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Agência USP de Notícias

Presidente da Academia Brasileira de Ciências faz diagnóstico da ciência nacional em evento do IEA

Publicado em 09 março 2006

Por Fábio de Castro
Com a conferência "Perspectivas da Ciência e Tecnologia no Brasil", o presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Eduardo Krieger, abriu na última quarta-feira a programação de eventos públicos do Instituto de Estudos Avançados (IEA) em 2006.
Para Krieger, houve um avanço significativo nas últimas décadas na produção científica e na formação de novos pesquisadores, consolidando-se a base científica indispensável para que o conhecimento seja efetivamente transformado em desenvolvimento do País. "A posição brasileira sob o ângulo da ciência é ascendente, com uma boa capacitação científica. Houve um notável desenvolvimento na década de 80, com grande aumento na produção de doutores e publicações internacionais. Tivemos, neste cenário um salto de quantitativo e, até certo ponto, qualitativo".
O professor defendeu que poder econômico e capacidade cientifica e tecnológica andam de mãos dadas. "A combinação desses dois fatores, de forma bem estruturada, leva os países ao desenvolvimento", afirmou, exibindo gráficos que demonstram que a produção científica acompanha o crescimento da economia. "O melhor exemplo da ligação entre desenvolvimento e capacidade endógena de Ciência e Tecnologia é a China", afirmou.

Capacidade científica ascendente
Segundo ele, a produção científica tem crescido a uma taxa média de 8% ao ano e o Brasil aparece bem cotado como destino de investimentos de transnacionais em pesquisa e desenvolvimento.
O crescimento da capacidade científica do país, na opinião de Krieger, foi relativamente homogêneo em todas as áreas. Mas a Física e as ciências agronômicas e agrícolas têm no país uma representação maior que a média internacional. "O destaque negativo são as ciências humanas e sociais, onde estamos notavelmente abaixo da média mundial. Produzimos muito nestas áreas, mas nossa produção não atinge indexação científica, que é um critério importante para medir a capacidade científica".
Outro dado relevante observado por Krieger é que o aumento da produção científica no Brasil foi acompanhado de uma intensa colaboração internacional. "Cerca de 30% da produção científica nacional tem colaboração internacional. E esta participação aumenta proporcionalmente ao crescimento da nossa produção científica". O país que mais colabora com a pesquisa brasileira são os Estados Unidos, que têm 40% da produção científica mundial. Mas somando-se a colaboração com os países da União Européia, ela já ultrapassa a parceria com os norte-americanos.

Conhecimento concentrado nas Universidades públicas
Para Krieger, a formação de doutores foi um dos maiores destaques no cenário científico nacional. "Triplicamos o número de doutores a cada 10 anos desde a década de 50. Começamos com menos de 1 doutor por mil habitantes em 2001, hoje já está temos seis. Neste ritmo, logo alcançaremos França, Alemanha, Reino Unido e Coréia do Sul, que variam num platô ao redor de 10 doutores por mil habitantes. Os EUA têm 25". De 1989 a 1999, o Brasil o número de doutores brasileiro cresceu em média 14% ao ano, segundo o professor.
A Universidade, diz o professor, é responsável por grande parte do conhecimento, mas há uma distorção entre os setores público e privado. De 80 a 82% da produção científica nacional está na Universidade pública. Cerca de 15% está em entidades públicas não universitárias, como Embrapa e Instituto Adolpho Lutz. Outros 5%, em entidades privadas.
"A distorção é que a Universidade pública responde por 80% do conhecimento, mas tem menos de 30% dos alunos. O setor público universitário está perdendo terreno neste aspecto.
Krieger considera que é o momento de governo, academia e empresas se unirem para que o País utilize esses recursos de forma a transferir o conhecimento ao setor produtivo, de forma a aumentar a riqueza e melhorar a qualidade de vida dos brasileiros.

Patentes: o termômetro do desenvolvimento
Um dos principais índices de desenvolvimento dos países, segundo ele, é a capacidade de gerar patentes. Os EUA registraram 34% das patentes no mundo em 2004. O Japão 19%. Alemanha 11%. Nós temos 0,2%, embora com 1,7% da produção científica internacional. "Há uma boa relação entre o número de patentes e aquilo que o país representa internacionalmente no plano científico. Mas quem gera patentes é a indústria. Estamos perdendo terreno, porque no Brasil a indústria não desenvolve tecnologia e inovação".
Apesar das dificuldades, com a melhora da produção científica o professor acredita que a indústria começa a se relacionar melhor com o conhecimento. "Há um diálogo crescente entre comunidade científica, empresas e governo. O ranço de que o cientista ficava na torre de marfim está praticamente superado. Temos exemplos de sucesso como a Embraer e a Petrobrás, temos um crescimento científico de 8 % ao ano, grupos de excelência ganhando reconhecimento internacional, crescente inserção global, ganho de competitividade e a consolidação de uma liderança na América Latina", diagnosticou.
O grande desafio do país, na opinião do especialista, é aumentar os núcleos de excelência ao mesmo temo em que se expande a pesquisa. "Toda política que não levar em conta a qualidade, não está encaminhando para a competitividade. Sem expansão também não há competitividade. Temos que aumentar a interdisciplinaridade da nossa ciência e a cooperação internacional", afirma.

Quem é Eduardo Krieger
Livre docente pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, onde se aposentou em 1985, Eduardo Krieger é presidente da Academia Brasileira de Ciências desde 1993. Colaborou com a reforma da USP em 1968-1969, trabalhou em comissões do CNPq, Capes e FAPESP, foi presidente da Sociedade Brasileira de Fisiologia, primeiro presidente da Federação das Sociedades de Biologia Experimental e primeiro presidente da Sociedade Brasileira de Hipertensão. É um dos três editores que fundaram e dirigem o "Brazilian Journal of Medical and Biological Research". Há vinte anos trabalha com hipertensão no Instituto do Coração da Faculdade de Medicina da USP, onde dirige uma equipe multidisciplinar.
Fonte: USP Online