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Jornal da USP online

Previsões para a Mata Atlântica

Publicado em 18 fevereiro 2014

Por Silvana Salles

Qual é a relação entre preservação da biodiversidade da Mata Atlântica e as placas tectônicas, os regimes de chuvas e o clima nos Andes? Para os pesquisadores que integram o programa Biota, da Fapesp, toda. De caráter multidisciplinar, o programa reúne trabalhos que procuram entender os aspectos históricos e a distribuição de espécies de plantas, fungos e animais nesse que é um dos principais biomas brasileiros. Com isso, busca-se produzir conhecimentos para subsidiar as políticas públicas para proteção, recuperação e uso sustentável dos recursos naturais, bem como contribuir para a educação ambiental de alunos do ensino fundamental e médio. Outro objetivo do programa é a identificação de processos e moléculas de interesse econômico para indústrias como a de alimentos, a farmacêutica e a de cosméticos.

Para compartilhar e debater metodologias e resultados de alguns dos trabalhos que compõem o escopo do Biota, professores, estudantes de pós-graduação, pesquisadores e profissionais que lidam com as questões envolvendo a biodiversidade se reuniram no dia 10, na sede da Fapesp, na zona oeste de São Paulo. O foco do seminário foi a formação de um arcabouço multidisciplinar para elaborar projeções a respeito da biodiversidade da Mata Atlântica. A programação abrangeu apresentações sobre biologia, geologia, modelagem climática, ecologia da paisagem, mudanças climáticas e paleobotânica, entre outros assuntos, e contou com palestrantes brasileiros e estrangeiros.

A construção de um arcabouço para a previsão de possíveis cenários para o futuro da biodiversidade em um bioma tremendamente afetado pelo crescimento urbano, as atividades econômicas e as mudanças climáticas é tarefa a que se propuseram Cristina Miyaki, professora do Instituto de Biociências (IB) da USP, e Ana Carnaval, professora assistente da City University of New York, nos Estados Unidos. As duas biólogas assinam juntas um projeto de pesquisa internacional aprovado em 2013 pela Fapesp e a norte-americana National Science Foundation (NSF).

Novas espécies – A Mata Atlântica é um dos seis grandes biomas do Brasil – sendo que o País abriga de 12% a 18% da biodiversidade do planeta. Ela possui tantos tipo de plantas e animais que, para se ter uma ideia de quão diversa é, basta lembrar que os cientistas ainda estão descobrindo espécies nas áreas de floresta: de 2011 para cá, biólogos descreveram novas espécies de sapos e pererecas em diversas áreas do País, uma borboleta no Rio Grande do Sul, um lagarto em Alagoas, o quandu-mirim em um fragmento de mata em Pernambuco, um gato-do-mato que vive nas regiões Sul e Sudeste e fungos antes desconhecidos no Sul, para citar alguns exemplos. Somente no âmbito do programa Biota, foram descritas mais de 2.500 novas espécies.

No entanto, é também o bioma mais ameaçado do País. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Fundação SOS Mata Atlântica, a área de vegetação nativa perdeu 23 mil hectares entre 2001 e 2012, a maior parte devido ao desflorestamento. Somando os trechos remanescentes considerados representativos para a conservação da biodiversidade, somente 8,5% da área original do bioma permanece preservada. Incluindo os pequenos fragmentos de floresta acima de 3 hectares, o índice sobe para 12,5%.

