Na Região Metropolitana de São Paulo, poços irregulares ampliam o desafio de monitorar aquíferos usados por condomínios, indústrias, clubes e hospitais, enquanto áreas industriais antigas concentram solventes tóxicos, cadastros incompletos e riscos persistentes à água
Com 22 milhões de habitantes e consumo médio de 61.600 litros de água por segundo, a Região Metropolitana de São Paulo enfrenta risco nos poços irregulares , que podem captar água subterrânea em áreas contaminadas por resíduos industriais. Os dados do artigo são desta matéria da Agência FAPESP
Poços irregulares dificultam o controle
A região depende quase totalmente de mananciais superficiais para o abastecimento público, mas cerca de 18% do consumo total vem de aquíferos. Essa parcela chega por aproximadamente 14 mil poços privados.
O volume subterrâneo usado alcança cerca de 347 milhões de metros cúbicos por ano. O problema é que dois terços desses poços não estão formalmente cadastrados.
Reginaldo Antonio Bertolo afirma que para cada três poços construídos, dois são irregulares. O poder público não conhece essas captações nem avalia a segurança da água.
A falta de controle se torna mais grave porque muitos poços foram perfurados em antigas zonas industriais.
Essas áreas, hoje desindustrializadas e em reconversão imobiliária, carregam passivos ambientais difíceis de administrar.
Resíduos no subsolo podem afetar aquíferos usados para consumo humano.
Solventes industriais elevam o risco
A preocupação central envolve solventes clorados, especialmente percloroetileno e tricloroetileno. Esses compostos foram usados como desengraxantes industriais na limpeza de peças metálicas e são descritos como altamente tóxicos.
Faltam informações públicas sobre quem usa esses solventes e em quais quantidades. Também existem lacunas regulatórias sobre descarte e reciclagem.
Hidrocarbonetos vazados por postos de gasolina tendem a se degradar mais rapidamente, enquanto solventes clorados permanecem por mais tempo no ambiente subterrâneo.
Quando se degradam, podem gerar compostos “filhos” ainda mais tóxicos que os originais. O bombeamento em profundidade cria gradiente hidráulico descendente e pode levar contaminantes para níveis mais baixos.
Mapas revelam sobreposição crítica
O estudo cruzou zonas industriais, áreas contaminadas por solventes clorados e poços de abastecimento. Em São Paulo, essas dimensões aparecem com frequência no mesmo território.
A Mooca, bairro desindustrializado da capital, exemplifica o problema. Mapas mostram pontos de captação próximos ou sobrepostos a locais contaminados e a áreas onde não deveria haver captação.
O quadro é mais grave porque os poços irregulares não aparecem nos mapas oficiais. Com isso, a dimensão real do rissco pode ser maior que a registrada.
Esse padrão ocorre em outras áreas desindustrializadas. O processo começou no final dos anos 1970, avançou na década seguinte e se intensificou com a saída de fábricas da capital.
O resultado incluiu galpões abandonados, subsolo contaminado e novas ocupações em áreas pouco preparadas.
Pela legislação paulista, se uma área contaminada estiver em raio de 500 metros de um poço, o responsável deve apresentar relatórios de qualidade da água ao órgão ambiental.
Ao aplicar esse critério, os autores identificaram 17 aglomerações de áreas contaminadas e poços com raios sobrepostos em Jurubatuba, Jaguaré, Mooca, Vila Prudente, Diadema, Mauá e Osasco.
Contaminação persiste em profundidade
Nessas regiões, áreas contaminadas podem funcionar como fontes multiponto, com plumas que se interceptam. Há poços profundos usados para ingestão humana dentro desses cinturões de contaminação.
A gestão costuma ocorrer no limite de cada propriedade, mas a água subterrânea circula além das fronteiras imobiliárias. Esse descompasso dificulta enfrentar um problema espalhado pelo subsolo.
Remove-se solo superficial para controlar riscos imediatos, como vapores tóxicos em edificações. Mesmo assim, grande parte da massa contaminante permanece em profundidade e continua transportada pela água subterrânea.
Até 2020, apenas 18,6% dos locais contaminados por solventes clorados estavam classificados como reabilitados para o uso declarado. A categoria não significa eliminação total da contaminação.
No cadastro paulista, foram identificadas 596 áreas com histórico de solventes clorados. Mais da metade seguia em remediação, enquanto 26% permaneciam em investigação.
A contaminação tende a se concentrar nos primeiros metros do aquífero. Porém, quando se bombeia água a 100 metros de profundidade, a zona rasa contaminada pode migrar lentamente para baixo.
Camadas geológicas menos permeáveis podem atuar como filtro natural, mas há incertezas sobre sua eficácia ao longo de décadas. O limite de potabilidade é da ordem de partes por bilhão.
Jurubatuba aponta caminhos de gestão
Jurubatuba, na zona sul paulistana, é a área mais estudada da Região Metropolitana. Mesmo assim, três quartos dos sítios locais carecem de informação detalhada nos cadastros ambientais.
Metade corresponde a instalações industriais com histórico documentado de uso de solventes clorados. O monitoramento local é visto como ensaio para ações mais amplas, incluindo manchas industriais do ABCD paulista.
A SP Águas informou que estudos hidrogeológicos foram promovidos em Jurubatuba para aperfeiçoar a gestão, integrar órgãos e entender o transporte de contaminantes.
A nota cita unificação de bancos de dados, gestão adaptativa e comunicação simplificada com a população. A Cetesb foi procurada, mas não se manifestou até a publicação.
Enquanto isso, os seguem como ponto decisivo para dimensionar o problema, impedir o uso da água subterrânea em áreas mais amplas e orientar medidas explcitas de longo prazo.