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Princesas Disney influenciam qual feminilidade?

Publicado em 24 fevereiro 2013

Por Raquel Loboda Biondi

Identificar os símbolos da feminilidade através de personagens infantis foi um dos pontos de partida para pesquisa da antropóloga Michele Escoura. Porém, os resultados do estudo - que envolveram análise de filmes da Disney pela percepção de crianças de Jundiaí e Marília - alcançaram, mais que resultados acadêmicos, uma necessidade atual: tentar demonstrar aos pequenos a diversidade existente em referências do que é ser uma mulher.

No Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Michele conduziu e finalizou a pesquisa que teve os primeiros passos já nos tempos de graduação em Marília, pela UNESP, com um grupo de estudos chamado Cultura e Gênero. "Neste grupo tive contato com um campo de pesquisa chamado "estudos de gênero", no qual se questiona as desigualdades entre homens e mulheres partindo da ideia de que essas diferenças não são determinadas puramente pela natureza, mas que são criadas simbolicamente pela sociedade, ou seja, que aquilo que entendemos por feminilidade ou por masculinidade é produto de um longo processo social e histórico", recorda a profissional.

Então, seguindo o que diz a filósofa existencialista e precursora do feminismo na França, Simone de Beauvoir (1908-1986) - "não nascemos mulher, nos tornamos mulheres" - Michele passou a questionar como se aprende a ser mulher.

Após discussões e linhas pensadas, a antropóloga chegou, junto ao grupo, à relação das crianças e mídia na composição dessa figura feminina desde a infância. "Aos poucos a pesquisa foi tomando forma, ganhou financiamento da FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) e desembocou na dissertação de mestrado defendida em novembro passado", diz.

Cinderela X Mulan - Ao perceber o grande consumo de produtos e marcas Disney por parte das crianças, Michele estendeu sua inicial pesquisa na graduação, sobre a influência da Cinderela na formação da mulher desde criança, a um contraponto reconhecido pela própria companhia: a Mulan. "No site da Disney, havia uma diferenciação entre as personagens femininas que compunham a marca Princesas Disney. Algumas delas eram descritas como 'clássicas' enquanto outras, como Mulan e Ariel (A Pequena Sereia), eram descritas como 'rebeldes'. Essa diferenciação me chamou muito a atenção e a partir dela delimitei os dois filmes que iriam servir de recorte para a pesquisa: Cinderela e Mulan", descreve.

A metodologia contou, então, com análise dos filmes sob o aspecto das narrativas, da construção das protagonistas, das diferenças e semelhanças entre elas e, depois, em segundo momento, dos dados da etnografia, ou seja, tudo o que foi observado no cotidiano das crianças.

Trabalho de campo - Foram 12 meses de convivência com crianças de cinco anos. "Fiquei quatro meses em cada uma das três turmas que acompanhei entre 2009 e 2011", lembra Michele. Em Marília, as visitas aconteceram em uma escola municipal. Já em Jundiaí, a experiência foi feita em uma escola municipal e em outra particular.

Após as exibições dos filmes para cada turma, a antropóloga solicitou que as crianças retratassem, em desenhos comentados, a cena mais relevante de cada um dos filmes. Entre os muitos elementos captados, alguns chamavam a atenção, como a necessidade de vínculo conjugal da princesa com um príncipe, ou ainda o padrão estético, de beleza e comportamento.

A escolha pela idade de cinco anos, segundo Michele, se deve ao fato delas estarem no último ano escolar antes do ensino fundamental, período em que as atividades seriam mais numerosas e as brincadeiras (alvo da análise), nem tanto. Já a escolha das cidades corresponde aos locais onde Michele morou na época da pesquisa. "Morei em Jundiaí aos 13 anos. Voltei para Marília, cidade próxima de onde nasci, Pompéia, e só depois da graduação voltei a morar em Jundiaí", conta Michele que, hoje, reside em São Paulo.

Resultados e padrões - Conforme definições do próprio site da Disney, enquanto Cinderela é a princesa 'clássica', passiva, sempre à espera de outras pessoas para resolver os seus problemas, Mulan é uma princesa rebelde, que a partir de suas ações, desencadeia os acontecimentos na história dos filmes.

Na percepção das crianças, em primeiro lugar, para uma mulher ser considerada princesa ela precisa de um príncipe, ou seja, ela precisa ter sucesso na busca de um par romântico, precisa estar dentro de uma relação amorosa e se casar. "Uma das meninas da pesquisa me disse: 'Para ser princesa precisa casar, né? Senão não vai ser princesa, vai ser solteira!'", conta Michele.

Em segundo lugar, segundo a antropóloga, as crianças disseram que para ser princesa é preciso estar dentro de um padrão muito específico de beleza. É preciso ser linda e elegante. "Esse ideal de beleza está relacionado a um padrão bastante opressor, onde só se considera linda uma mulher que seja jovem, magra, que tenha cabelos lisos, seja branca e, de preferência, loira. Ou seja, um padrão de beleza que exclui e desvaloriza toda a variedade e diversidade de pessoas e corpos femininos que existem", argumenta a antropóloga.

Com isso, Michele também percebeu o uso dos brinquedos e marcas das Princesas como forma de tornar as brincadeiras das crianças mais femininas. "O mal da relação com estes produtos não está na referência em si, mas em acreditar que esta é a única forma possível de ser uma mulher ou de ser feliz. É preciso que as meninas cresçam sabendo que existem outras formas delas serem felizes, de serem bonitas e aceitas. Que não é um dever delas se casarem ou se encaixarem nesse padrão de beleza para serem felizes."

Para ter mais informações sobre a pesquisa de Michele, basta acessar o site www.usp.br.