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Presidente da Academia Brasileira de Ciências menciona a meta de investir 2% do PIB em C&T

Publicado em 31 maio 2007

"C&T constituem, afinal, o passaporte para o avanço sócio-econômico da Nação e de sua presença afirmativa e altaneira, mas sobretudo solidária, como parte da agenda positiva de comunicação entre os povos"

Leia a íntegra do discurso do presidente da ABC:
"Iniciamos, com a Reunião Magna de 2007 da ABC, nova etapa na vida desta Instituição de primeira importância para a ciência e a sociedade brasileira. É com orgulho que divido sua direção com meus colegas Hernan Chaimovich, Evando Mirra, Ivan Izquierdo, Jerson Lima, Luíz Davidovich e Marco Antonio Zago.
O momento é precioso, pois nas últimas décadas a área de C&T evoluiu consideravelmente em nosso país. Somos muito mais visíveis perante o mundo científico e, felizmente, também perante nossa sociedade, uma vez que nossa produção científica de qualidade vem crescendo consistentemente nas últimas três ou quatro décadas.
Quanto ao apreço da sociedade pela ciência e pelos cientistas, recente pesquisa de opinião mostrou índices bem superiores aos constatados há 20 anos atrás. Igualmente crescente é a importância de C&T junto aos Governos Federal e Estaduais.
Também é claro que muito mais deve ser feito para atingirmos investimentos da ordem de 2% do Produto Interno Bruto, piso atingido por países mais desenvolvidos. Esses recursos devem ser aplicados com um rigor que nos leve a um patamar mais elevado de competência em C&T.
É importante notar que até 2010 não haverá nenhum contingenciamento dos fundos setoriais, reconhecidamente uma conquista do atual ministro.
Uma parceria mais abrangente e frutífera com o setor produtivo dependerá também do aporte do próprio setor produtivo neste total.
Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação são objetivos cruciais para a Nação e, certamente, poderão ser plenamente alcançados, sendo necessário para tanto a garantia de sólidos e crescentes investimentos em ciência e tecnologia básicas.
O momento é precioso, pois temos plena confiança de que nosso Ministro de C&T, acadêmico Sérgio Rezende, compartilha efetivamente dessa visão, assim como os demais dirigentes do MCT e de suas agências, CNPq e Finep e de Ministérios irmãos, como o MEC, e neste a Capes, o MDIC, e neste o BNDES e o Inmetro, o da Agricultura, e neste a Embrapa, o da Saúde, o MRE e o da Cultura, dentre outros.
Ciência e tecnologia constituem, afinal, o passaporte para o avanço sócio-econômico da Nação e de sua presença afirmativa e altaneira, mas sobretudo solidária, como parte da agenda positiva de comunicação entre os povos.
E o momento também é precioso por constatarmos importante e crescente engajamento de Secretarias Estaduais de C&T e suas agências de amparo à pesquisa, existentes e ativas em muitas unidades da União, com destaque para a Fapesp, a Faperj, a Fapemig, a Facep, a Fapeam e a Fapergs.
Assinale-se a postura cada vez mais positiva das empresas em promover elas próprias P&D&I, como a Petrobras, que já o faz há muito e com grande sucesso, entre tantos outros exemplos.
Neste quadro, mais do que nunca é essencial o papel da ABC.
Cabe à nossa Casa reconhecer a excelência científico-tecnológica dos pesquisadores, chamando a integrar seus quadros aqueles que mais se destacam na pesquisa e na liderança que exercem ao fazer avançar a Ciência.
A escolha, a critério exclusivo dos titulares eleitos em anos anteriores, faz com que os membros da ABC sejam os mais legítimos representantes de nossa ciência.
Esse fato confere à ABC papel extraordinário e mesmo único de mobilização da comunidade de pesquisadores para o avanço de C&T no país, o que implica em imensa responsabilidade.
Para trazer ainda mais ciência à nossa Casa e, sobretudo, para ampliar e valorizar a riqueza do conhecimento produzido pelos membros da ABC, daremos seqüência, com diferentes grupos de acadêmicos, a conferências como a realizada, com extraordinário sucesso, no início deste ano com cerca de sessenta colegas das diversas áreas de conhecimento.
Também serão convidados dirigentes das nossas principais entidades de C&T para discutir conosco sua visão das perspectivas para o setor.
Com o apoio da TWAS-Rolac, Escritório Regional para a América Latina da Academia de Ciências para o Mundo em Desenvolvimento-TWAS, pretendemos contar sempre com pesquisadores de grande destaque de outros países da América Latina que dêem breve e abrangente relato da ciência em seus países, visando ao aumento do conhecimento recíproco de nossas pesquisas e, em última análise, da cooperação científica em nossa Região.
Nesse sentido, será também fundamental o apoio da Ianas — InterAmerican Network of Academies of Sciences e do Escritório Regional do International Council for Science — ICSU, o que também põe em destaque nosso objetivo de ampliar de forma coordenada as ações da ABC, uma vez que essas entidades internacionais optaram todas elas por sediar em nossa Casa seus Escritórios regionais.
Importante aspecto da atuação da ABC, nessa nova fase, será a instalação de grupos de estudos sobre variados temas de característica multidisciplinar e de primeira importância para a sociedade e o avanço da ciência.
Com isso, a ABC oferece sua opinião qualificada e isenta sobre tópicos candentes, visando sua melhor compreensão e a possível adoção de políticas apropriadas para tratá-los.
