Notícia

Correio do Estado (Campo Grande, MS)

Preguiças e humanos são contemporâneos

Publicado em 16 julho 2002

São Paulo - Agora não há mais dúvida. Seres humanos e preguiças terrícolas gigantes perambularam pelos cerrados brasileiros e conviveram há cerca de 10 mil anos. A prova, que encerra um debate que já durava um século e meio, veio do resultado de um exame de Carbono 14, feito num minúsculo pedaço de osso fossilizado, com cerca de 2 centímetros e menos de 3 gramas. O material foi extraído da costela de um fóssil de preguiça da espécie Catonyx cuvieri, encontrado na região de Lagoa Santa, em Minas. É o mesmo local onde também foi descoberto o crânio do ser humano "brasileiro" mais antigo, a famosa Luzia, de 11.500 anos. Daí a conclusão de que seres humanos e preguiças gigantes foram contemporâneos. Num projeto de pesquisa financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) enviaram o pedacinho de osso para o Laboratório Beta Analytic, nos LUA, onde foi feita a análise. "Eles isolaram o colágeno, uma proteína que estrutura o osso, que permite uma datação mais precisa", explica o paleontólogo Castor Cartelle, do Departamento de Geologia da UFMG, participante do projeto. "O resultado revelou que aquele osso tem 9.900 anos, com margem de erro de 40 anos para mais ou para menos." A datação confirma a hipótese do cientista dinamarquês Peter Lund (1801-1880), levantada em meados do século 19. "Ele defendia a tese de que espécies de mamíferos gigantes, a megafauna, do período geológico conhecido como Pleistoceno (de 1,8 milhão a 11 mil anos atrás) conviveram com seres humanos, na região de Lagoa Santa, há cerca de 10 ou 11 mil anos", explica. É o caso das 13 espécies de preguiças terrícolas identificadas até agora. Algumas delas podiam atingir até 5 toneladas. HISTÓRIA Considerado o pai da paleontologia e da arqueologia brasileiras, Lund mudou-se para a região de Lagoa Santa, em 1825, onde viveu até morrer. Nesse período, descobriu mais de 12 mil fósseis, com os quais ajudou a escrever a história do período Pleistoceno brasileiro, numa época em que a ciência quase nada sabia a respeito. Ele também desenterrou ossadas fossilizados do chamado "homem de Lagoa Santa", que puseram em xeque teorias da paleontologia da época. Suas descobertas e conclusões sofreram, porém, muitas contestações. Entre os defensores de Lund está Cartelle, considerado um de seus sucessores. Ele acredita que a extinção das preguiças ocorreu há 10 mil anos. O resultado de agora comprova a teoria do pesquisador. Segundo Cartelle, a idade do osso, que pertenceu a uma espécie relativamente pequena, que atingia cerca de 300 quilos, não é a única evidência de que humanos e preguiças - bichos peludos que pastavam em vez de andar em árvores como as suas parentes atuais - conviveram na mesma região. MEGAPROJETO "Já foram encontrados no local ossos que apresentam marcas de manipulação humana. Isso quer dizer que seres humanos e preguiças gigantes estiveram cara a cara." Até hoje, sabia-se quando esses animais haviam surgido na face da Terra, mais precisa- i mente na América do Sul - há 50 milhões de anos -, mas não quando tinham desaparecido e nem se haviam convivido com nossos antepassados. Agora, sabe-se. E as pesquisas não vão parar. O estudo faz parte de um megaprojeto sobre a origem do homem americano, iniciado em 2000, com financiamento da Fapesp.