Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) registraram o nascimento do primeiro porco clonado do Brasil e da América Latina. O animal, que nasceu com 1,7kg em um laboratório do Instituto de Zootecnia em Piracicaba (SP), representa a base de um projeto focado na geração de suínos com modificação genética. O objetivo central é extrair órgãos desses animais para transplantes em humanos de forma segura e sem rejeição imunológica.
A iniciativa reúne cientistas do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR), com liderança do cirurgião Silvano Raia, da geneticista Mayana Zatz e do imunologista Jorge Kalil. O projeto possui fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e parceria com a farmacêutica EMS.
O xenotransplante (transferência de órgãos entre espécies diferentes) esbarra na rejeição imediata do corpo humano. Para contornar a barreira de defesa do organismo, a equipe brasileira adotou a ferramenta de precisão CRISPR/Cas9.
Os pesquisadores inativaram três genes de origem suína responsáveis por induzir a rejeição. Em seguida, a equipe inseriu sete genes humanos nas células do animal para aumentar a compatibilidade com o receptor. Os embriões com o genoma editado foram para o útero de fêmeas híbridas. Após uma gestação de quase quatro meses, o filhote nasceu saudável.
Ernesto Goulart, professor do Instituto de Biociências da USP e pesquisador principal do XenoBR, afirma que a saúde do animal comprova o domínio do processo. A equipe aguarda o nascimento de novas gestações em andamento.
Por que o porco?
A ciência escolhe o porco como potencial doador em razão das semelhanças de tamanho e funcionamento dos órgãos em comparação aos dos humanos. A espécie também possui fácil domesticação, boa reprodução em cativeiro e gera ninhadas grandes. A linhagem escolhida pelo projeto brasileiro cresce rápido e, aos sete meses de idade atinge o peso necessário para transplante em um humano adulto de 80 quilos.
A estratégia dos pesquisadores envolve a produção inicial de poucos casais de clones. A partir desse núcleo de matrizes, a ideia é evoluir o plantel de animais por meio de reprodução natural, o que anula a necessidade de clonagens sucessivas.
Os porcos ficam em dois laboratórios de grau clínico construídos com apoio da FAPESP: um no campus da USP em São Paulo (aberto em 2024) e outro no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (aberto no fim de 2025). As áreas possuem nível de biossegurança 2 e controle sanitário extremo para impedir a transmissão de patógenos, bactérias ou vírus para o receptor humano.
Foco no SUS
O projeto tem a missão expressa de abastecer o Sistema Único de Saúde (SUS), atual responsável por financiar e conduzir de 90% a 96% dos transplantes no Brasil. A pesquisa focou em rins, córneas, corações e tecidos de pele, órgãos que representam 94% da demanda total da rede pública.
O domínio nacional da técnica libera o Brasil da dependência em relação aos países que hoje lideram as pesquisas globais na área, como Estados Unidos e China. Goulart aponta que a importação de órgãos estrangeiros tornaria os custos do SUS insustentáveis. Com a pesquisa na USP, a meta é fornecer órgãos por uma pequena fração do valor estimado nos mercados americano e chinês.
A China e os EUA já testam o método em pacientes terminais (uso compassivo). Os casos internacionais englobam corações que deram sobrevida de 60 dias aos pacientes e um rim de porco que funcionou por mais de 270 dias em um humano.