Vários dos grupos de estudos, já estão trabalhando intensamente, como: os da Amazônia, o de Ensino de Ciências no Nível Básico e o de Aprendizagem Infantil, fruto das propostas emanadas do último encontro do nosso Conselho Consultivo em 2006.
Hoje estamos instituindo o grupo de estudos da ABC sobre Mudanças Climáticas e seus Impactos Ambientais, e estão, também na agenda da ABC, outros grupos, que tratarão temas como: doenças parasitárias, biotecnologia e alimentos transgênicos, energia-bioenergia e nanociências, doenças crônico-degenerativas e trauma e violência.
Para esses, esperamos contar com o mesmo entusiasmo e engajamento de outros membros da Casa, comparável ao daqueles que se dispuseram a dedicar sua inteligência e seu esforço para a produção de documentos propositivos, fortes e de grande impacto, tais como os realizados sobre a Reforma do Ensino Superior e sobre uma Política de Estado para Ciência, Tecnologia e Inovação.
Reafirmamos o compromisso da ABC de ampliar seus esforços para promover a presença da mulher na ciência nacional, ainda com participação insuficiente nas diversas áreas do conhecimento.
Exemplo muito significativo, que poderá ser ampliado, eventualmente alterando seu formato e a fonte de recursos, é o da Bolsa-Grant da ABC em parceria com a L'Oréal e a Unesco, o qual premiará em setembro próximo, sete jovens pesquisadoras das áreas de Biologia, Física e Astronomia, Matemática e Química.
São iniciativas como essas que podem levar ao crescimento do número de Acadêmicas em nossos quadros. Tivemos hoje a alegria de acolher quatro delas.
Outra prioridade da ABC é estimular a presença de jovens cientistas em nossas atividades, como bem retrata a presente Reunião Magna Anual, com palestras nas áreas de Engenharia, Ciências Humanas, Ciências Biomédicas, Ciências da Saúde e Agricultura, complementando áreas do Simpósio de Jovens Cientistas de 2006.
Fizeram também parte do programa desta nossa Reunião Anual, palestras dos jovens cientistas premiados pela TWAS-Rolac no âmbito da América Latina, nas áreas de Ciências Biomédicas, Biologia, Matemática e Física.
Mas é preciso que essa mobilização de jovens se dê em todas as regiões do país, pois o talento não escolhe lugar onde nascer, sendo necessário cultivá-lo para que possa realizar a plenitude de seu potencial.
Assim, a direção da ABC está criando, inicialmente como órgãos assessores da diretoria e, posteriormente, como parte da proposta de alteração do Estatuto, seis Vice-Presidências Regionais, compreendendo Minas Gerais e Centro-Oeste, Nordeste, Norte e Sul, além do Rio de Janeiro e de São Paulo.
A elas caberá promover e reproduzir em suas Regiões atividades da ABC conferindo-lhes caráter regional e, de quando em quando, nacional e colaborar com a direção da ABC no aumento de sua presença em todo território nacional, tendência irreversível, como mostra hoje a diplomação dos novos Membros, que representam 8 estados da federação.
Deverão também indicar anualmente cinco jovens pesquisadores de talento de suas Regiões para se afiliarem à ABC, por um período não renovável de cinco anos, um estímulo para que se tornem, no futuro, integrantes desta Casa.
Cabe mencionar, ainda, o grupo de trabalho, em cooperação com a SBPC, de Acompanhamento do Orçamento Nacional de C&T.
É também inalienável nosso compromisso com a difusão da ciência em nosso país, expresso no projeto da ABC em parceria com o MCT, além de nossa atuação internacional, participando nos projetos e ações desenvolvidos pelo ICSU e pelo InterAcademy Panel, o qual congrega 93 Academias de Ciências de todo o mundo, e com a IANAS.
Mais recentemente, fomos incorporados ao grupo de Academias que subsidia o G-8, além de integrarmos o Consortium for Science, Technology and Innovation for the South (COSTIS), formado pelo Grupo dos 77 e o Science and Technology for Society Forum — STS Forum.
Como mencionado acima, a presença da Ciência Brasileira, em particular da ABC nos fóruns internacionais cresceu enormemente em anos recentes e isso inclui todas as entidades mencionadas acima, a Academia de Ciências para o Mundo em Desenvolvimento — TWAS, o International Council for Sciences - ICSU, o InterAcademy Panel — IAP, o InterAmerican Network of Academies of Sciences — IANAS e o InterAcademy Council — IAC, formado por uma parte das Academias de Ciências que integram o IAP.
O relato de Eduardo Krieger, quando da nossa posse, pintou com cores fortes nossa atuação nessas entidades, como dirigentes, como coordenadores de estudos científico-tecnológicos internacionais e como co-signatários de documentos posicionando as Academias de Ciências frente a temas de primeira importância para a humanidade.
Em todas essas atividades a ABC tem encontrado forte apoio do MCT e suas agências CNPq e Finep.
O reconhecimento da relevância de nosso papel na cooperação internacional, culminou com o protocolo tripartite de coordenação de esforços com o MCT e o MRE.
Hoje, a ABC co-dirige o Conselho Científico do Acordo de Cooperação Brasil-Índia, posição que lhe foi confiada pelo MCT, mantendo-se estreita sintonia de atuação em prol dos nossos interesses científico-tecnológicos.
Desenha-se algo semelhante com relação ao México, à China e outros países.
Para tanto, a ABC conta com uma pequena, em número, mas grande em competência, assessoria internacional. Continuaremos nesse caminho onde à frente certamente abrir-se-ão novas avenidas, em benefício do avanço de nossa ciência e, diretamente, da sociedade brasileira.
Termino deixando no ar a pergunta: E como tudo isso é possível sendo tão modestas as instalações da presente sede da ABC?"