Ana Carnaval explicou que o objetivo do projeto de pesquisa conduzido com Cristina Miyaki é melhorar a compreensão dos padrões evolutivos que levaram à enorme biodiversidade da Mata Atlântica. O trabalho é feito por meio de coleta de

informações genéticas e mapeamento de espécies, combinados com dados de estações meteorológicas. Dessa forma, cria-se um modelo que permite entender qual é o clima ideal para as espécies estudadas. Esse modelo pode ser usado para produzir simulações e hipóteses acerca de onde estavam essas espécies em um período de até mil anos atrás, onde se localizavam seus principais refúgios, quais áreas tiveram acumulação ou perda de biodiversidade e, ainda, estimar os próximos passos do processo evolutivo.
Nesse tipo de abordagem, é importante também diferenciar os microclimas regionais. Embora a Mata Atlântica cubra boa parte da costa brasileira, as condições climáticas não são exatamente as mesmas em toda a extensão. É possível encontrar semelhanças entre o clima da Mata Atlântica no Nordeste e o clima do leste da Amazônia. No entanto, a porção sul da Mata se assemelha mais ao clima dos Andes e à seção oeste da Amazônia.

Segundo Ana Carnaval, os mecanismos responsáveis pelas mudanças ambientais e as respectivas respostas genéticas dos organismos estão diretamente ligadas a “conexões por sistemas de transportes fundamentais para gerar a enorme biodiversidade da Mata Atlântica, que é um refúgio”. Ou seja, os animais seguiam por rotas que ligavam diferentes paisagens da América do Sul, de forma a criar um sistema interligado.

O entendimento de um sistema interconectado é também essencial para a formulação de políticas de preservação e reconstrução de matas. De acordo com Milton Cezar Ribeiro, professor do Departamento de Ecologia da Unesp em Rio Claro e responsável pelo Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação, as estratégias de conservação devem considerar grandes áreas de mata, que permitam núcleos de floresta virgem ou menos perturbadas pela ação humana, e pequenas áreas que devem ser mantidas como mosaicos funcionalmente conectados.

As atividades de agropecuária vizinhas às áreas preservadas também devem ser consideradas, assim como a existência de rios e estradas e as demandas da população que vive no entorno, de forma a possibilitar que as pessoas se mantenham na região e melhorem a forma de interação com o ambiente. “É precis

o planejar também a matriz do uso da terra na área que não é conservada”, afirmou Ribeiro. “Precisamos pensar um planejamento em larga escala. Não adianta plantar floresta se não entendemos como se dá a paisagem”, completou.
Além disso, mesmo no caso de restauração de florestas que foram desmatadas, plantar árvores não garante a exuberância da biodiversidade. Onde a mata deixou de existir, perdeu-se biodiversidade. Por isso, também é importante estudar como reintegrar a fauna no reflorestamento.

Passado evolutivo – “Existe a ideia de que o Brasil é uma área de pouca atividade sísmica, porque estamos longe das bordas das placas tectônicas. Não é bem isso. Temos bastantes terremotos. Nós não os sentimos tanto porque eles são fracos ou profundos, mas eles influenciam na paisagem. Há falhas que cortam depósitos quaternários, recentes. A Serra da Mantiqueira, por exemplo, é muito recente”, disse Carlos Grohmann, professor do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental do Instituto de Geociências (IGc) da USP.

Trabalhando com uma datação mais distante, as disciplinas de geomorfologia e paleoclima procuram compreender de que forma os processos geológicos podem ter proporcionado a diferenciação das espécies. Para isso, fósseis, espeleotemas de cavernas e o estudo da paisagem e dos regimes de chuvas são ferramentas importantes para tentar reconstituir padrões paleoclimáticos. Também nessas disciplinas, é importante perceber as afinidades climáticas entre a seção nordeste da Mata Atlântica e o leste da Amazônia e entre a seção sul-sudeste da Mata Atlântica, o oeste da Amazônia e a Cordilheira dos Andes.

“É mais fácil estabelecer um corredor entre o sul da Mata Atlântica e o oeste da Amazônia do que um do sul ao norte da Mata Atlântica. Isso bate muito bem com o padrão de distribuição de aves identificado pela pesquisadora Camila Ribas (cientista que estuda demografia, biogeografia e diferenciação de aves tropicais, principalmente na Amazônia)”, afirmou Francisco Cruz, também docente do IGc.

