Notícia

Claudia

PRÊMIO CLAUDIA 2000

Publicado em 01 novembro 2000

Uma empresária que emprega 500 presidiários, um grupo de cientista que fez do Brasil o primeiro país a seqüenciar o código de uma praga agrícola, uma ex-prostituta que dá assistência a profissionais do sexo, uma advogada que ensina comunidades carentes a obter o auto-sustento e uma fisioterapeuta que há dezoito anos dedica-se a portadores de deficiências: essas são as onze vencedoras do Prêmio CLAUDIA 2000. O processo de seleção das candidatas começa no início de cada ano, quando são enviadas mais de 2 000 fichas de indicação a entidades governamentais e não-governamentais, fundações, universidades e formadores de opinião de todo o país. Os cinco projetos vencedores e a Mulher do Ano são escolhidos por uma comissão julgadora, composta da redação de CLAUDIA e de um conselho de pessoas de referência dentro da sociedade brasileira. As vinte e cinco finalistas deste ano - profissionais que atuam em áreas tão diversas, mas com o objetivo único de contribuir para melhorar a qualidade de vida do brasileiro -, os nossos calorosos parabéns! OS JURADOS Anália Belisa Ribeiro, coordenadora-geral do Programa de Apoio e Proteção a Testemunhas, Vítimas e Familiares de Vitimas de Violência (Provita); Beatriz Rosenberg diretora de programas infanto-juvenis da TV Cultura; Dorrit Harazim, jornalista e documentarista; Jorge Werthein, representante da Unesco no Brasil; José Gregori, ministro da Justiça; Malô Simões Lopes, diretora colegiada do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea); Miriam Tendler, médica e pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz; Regina Esteves, coordenadora do Alfabetização Solidária; Reiko Niimi, representante do Unicef no Brasil; Sérgio E. Mindlin, membro do Conselho de Administração da Fundação Abrinq pelos Direitos aa Criança; Walter Franco, coordenador das Nações Unidas no Brasil e representante residente do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), do Brasil. A MULHER DO ANO - DULCE RAMOS Dulce entra no presídio diariamente para ensinar uma profissão a 500 homens. Ao acabar de cumprir as penas, esses detentos estão prontos para disputar uma vaga no mercado de trabalho Ela resolveu buscar parceria numa comunidade completamente desacreditada. Quando terminou a maior rebelião registrada na Casa de Detenção, em 1992, na capital paulista, a empresária Dulce Ramos, 41 anos, correu para saber notícias. Ela se misturou aos familiares, que, na porta do presídio, buscavam notícias e observavam os panos pretos com cruzes brancas colocados nas janelas. Dulce descobriu: entre os 111 presos mortos, vinte eram funcionários dela. A empresária freqüentava o local havia dois anos. Treinava e contratava colaboradores para confeccionar produtos de papelaria. "Ao entrar no pavilhão, depois da confusão, um velho detento me perguntou: "Doutora, a senhora vai ter coragem de continuar a trabalhar com a gente?'" Dulce teve coragem e os resultados foram positivos. Tanto é que sua empresa, a Ramblas - Propaganda e Design em Papel, mantém quinze ex-detentos no quadro de funcionários e absorve a produção de 500 presos, agora do Presídio Adriano Marrey, em Guarulhos (SP). Eles criam cartões tridimensionais, montados manualmente, com a logomarca de clientes, entre os quais estão Avon, Unibanco, SPT, Abn Amro Bank. Além de aprender um ofício na cadeia, os condenados se beneficiam da Lei de Execução Penal, que garante um dia de pena a menos para cada três dias trabalhados. Os homens ganham 20 centavos por peça e produzem, individualmente, cerca de 1 000 cartões por mês, recebendo um salário de 200 reais. Dulce paga com gosto. "Eles trabalham bem." A empresária tem sido procurada por donos de indústrias interessados em repetir a experiência. "No começo havia preconceito, mas mudei a visão de muita gente ao acreditar na capacidade dos detentos." Quando acabam de cumprir suas penas, com o treinamento que receberam, eles se sentem confiantes para enfrentar o mercado de trabalho. AS VENCEDORAS Escolhidas pelo impacto de suas obras, estas dez