoas ainda morrem de doenças de veiculação hídrica, o que é um absurdo. Não existe água potável para se tomar em diversas áreas da cidade. Por outro lado, temos a Estação das Docas, o Mangal das Garças, o Hangar e a Casa das Onze Janelas, onde o povão não pode entrar, mas dá voto.

P: Como o senhor descobriu que a água que o paraense bebia não era mineral? R: Em 2003, um aluno meu resolveu fazer um trabalho sobre águas minerais, verificando como era a qualidade dessas águas, a partir do seu processo de obtenção na natureza. No final, chamamos o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) para nos auxiliar no processo, já que precisávamos ir projeto para estudar essas águas durante um ciclo hidrogeológico completo, de 12 meses, com a participação de seis empresas de água mineral, Ministério Público, DNPM, Abinam e o DIÁRIO como parceiro na divulgação dos resultados.

P: O senhor também fez um projeto que estuda os recursos hídricos da área da Bacia do Mata Fome... R: O projeto chama-se "Recursos Hídricos e Qualidade de Vida na Bacia do Mata Fome ­ Doenças de Veiculação Hídrica e o Conceito GeoSócio-Ambiental". O projeto foi proposto pela Fundação de Amparo à Pesquisa (Fadesp) com execução da Faculdade de Geologia. Como a prefeitura até o momento apenas nos enrolou, decidimos apresentar o projeto à Vale, que nos pediu um tempo maior em função da crise financeira internacional. O governo do Estado também nos chamou. A governadora mostrou interesse em executar o projeto. Existem 20 planos de trabalho que estamos fazendo, em várias áreas, passando pelo Direito, Medicina, Serviço Social, Oceanografia e até Jornalismo, atuando cada um a todas as fontes de água mineral para fazer a análise, comparando com a água que era vendida nos supermercados. As empresas não deixaram que fôssemos nas fontes e tivemos que nos contentar com a água dos supermercados. Após a análise, descobrimos que a classificação técnica correta dessa água não era mineral, mas sim água potável de mesa, que paga imposto dobrado. A água potável é uma água boa, pura, mas não é mineral. Elaborei agora um novo em projetos em suas respectivas áreas. O prefeito Duciomar Costa assinou um documento, onde se compromete a financiar o projeto. Foi com essa carta que conseguimos aprovar o projeto aqui na universidade. Só que a prefeitura, até agora, não nos repassou a verba. O projeto custa R$ 600 mil para serem gastos em dois anos. Agora estamos em busca de novos apoiadores e financiadores.

P: O senhor também realizou uma consultoria na área de recursos hídricos no Amapá...

R: Um representante do Ministério Público do Estado do Amapá me contatou e, em seguida, o MP local me contratou como consultor para avaliar os estragos que as empresas MMX, que lida com ferro, e a MPA, que lida com ouro, estavam causando aos recursos hídricos do Amapá. Eles queriam um profissional de fora do Estado. Formei a minha equipe e fizemos o trabalho. Na minha proposta final propus o monitoramento dos recursos durante um ciclo hidrogeológico completo, que custaria por volta de R$ 600 mil. A ideia era que as empresas rachassem esses custos. Num primeiro momento, as elas concordaram em pagar, mas, logo depois, se negaram. Aí, o Ministério Público entrou na Justiça contra as empresas e agora estamos aguardando.

P: O Banco Mundial poderá subsidiar um grande estudo de abastecimento de água no Estado...

R: É... Estamos na fase de elaboração de um projeto. Só que ele passará por uma licitação. Ele abrangerá, numa primeira fase, toda a Região Metropolitana de Belém até Santa Izabel. O objetivo é estudar a Bacia de Pirabas, que é uma sequência de camadas subterrâneas que poderia abastecer toda a nossa região, sem necessidade de águas superficiais. O valor desse projeto alcançaria US$ 1,5 milhão na primeira fase. Estamos fazendo propostas para duas empresas desenvolverem o projeto, uma daqui e outra de Fortaleza.

P: A economia doméstica da água é mesmo a solução para a falta de abastecimento?

R: Todo mundo faz campanha para economizar água. Nos pedem para fechar a torneira ao fazer a barba e no momento de nos ensaboar no chuveiro, a não lavar car-os, etc... O que temos que analisar é o uso global da água no planeta. Calcula-se que apenas 10% do total de água existente no mundo é utilizada para uso doméstico, 20% para a indústria e 70% para a agricultura. Curioso é que essas campanhas de conscientização visam apenas os 10%. É claro que é importante que não desperdicemos água, mas precisamos indagar os motivos da ausência de campanhas voltadas para a agricultura, que utiliza 70% dos recursos hídricos do planeta. Desses 70%, estima-se que 60% são desperdiçados. Se diminuíssemos apenas 10% desse desperdício, daria para abastecer o dobro da população mundial. Já pensou? Então que crise de água é essa? Tem água para todo mundo. O foco é que precisa ser outro.