As barreiras geográficas, que podem ser serras, rios ou falhas são alguns dos fatores que podem ter resultado na diferenciação das espécies, já que eventos geológicos podem ter, no passado, separado populações de animais ou condicionado novas rotas de migração. “Vemos possibilidade de interação do nosso grupo com o grupo da biologia para estudar como era a Mata Atlântica e sua biodiversidade no passado”, sugeriu Grohmann durante o seminário.

Protocolo de Nagoya – O programa Biota da Fapesp teve início em 1999, após três anos de discussão no meio acadêmico, quando foi criado como um instituto virtual para unir pesquisadores, estudantes e instituições por meio de ferramentas de internet. A base da fundação do programa é a Convenção da Biodiversidade Biológica, um tratado da Organização das Nações Unidas (ONU) estabelecido na Eco-92, a reunião sobre sustentabilidade realizada em 1992 no Rio de Janeiro. Hoje, conta com mais de mil envolvidos em São Paulo, em outros Estados e no exterior, entre professores, pesquisadores, alunos de pós-graduação e graduandos em iniciação científica.

A segunda fase do programa, que teve início em 2009, inaugurou parcerias internacionais com a NSF, dos Estados Unidos, o National Environment Research Center, do Reino Unido, e o programa Diversitas de pesquisas sobre biodiversidade. As plataformas on-line do Biota-Fapesp incluem um portal (www.biota.org.br), a revista científica Biota Neotropica e um amplo banco de dados sobre espécies tropicais.

Todas as informações produzidas no âmbito do programa são disponibilizadas gratuitamente na internet. O acesso é público e um dos objetivos é que os dados sirvam para subsidiar decisões e políticas do poder público. Outra meta é contribuir para melhorar o ensino básico. Um dos resultados do trabalho é a atualização dos mapas dos remanescentes de mata nativa, que datavam então de 1972, e o cruzamento com o banco de dados sobre fauna e flora. O programa também conecta quase 300 coleções biológicas de toda a América Latina e teve mais de mil artigos indexados em jornais científicos ao longo de 12 anos.

Com tantos números positivos para recordar, o professor Carlos Joly, professor da do Instituto de Biologia da Unicamp e coordenador do Biota-Fapesp, destacou ainda dois desafios políticos para quem trabalha com a questão da biodiversidade em 2014: a campanha pelo tombamento da Serra da Mantiqueira e a briga pela ratificação do Protocolo de Nagoya. O protocolo é um documento complementar à Convenção sobre Biodiversidade Biológica, que dispõe sobre o acesso e a repartição justa dos benefícios gerados pelo uso do patrimônio genético de um país e os conhecimentos tradicionais associados a ele. O texto que propõe que o Brasil ratifique o documento internacional está parado no Congresso Nacional.
“É fundamental que o Brasil, que é um país megadiverso e tem todo o interesse em proteger a biodiversidade, ratifique o protocolo antes da 22ª conferência das partes da convenção. É um trabalho que inclui pressão junto aos parlamentares”, explicou Joly.

Questionado sobre como o Biota-Fapesp lida com decisões governamentais que prejudicam o ambiente, Joly afirmou que o diálogo com o poder público, em todos os níveis, tem sido muito difícil nos últimos quatro anos. “Até o final do governo (estadual) passado, a nossa relação com a Secretaria do Meio Ambiente era de parceria muito intensa, tanto é que nossos mapas passaram a ser utilizados para aperfeiçoar a legislação. Acho que nos últimos quatro anos, em todos os níveis de governo, está se desmontando uma legislação ambiental que foi construída ao longo de anos de luta. A duplicação da Rodovia Tamoios e a construção dos anéis viários de Caraguatatuba, por exemplo, são obras de que o Estado tem necessidade, mas a discussão sobre os impactos e as compensações poderiam ter muito mais participação da comunidade científica. As compensações de fato equivalem ao impacto que está sendo causado”, disse o coordenador.