mulheres talentosas ganharam o Prêmio CLAUDIA ELIZABETH, ANA CLAUDIA, MARILIS, ANAMARIA, MARIANA, CLAUDIA, MARIE-ANNE Em janeiro deste ano, o Brasil tornou-se o primeiro país a seqüenciar o código de uma praga agrícola. Isso graças ao trabalho de 109 pesquisadores, que durante dois anos participaram do Projeto Genoma da Xylella fastidiosa, a bactéria causadora do amarelinho, doença que entope os veios da laranjeira, impedindo o crescimento da árvore. Merece destaque a dedicação de sete cientistas: Elizabeth Leme Martins, 42 anos, Ana Claudia Rasera, 33 anos, Marilis do Valle Marques, 35 anos, Anamaria Aranha Camargo, 28 anos, Mariana de Oliveira, 33 anos, Claudia Monteiro-Vitorello, 34 anos, e Marie-Anne Van Sluys, 38 anos. Elas finalizaram quatro meses antes do prazo o seqüenciamento genético da bactéria, ou seja, a definição, na ordem, dos 2,7 milhões de pares de bases do código genético do parasito. A descoberta não implica diretamente o controle da bactéria, que contamina, só no Estado de São Paulo, um terço dos pés de laranja. Mas, segundo Andrew Simpson, coordenador do Projeto Xylella, significa um avanço de dez anos no combate à praga. MARIA NIZIANA CASTELINO Ao chegar aos prostíbulos de Aracaju carregando uma sacola colorida cheia de preservativos. Maria Niziana Castelino, 50 anos, é recebida com festa. Candelária, como é conhecida, preside a Associação Sergipana de Prostitutas (Asp). O órgão já distribuiu 300 000 preservativos e possui um serviço no Posto de Saúde Dona Jovem para atender e orientar, por meio de palestras, profissionais do sexo que contraíram doenças sexualmente transmissíveis. Se elas desejam mudar de atividade, a associação as encaminha para cursos profissionalizantes. Candelária não sabe ler nem escrever, mas aprendeu cedo a lutar por seus direitos. Aos 7 anos, depois de tomar uma surra da mãe adotiva, fugiu de casa e foi morar na rua. Viveu assim até ser descoberta por uma cafetina, que lhe deu o apelido. "Ela dizia que eu era tão imponente como a igreja da Candelária, no Rio de Janeiro", lembra. Com 16 anos, 1,71 metro, corpo esguio e olhos verdes, tornou-se a prostituta mais bela e requisitada de Aracaju. Foi amante de poderosos, casou-se com um empresário de transportes de carga e deixou a prostituição aos 22 anos. Não esqueceu, no entanto, as mulheres da noite. Em 1991, denunciou a violência e o abuso da polícia contra elas e fundou a Asp. NAZARÉ IMBIRIBA Há oito anos, os moradores de Praia Grande, na Ilha de Marajó (PA), viviam sem água tratada, sistema de esgoto e energia elétrica. Hoje, usufruem dessa infra-estrutura e se orgulham de possuir uma fábrica de encostos de cabeça para assentos de caminhões. O produto é feito com a casca do coco, fruta abundante na região. Praia Grande é um exemplo das diversas soluções criativas de Nazaré Imbiriba, 51 anos, uma das coordenadoras do Pobreza e Meio Ambiente da Amazônia (Poema), projeto ligado ao Núcleo de Meio Ambiente da Universidade Federal do Pará. Criado em 1992, o Poema testa formas inovadoras de desenvolvimento sustentável e atende 110 comunidades de vinte municípios no Pará e Amapá. Com o apoio da entidade, já foram instaladas cinco fábricas de frutas desidratadas, quatro de polpa de frutas, quatro de produtos derivados do leite, dez de fibra de coco e uma de látex, além de 300 tanques de criação de peixes. "Trabalhar faz as pessoas crescer e acaba com a pobreza, que é antiecológica", diz Nazaré. "As comunidades com fome vão destruir as florestas para sobreviver", alerta a ecologista. LISAURA RUAS Há dezoito anos, Lisaura Ruas, 61, é presidente da associação Fluminense de Reabilitação (AFR), em Niterói (RJ). Ao assumir, em 1982, a AFR funcionava em um barracão. Atualmente, ocupa um prédio de três andares, conta com 115 profissionais, 400 estagiários e oferece quinze serviços ambulatoriais gratuitos. "A melhor coisa do mundo é fazer uma criança andar e falar e um idoso deixar as muletas", afirma Lisaura. Ítalo Seixas, 11 anos, tinha 7 meses quando chegou à associação. "Ele era um bebê sem movimentos", relembra a mãe, Cilene. "Hoje, come e se