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Jornal da USP online

Preservar o quê?

Publicado em 20 maio 2015

“O problema da preservação e da memória da arte contemporânea acompanha o MAC/USP desde seus anos iniciais. Na introdução do primeiro catálogo geral do Museu, publicado em 1973, seu primeiro diretor, Walter Zanini, observa que muitos trabalhos multimídia e experimentais estavam fora daquele inventário do acervo e alerta sobre a necessidade de tais obras, de difícil catalogação, serem devidamente estudadas e incluídas num inventário mais abrangente, no futuro”, explica Cristina Freire, professora titular e curadora do Museu de Arte Contemporânea (MAC) da Universidade de São Paulo. “Essa segunda parte da catalogação da coleção do MAC/USP, ou melhor dizendo, a entrada de tais trabalhos conceituais na coleção esperaria muitos anos para ser concluída. Isso porque tal operação deveria necessariamente estar ancorada numa discussão teórica e crítica mais ampla, pois mobiliza a relação tensa entre o museu e as práticas artísticas contemporâneas”.

A discussão apresentada, acerca da conservação da arte contemporânea e seus desafios, é o tema central do livro Arte Contemporânea: Preservar o quê?, organizado por Cristina e realizado com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Grupo de Estudos em Arte Conceitual e Conceitualismos no Museu (GEACC). A publicação é fruto do seminário homônimo ao livro, realizado em outubro de 2014 no próprio Museu. O evento – que também contou com organização da professora Cristina, em parceria com Humberto Farias de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e apoio do GEACC e do Programa de Pós-Graduação Interunidades em Estética e História da Arte (PGEHA) da USP –, teve a participação de profissionais da preservação-restauração de arte contemporânea da Espanha e de Portugal, além de nomes brasileiros vinculados a museus e instituições públicas e privadas do País. O livro reúne ensaios de nomes como Lino Garcia Morales, da Universidade Politécnica de Madri (Espanha); Lúcia Almeida Matos e Andreia de Magalhães, da Universidade do Porto (Portugal); Arianne Vanrell, do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia (Espanha); e Suely Rolnik, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Nos artigos são apresentadas questões atuais discutidas no mundo todo: a preservação da arte contemporânea – por quê? Como? E o quê? “A preservação de uma obra de arte requer não apenas competências técnicas especializadas, mas, sobretudo, uma visão de longo alcance que reconheça, em um único gesto, o valor cultural da obra e sua irredutível materialidade. O compromisso de preservar uma obra implica uma ética patrimonial, ou seja, o engajamento em transmitir para gerações futuras um bem, criado em qualquer época, ao qual temos acesso direto no presente”, afirma no prefácio da obra o artista Eduardo Kac, pioneiro na arte digital. Para ele, a questão da preservação da arte se materializa sob três vertentes: “temos, de um lado, obras das quais desfrutamos graças ao empenho daqueles que nos precederam, trabalho ao qual cabe a nós darmos continuidade; deparamo-nos ainda com obras, criadas ou adquiridas no presente, em determinado estado de conservação, cuja perpetuação se impõe a meio curso; finalmente, nos melhores casos, compreendemos também que o caminho em direção ao futuro clama por uma ‘preservação preventiva’, ou seja, tomarmos decisões antecipatórias que retardem ao máximo a perda ou o desgaste dos materiais que constituem a obra”.

Partindo deste cenário, a arte digital ganha destaque e demanda atenção, uma vez que é realizada a partir dos mais diferentes materiais, “de substâncias perecíveis a tecnologias rapidamente superadas por outras que as tornam obsoletas”. Sobre essa particularidade, a autora atenta para a necessidade de uma revisão das práticas museológicas convencionais. “Os aparatos da tecnologia e os recursos da memória digital impõem-se como ferramentas a serem incorporadas. Assim, os instrumentos de preservação digital devem ser constantemente atualizados e adaptados à práxis museológica no que se refere à arte contemporânea nos museus”, explica. Em relação à apresentação de obras multimidiáticas, ela ainda destaca algumas dúvidas relacionadas à sua exibição: “quais as implicações de manter os equipamentos originais vintage (projetores de slides, projetores de filmes Super 8, televisores antigos) na apresentação dos trabalhos? Seria aconselhável migrar a obra para um meio da mais recente tecnologia digital disponível ou emular seus efeitos?”.

Além dos ensaios, o livro traz um glossário com os principais termos utilizados na bibliografia referente ao tema, além da seção Canteiro de Obras, que apresenta uma série de estudos de caso expostos por conservadores-restauradores e especialistas de instituições como o próprio MAC/USP, a Pinacoteca do Estado de São Paulo, o Instituto Itaú Cultural, o Instituto Rubens Gerchman (RJ), a Universidade Federal do Rio de Janeiro e o Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Eles apresentam estudos que partem de obras contemporâneas, destacando aspectos do processo de documentação, conservação-restauro e de guarda e exibição de obras, com o objetivo de problematizar os procedimentos e práticas adotados a partir de impasses concretos enfrentados no cotidiano dos museus. “São inúmeras as possibilidades de articulações entre os saberes das ciências humanas e as práticas de documentação e registro no que se refere à dinâmica de construção da memória da arte contemporânea”, resume a autora.

O livro Arte Contemporânea: preservar o quê?, organizado por Cristina Freire, é distribuído gratuitamente e pode ser solicitado ao próprio Museu de Arte Contemporânea da USP (tel. 2648-0254).