Notícia

Monitor Mercantil

Prioridades bancárias

Publicado em 05 outubro 2000

Os analistas do mercado habituaram-se a generalizar a respeito do sistema bancário brasileiro. No entanto, quando desagregamos o conjunto de instituições financeiras, observamos que nem sempre o que refere-se ao todo é verdade para as diversas partes. A publicação dos balanços contábeis dos bancos referentes ao primeiro semestre deste ano permite uma análise mais detalhada desse sistema. Através da construção de alguns indicadores — ver Quadro — podemos desmentir alguns lugares-comuns a respeito dos bancos. Na realidade, as estratégias de mercado e as prioridades dos bancos são muito diferenciadas. Pouco se pode generalizar a respeito das instituições financeiras, inclusive quando as classificamos por origem de capital — pública ou privada — ou por porte — o grupo de "bancos gigantes", por exemplo. Vejamos alguns casos. Nas duas primeiras colunas do Quadro, observamos que a despeito de existir 19 bancos públicos e 174 privados, quando consideramos os 6 maiores por ativos, verificamos que essa "1/2 dúzia" possui quase a metade dos títulos e valores mobiliários e executa mais de 2/3 das operações de crédito do sistema. Somente as 3 maiores Instituições Financeiras Públicas Federais (IFPF) detêm mais de 1/3 dos títulos e valores mobiliários e fazem quase a metade (49,5%) das operações de crédito. Mas as prioridades estabelecidas nessas instituições públicas são distintas. No Banco do Brasil (BB), as aplicações nos títulos e valores mobiliários (TVM) foram 42,5% maiores do que nas operações de crédito (OC), no primeiro semestre. Contrasta, extraordinariamente, com a opção prioritária da Caixa Econômica Federal (CEF) por dar crédito face a fazer rolagem da dívida pública. A carteira de títulos desta representa apenas 1/5 do valor da sua carteira de empréstimos. O BB, na verdade, está fazendo opção similar à de bancos com rede de agências com menor porte: dar prioridade aos ganhos de tesouraria. Parece que adotou uma gestão passiva com o objetivo de obter o lucro fácil e seguro (embora com a queda da taxa de juros não esteja muito elevado), no carregamento de títulos financeiros em vez de arriscar-se com o crédito rural sujeito à inadimplência e ao perdão político das dívidas. Talvez esse seja o efeito do trauma dos enormes prejuízos que teve em 1995 e 1996, que levaram à necessidade de aporte de capital do Tesouro Nacional Vale registrar que, excetuando o BB, esse grupo de "bancos gigantes" não está dando prioridade, em termos relativos, às aplicações em títulos e valores mobiliários. Todos os outros membros desse grupo têm uma carteira de títulos menor do que a de empréstimos. Isso é importante destacar, pois muitos analistas continuam a dizer, de maneira genérica, que "a prioridade dos bancos é obter os ganhos de tesouraria com o floating (disponibilidades líquidas aplicadas em títulos financeiros)". Quando verificamos essa relação entre as receitas com títulos e valores mobiliários (RTVM) e câmbio (RC) e as receitas com operações de crédito (ROC) e aplicações compulsórias (RAC), agrupadas segundo sua similaridade, constatamos que, de fato, o BB está faturando mais com aquelas. Além dele, somente o agrupamento "outros bancos" obtém mais receitas com tesouraria do que com crédito. O indicador referente à margem operacional — representado pelo quociente entre o resultado bruto de intermediação financeira, acrescido de receitas de prestação de serviços, e o ativo total — reflete o potencial de geração de receitas para cobertura da estrutura de custos da empresa financeira. As IFPF apresentam uma margem no primeiro semestre inferior a 3%, que representa o valor médio verificado no total do sistema bancário, que elas rebaixam. Da mesma forma, o spread no crédito (relação entre o resultado bruto de intermediação financeira e o total de operações de crédito) de cada uma dessas instituições é bem inferior ao spread dos bancos privados. Será que os autores "privatizantes" do Relatório de Alternativas para a Reorientação Estratégica do Conjunto das Instituições Financeiras Públicas Federais acham que o spread das IFPF deveria ser ampliado até um nível similar ao das instituições privadas?! Somente estabelecendo essa prioridade — maximizar rentabilidade via ampliação do spread no crédito — que os bancos públicos poderiam almejar alcançar relações similares entre o lucro líquido e o patrimônio líquido dos bancos "gigantes" privados. Buscar tais lucros através de operações de tesouraria, como demonstramos com a análise do caso recente do BB, resulta não só em menor retorno, como também em desvirtuamento da função principal dos bancos públicos: executar operações de crédito mais baratas para setores prioritários ao desenvolvimento econômico-social do país, não bem atendidos pelo setor privado. Fernando Nogueira da Costa Professor associado do Instituto de Economia da Unicamp e coordenador da área de economia da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), é autor dos livros "Economia em Dez Lições", "Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista" e "Ensaios da Economia Monetária". E-mail - -fercos@eco.unicamp.br Artigo fornecido pela Agencia Folha.