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Privação do sono pode causar estragos neurológicos

Publicado em 23 março 2013

Quanto menos se dorme, mais problemas de saúde se tem. É o que comprova um estudo feito em parceria por diversos departamentos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e publicado pela Revista Brasileira de Medicina do Esporte. A pesquisa aponta que a privação do sono pode causar diversas alterações: endócrinas, metabólicas, físicas, cognitivas, neurais e modificações na arquitetura do sono, as quais, em conjunto, comprometem a saúde e a qualidade de vida.

Inúmeros outros estudos apontam para esta realidade. Os distúrbios do sono afetam, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 40% da população mundial. A apneia do sono, por exemplo, está presente na vida de pelo menos 30% dos paulistanos, de acordo com a Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial.

A boa notícia é que pode-se reverter o problema e evitar suas consequências. A começar pelo combate à obesidade, que causa problemas cardiocirculatórios, bem como o uso de aparelhos intraorais, que ajudam a reverter a apneia. A fim de alertar para o problema, a cirurgiã dentista Sheila Diniz, especialista do sono de Rio Preto, diz que os aparelhos são hoje os principais recursos no tratamento do ronco e da apneia, uma vez que oferecem solução rápida e eficaz contra este problema de saúde pública.

Várias formas de tratamento

Para alertar sobre o problema, nesta semana foi comemorado o Dia Mundial do Sono, uma iniciativa da World Association of Sleep Medicine (WASM) que busca diminuir a incidência de problemas de sono em geral na sociedade por meio da prevenção, orientação e tratamento adequado para as mais diversas desordens de sono como o ronco, a apneia do sono, insônia, bruxismo, entre outros distúrbios.

A fim de mobilizar e conscientizar a população sobre a importância do sono reparador, a especialista do sono Sheila Diniz observa que a incidência do ronco aumenta com a idade, sendo mais frequente entre os homens. “Com o diagnóstico preciso, a partir de avaliação através do exame de polissonografia, há diversas formas de tratamento que podem ajudar a controlar a apneia, melhorar a qualidade do sono e a saúde em geral”, diz.

A dentista explica que, desde 1982, quando foi elaborado o primeiro aparelho para ronco e apneia, tem-se avançado no combate à apneia do sono, e hoje muitos dos aparelhos intraorais já solucionam o problema de quem não consegue dormir devido à apneia. “Há 6 anos, tenho atendido pacientes que acompanho através de exames (polissonografia) com altos índices de sucesso”, afirma Sheila.

Depois de detalhada consulta e exame clínico, Sheila seleciona o melhor modelo de aparelho, confeccionado de acordo com o paciente. O modelo é instalado e ajustado na boca do paciente, que recebe instruções de uso (só para dormir), tendo acompanhamento periódico para checar a eficiência, inclusive através de outra polissonografia.

Consequências entre os jovens

A pesquisadora Monica Andersen, professora do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, afirma que muitos jovens estão invertendo o ciclo circadiano – período sobre o qual se baseia o ciclo biológico do corpo, influenciado pela luz solar -.

Eles vão para uma “balada” da 1 às 6 horas da manhã de sexta para sábado. Na noite seguinte, há uma balada ainda maior, até às 7 ou 8 horas do domingo. Ao voltarem para casa, tomam café e vão dormir, para acordar no meio da tarde. De noite, eles não conseguem dormir e, na segunda-feira, começam uma nova semana, às 6 da manhã, para ir à escola ou ao trabalho. Iniciam a semana já privados de sono.

Ela também alerta para uma das consequências mais sérias da falta de sono atualmente: o aumento no número de acidentes. Em fevereiro de 2009, por exemplo, na cidade de Búfalo, nos Estados Unidos, a queda de um avião em uma área residencial matou 50 pessoas. A investigação concluiu que a causa mais provável do acidente foi a fadiga dos pilotos, e os registros da jornada de trabalho realmente mostraram que eles haviam trabalhado horas excessivas.

Também nos Estados Unidos, houve outro caso em que um avião simplesmente passou do aeroporto de destino e isso só foi notado uma hora depois. A causa do erro foi que os dois pilotos haviam dormido. Na medicina, é a mesma coisa: há estudos mostrando que, no fim de um plantão, o número de erros médicos é bem maior.

A pesquisadora também observa que um estudo feito por Eve Van Cauter, da Universidade de Chicago, uma das maiores especialistas em sono no mundo, mostrou que a privação de sono em uma idade jovem simula um quadro de envelhecimento precoce. Seria como se essas pessoas de repente tivessem 60 anos. Há indícios de que a falta de sono pode provocar estresse oxidativo, alterações cardiovasculares, maior risco ao diabetes e outros problemas que só seriam vistos em uma pessoa mais velha.

Modificações até no RNA

Quem estuda os efeitos da privação de sono desde 1995 é a pesquisadora Monica Andersen, professora do Departamento de Psicobiologia da Unifesp. Ela constata entre as repercussões da privação do sono a disfunção erétil, o diabetes, estresse e a baixa imunidade, o que facilita a contração de doenças diversas. Com patrocínio da Fapesp, a pesquisadora está a investigar os efeitos da privação e restrição de sono na função reprodutiva de ratos machos. Ela observa, a partir de suas pesquisas, que cada pessoa tem um padrão de sono.

“A média são oito horas diárias, mas uma pessoa pode ficar bem com quatro horas, enquanto outra precisará de dez. Chamamos os extremos de ‘pequenos dormidores’ e ‘grandes dormidores’. Agora, se me perguntar de quantas horas você precisa, temos de ver primeiro como você acorda”, disse ela à Fapesp.

A alteração na imunidade está constatada também numa pesquisa recente da Universidade de Surrey, na Inglaterra. Foram analisadas 26 pessoas que, submetidas a uma semana de sono insuficiente, comparada com uma semana de sono suficiente, revelaram alterações no RNA (mensageiro químico dos genes para as células).

Constatou-se alterações em 711 genes na análise final, que apresentaram aumento ou diminuição da atividade no período de sono insuficiente. A conclusão foi que o sono insuficiente pode afetar as células humanas, perturbar a regulação e intensificar os efeitos da privação de sono total.

Exercícios físicos

A prática de atividade física também é objeto de vários estudos no Instituto do Sono da Unifesp, que entende a prática como forma de equilibrar o ciclo sono- vigília, uma vez que, com base em uma hipótese termorregulatória, há evidência de que o início do sono é disparado pela redução da temperatura corporal, que ocorre circadianamente (período de aproximadamente 24 horas) no início da noite. Eles descrevem a função crucial do hipotálamo na regulação da temperatura corporal e na indução do sono.

No trabalho “Exercício e sono”, de autoria dos pesquisadores Paulo José Forcina Martins, Marco Túlio de Mello e Sergio Tufik, observa-se que o exercício, ao aumentar a temperatura corporal, criaria uma condição capaz de facilitar o “disparo” do início do sono, por ativar os processos de dissipação de calor controlados pelo hipotálamo, assim como os mecanismos indutores do sono dessa mesma região.

Tanto a teoria da conservação de energia como da restauração corporal apoiam-se nos mecanismos homeostáticos (que regula o ambiente interno para manter uma condição estável) reguladores do sono, visto que as teorias afirmam que a duração total do episódio de sono, assim como a quantidade de sono de ondas lentas, cresce em função do aumento do gasto energético

Redação com Diário Web