veste sozinho, lê e vai à escola graças à entidade." Assim como Ítalo, 500 crianças, 238 delas com paralisia cerebral, e 1500 adultos conseguem grandes progressos ali. Além de servir de modelo para outras instituições, a entidade transforma os pacientes em agentes multiplicadores. André David, 25 anos, nasceu com os braços curtos e hoje é vice-campeão brasileiro de natação para deficientes. A vitória de sua vida ele narra em palestras pelo país. AS FINALISTAS Elas se destacaram em suas áreas de trabalho e, com as vitoriosas, foram selecionadas entre 120 mulheres ANA VALÉRIA LEITÃO Em 1500, quando os portugueses chegaram ao Brasil, havia aqui 2 milhões de nativos. Hoje, eles são apenas 300000. Inconformada com essa realidade, a advogada Ana Valéria Leilão, 36 anos, decidiu brigar judicialmente pelos direitos dos índios. Ela é uma das coordenadoras do Instituto Socioambiental (ISA), em Brasília. Financiado por entidades internacionais, o ISA ajudou dez tribos a recuperar seu território. Entre suas principais atividades estão a denúncia de violação das leis que protegem o povo indígena e o acompanhamento de projetos no Congresso Nacional. Com o apoio do ISA. Paulo Pankararu foi o primeiro índio a se formar advogado. "Queremos que eles se defendam sem a ajuda dos brancos", diz Ana. BEATRIZ AZEREDO A carreira da economista Beatriz Azeredo, 3 anos, sempre foi cercaria de homens poderosos. A diretora de planejamento e de desenvolvimento social do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) garante que isso nunca a impediu de crescer. "Eu não vejo um mundo masculino em que a mulher não consiga se inserir", afirma. Ela comanda uma equipe de setenta pessoas e está à frente dos projetos financiados pelo BNDES para saúde, educação, urbanização de favelas e modernização de municípios. Beatriz trabalhou na Eletrobrás, na Assembléia Nacional Constituinte e no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). "'Sempre encarei os desafios da minha profissão com garra." THEREZA, GUARACIARA, JOSINA, JUREMA E LÚCIA A professora Josina da Cunha, 55 anos, a médica Jurema Werneck, 38 anos, e a assistente social Lúcia Maria Xavier de Castro, 41 anos, fundaram em 1992, no Rio de Janeiro, a Criola, uma ong que oferece a mulheres negras cursos profissionalizantes, debates sobre assuntos como saúde e sexualidade e acompanhamento jurídico a vítimas de racismo e de agressões físicas. Na época, elas contavam apenas com a colaboração de amigos. Mesmo com poucos recursos, conseguiram prestar serviços à comunidade. Josina sintetiza aqueles dias de dificuldade: "As negras, discriminadas desde que nascem, aprendem logo cedo a lutar pelos seus direitos". Há dois anos, a direção da ong recebeu o reforço da manicure Thereza de Castro, 43 anos, e da auxiliar de enfermagem Guaraciara Werneck, 35 anos. Com o apoio da fundação alemã Heinrich Böll, a Criola atendeu até agora 3000 mulheres e adolescentes. HISAKO GONDO HIGASHI Filha de imigrantes japoneses que vieram trabalhar nas lavouras brasileiras, Hisako Gondo Higashi, 57 anos, cresceu sob as rédeas curtas do pai. "Ele dizia que seus filhos tinham de ser alguém na vida e que, sem persistência, não conseguiríamos nada", lembra. Em 1966, recém-formada em Farmácia e Bioquímica em Araraquara (SP), Hisako ingressou como estagiária no Instituto Butantan, na capital paulista. Com mais de três décadas de trabalho, ela é diretora-geral da entidade e uma das principais responsáveis pela modernização do instituto, que o transformou em um dos mais respeitados fabricantes de soros e vacinas do mundo. MARIA ISABEL LOPES E SILVA A pedagoga Maria Isabel Lopes e Silva, 42 anos, tem um trabalho diferenciado na Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci), em Fortaleza. As 6000 crianças e adolescentes que freqüentam a entidade desenvolvem atividades de acordo com seu potencial. Participam de cursos de artesanato, jardinagem, marcenaria e recebem noções de cidadania, sempre com acompanhamento psicológico. "O menor precisa estar em contato com valores positivos para ter amor-próprio. Quando perde isso, não se