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FAPERJ - Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro

Prêmio Faz Diferença contempla três pesquisadores da Fundação

Publicado em 19 janeiro 2012

A divulgação dos nomes dos que conquistaram o prêmio Faz Diferença, iniciativa do jornal O Globo, colocou sob os holofotes o trabalho de três pesquisadores da FAPERJ: o neurocientista Stevens Kastrup Rehen, professor titular do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), por suas pesquisas com células-tronco, em especial o projeto em que vem conseguindo reprogramar células da pele de esquizofrênicos como neurônios; o professor Ítalo Moriconi, da editora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e um dos curadores da Bienal do Livro, pelo trabalho de divulgação da literatura e poesia contemporâneas; a médica Denise Pires de Carvalho, atual diretora do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pelas pesquisas em fisiologia endócrina, em particular doenças da tireóide e as formas mais eficazes de tratamento. A entrega da premiação será feita em março.

Quando se fala em pesquisas sobre células-tronco no Brasil, o nome de Stevens Rehen é sempre citado. "O prêmio é uma honra e principalmente uma forma de divulgar para a sociedade a ciência que é feita no país, o trabalho desenvolvido nas universidades brasileiras por nossos pesquisadores. Se o Brasil quer crescer, nosso desafio é trabalhar para transformar essa ciência em aplicações para a sociedade", diz Stevens Rehen, Cientista do Nosso Estado, da FAPERJ.

Atualmente, Rehen estuda a eficácia de substâncias para tratamento da esquizofrenia, testando-as em neurônios. Não qualquer neurônio, mas aqueles reprogramados a partir de células da pele de pacientes com a doença. Como preservam as características dos pacientes dos quais foram retiradas, essas células permitiram ao pesquisador observar algo inédito: elas apresentam intenso estresse oxidativo. Em outras palavras, no cérebro de pacientes esquizofrênicos, a produção de radicais livres é bem maior do que no cérebro de pessoas saudáveis. "Essa é uma pista importante para acelerar a identificação de substâncias mais eficazes para um eventual tratamento. Com a vantagem de que, para isso, não precisamos experimentar no próprio paciente. Basta testar em laboratório", explica.

Mas mesmo o reconhecimento do trabalho de sua equipe não impediu que em várias ocasiões, para adquirir material de pesquisa, eles se vissem às voltas com os entraves da burocracia. Problema em grande parte resolvido pelo trabalho dos próprios pesquisadores do grupo, que passaram a produzir diversos reagentes, assim como as células-tronco que utilizam em seus estudos. Melhor ainda, eles cedem esse material – gratuitamente ou a preço de custo – a todo e qualquer pesquisador interessado, de universidades de todo o país. "Também oferecemos cursos práticos – que no exterior custariam entre 4 e 5 mil dólares – inteiramente de graça. Com tudo isso, conseguimos reduzir a dependência pelo exterior e a burocracia envolvida com a importação", argumenta Rehen. Com uma média de um artigo publicado a cada dois meses em revistas indexadas, a equipe de Rehen vê seu trabalho também sob outra perspectiva. "Queremos gerar royalties para o país e para universidade brasileira, e com isso conseguir produzir mais ciência."

É mais ou menos o que pensa atual diretora do Instituto Carlos Chagas Filho, a médica Denise Pires de Carvalho. Premiada por suas pesquisas sobre o funcionamento da glândula tireóide, ela vem trabalhando junto com o clínico Mario Vaisman, que estuda hipo e hipertireoidismo. Os dois são Cientistas do Nosso Estado. É a união de pesquisa básica com a clínica, para se chegar ao tratamento mais eficaz no combate ao câncer da tireóide, e possivelmente a outros tipos de câncer, como o de mama e de próstata. Denise entra com seus anos de estudos sobre a fisiologia da tireóide, enquanto Vaisman soma sua experiência clínica a esta equação. O resultado tem sido as pesquisas conjuntas sobre a aplicação do ácido retinóico – o mesmo usado em dermatologia – como coadjuvante no tratamento de câncer.

"Nos casos em que o carcinoma de tireóide não responde ao tratamento, em geral observamos que essas células não apresentam transportadores de iodo. O ácido retinóico faz com que as células voltem a captar esse iodo, possibilitando a atuação da radioiodoterapia", explica Denise. É o que tem acontecido com 30% desses pacientes, que têm sobrevida prolongada de poucos meses para cerca de quatro anos. Na busca de soluções eficazes para os restantes 70% desses doentes, Denise e equipe vêm se empenhando – em colaboração com o Instituto Gustave Roussy, referência para o estudo de câncer na França –, na pesquisa de outras substâncias, que possam, inclusive, ser empregadas em outros tipos de tumor.

Em sua opinião, o prêmio Faz Diferença é o reconhecimento por seus longos anos de pesquisas. "O Instituto Carlos Chagas Filho é uma instituição de excelência em pesquisa, que continua dando aulas tanto na graduação quanto na pós-graduação. Isso acaba atraindo o interesse dos alunos para essa área. O que queremos é manter esse alto nível." Para a pesquisadora, a atuação da FAPERJ também vem ajudando os pesquisadores fluminenses. "Sem esse apoio financeiro não teríamos conseguido chegar até aqui. Hoje, os entraves são outros, os burocráticos. Diferente de pesquisadores em outros países, pagamos mais e precisamos esperar mais tempo por material importado para nosso trabalho", Denise ecoa as críticas de Rehen. Segundo Denise, uma sugestão talvez seja a criação, junto à agência de fomento do estado, de um órgão para intermediar essas aquisições, no modelo adotado pela Fapesp. "Esse pode ser um bom exemplo", diz.

Com seus trinta e tantos anos de trabalho como professor, o editor da EdUerj, Ítalo Moriconi, um dos curadores da Bienal do Livro, tem movimentado o panorama da literatura e da poesia contemporânea, organizando coletâneas, como a coleção Ciranda da Poesia, que reúne professores, críticos literários e poetas em torno de antologias sobre a nova poesia. Para dinamizar ainda mais a área, Moriconi também vem organizando novas leituras de poetas analisando a geração imediatamente anterior, como a de 1970.

Sua atuação, no entanto, não se resume à literatura. Em 2010, o livro Rio Científico mostrava que o Rio de Janeiro é muito mais do que apenas uma cidade conhecida por suas belezas naturais. Sob a coordenação geral de Moriconi e coordenação científica de Antonio Augusto Videira, também da Uerj, uma equipe de 14 pesquisadores em diferentes área do conhecimento – engenheiros, historiadores, arquitetos e educadores – mostrava a evolução da cidade, tanto do ponto de vista de seu crescimento urbano quanto da história das instituições onde se faz a ciência fluminense.

"O prêmio Faz Diferença abre novas portas, traz novas possibilidades. Mas também me faz sentir uma maior responsabilidade com o trabalho na Eduerj e na Bienal do Livro", diz Moriconi. Ao contrário de acadêmicos que torcem o nariz às novas mídias, como a Internet, ele acha que as novas tecnologias da comunicação auxiliam a criar um clima de produção literária ainda mais intenso. "São instrumentos técnicos de aproximação, fatores de socialização, que atuam mais como formas de divulgação maciça e de suporte à comunicação do que propriamente como ferramentas de escrita", explica. Para Moriconi, o momento atual é de movimentação na área de Letras, e isso acontece em todas as faculdades. "Nessa troca de guarda entre gerações, poesia e literatura estão muitas abertas a grandes transformações. O traço distintivo começa pela Internet, e, no caso desse pessoal, a vivência digital se mostra mais profissional. Isso potencializa ainda mais novas possibilidades", resume.