incomoda em roubar ou matar", diz. Maria Isabel trabalhou no serviço social da Prefeitura de Fortaleza, fundando creches em bairros pobres. Em 1984, foi instalar uma creche para filhos de funcionários do Banco do Nordeste. Quatro anos depois, retornou à prefeitura, abrindo mão de um salário maior para criar a Funci. A pedagoga e o grupo de teatro: atividades extracurriculares aumentam a ligação dos alunos com a escola MARLEIDE TEREZINHA LORENZI Com o desafio de tomar o ensino atraente para os alunos e estimulante para os professores, Marleide Terezinha Lorenzi, 55 anos, assumiu a Secretaria Municipal de Educação em Carazinho (RS). Em sete anos de trabalho, conseguiu reduzir a evasão de alunos de 5,7% para 2% e a reprovação de 16% para 3%. Entre muitos projetos, criou o Centro de Atendimento Integral à Criança e ao Adolescente (Caie), no qual alunos, professores e a população em geral dispõem de cursos profissionalizantes e de lazer. "Não basta levar o aluno à escola, é preciso que ele goste de estar lá." O projeto, que recebeu da Unesco o Prêmio Nacional de Referência em Gestão Escolar de 1999, conta com núcleo cultural, de saúde, de esporte e de terceira idade. RUTH ROCHA A escritora infanto-juvenil Ruth Rocha, 69 anos, cresceu lendo as aventuras de Emília, personagem de Monteiro Lobato. A boneca de pano transformou-se em ídolo da menina e influenciou na escolha da carreira. "Emília representa a força da irreverência, do humor, da independência", diz. Com uma linguagem ágil e bem-humorada, Ruth vem conquistando pequenos leitores desde 1969, quando escreveu a primeira história, Romeu e Julieta, a Borboleta, para a revista Recreio, da Editora Abril. De lá para cá, publicou 140 livros, vendeu 12 milhões de exemplares e teve 25 títulos traduzidos. Ela acredita que o sucesso se baseia na forma como escreve: "Passo para o texto meu desejo de justiça, de liberdade e de ver a criança ser mais respeitada". IVONE MARIA DE LIMA JAIME Quando resolveu ter o segundo filho, a dentista Ivone Maria de Lima Jaime, 39 anos, não conseguiu engravidar. Ela adotou uma menina e, anos mais tarde, teve outro filho biológico. Ivone se lembra que surgiram muitas dúvidas sobre a relação da família com a criança acolhida. Ela passou a freqüentar reuniões na casa de uma amiga, onde discutia o assunto com pessoas que viviam experiências semelhantes. "Eu não sabia se devia revelar a situação à minha filha", conta. Dos encontros surgiu o Grupo de Incentivo e Apoio à Adoção da Região de Ourinhos (Giaaro), em São Paulo, do qual Ivone é presidente. O objetivo é estimular a adoção, orientar futuros país sobre questões jurídicas e apoiar aqueles que já estão convivendo com um novo membro na família. JUDITH CORTESÃO Aos 85 anos, Judith Cortesão persegue seu objetivo com disposição e sabedoria invejáveis: formar agentes multiplicadores de educação ecológica. Portuguesa radicada em Rio Grande (RS), ela é professora do único curso de pós-graduação em Educação Ambiental Marinha na Fundação Universidade Federal do Rio Grande (Furg). Seus alunos são advogados, historiadores, oceanógrafos, entre outros profissionais preocupados em preservar o meio ambiente e desenvolver a região usando recursos que gerem benefícios sem causar danos à natureza. "A ameaça à qualidade de vida é tão grande que não podemos ficar de braços cruzados", afirma. MARIA REGINA YAZBEK Ao assumir a empresa de logística interna Movicarga Comércio e Locação de Bens, fundada pelo pai, que se afastou por motivos de saúde, Maria Regina Yazbek, hoje com 36 anos, tinha apenas 23. "Aceitei o desafio para provar que, mesmo sendo tão nova e mulher, seria capaz de exercer a função num ramo tradicionalmente masculino", diz. Ao assumir a empresa, em 1987, Regina contava com apenas dez funcionários e com 50% da frota de caminhões funcionando. De lá para cá, o número de empregados subiu para 900 e o faturamento anual de 800000 dólares aumentou para 15 milhões de dólares. Patrícia Negrão Colaboraram: Aline Angeli, Angela Senra, Claudia Maximino, Lilian Saback, Minam Scavone, Mônica Manir, Rosana Tonetti e Sibelle Pedral