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“Precisamos empunhar a bandeira da defesa dos investimentos em educação, em ciência e tecnologia”

Publicado em 17 junho 2019

Discurso da vice-presidente da SBPC, Vanderlan Bolzani, proferido durante o lançamento do Prêmio da SBQ que leva seu nome, em homenagem a químicas destacadas e mulheres que contribuíram para a consolidação da Sociedade Brasileira de Química, durante sua 42ª Reunião Anual, em Joinvile, SC

Quando comecei a pensar na minha apresentação para esta cerimônia vi que estava em dúvida sobre o que iria dizer a vocês neste momento tão especial na vida de uma nordestina paraibana, que aos 23 anos deixou o aconchego familiar para vir para São Paulo estudar e iniciar a carreira científica que hoje tanto me orgulha, e que me traz a esta cerimonia, para esta homenagem importante que me prestam, tão linda e cheia de significado. Ser agraciada com a comovente distinção que confere meu nome a um dos prêmios da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), dedicada a mulheres químicas destacadas e a mulheres que construíram a SBQ, a minha casa de tantos anos, é uma emoção tão intensa que faltam palavras para expressar.

Hoje, aqui vendo tantos jovens, me vem à memoria a minha primeira participação na reunião anual SBQ. Lembro o nervosismo, a ansiedade e a alegria por ter sido agraciada com uma apresentação oral sobre a pesquisa que iniciava no mestrado sob a orientação do nosso inesquecível e grande cientista Otto Gotllieb. A SBQ era realizada dentro da Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), e aquela edição, a 29a, havia sido proibida pelo governo federal de ocorrer na Universidade Federal do Ceará. Por ação corajosa de Dom Paulo Evaristo Arns, acabou sendo realizada na PUC, em São Paulo, em julho de 1977. Aquele momento, também participando da SBPC pela primeira vez, também foi decisivo para mim. Fiquei sócia da SBPC, que contribuiu para que ainda muito jovem, começasse a pensar o País e seu processo de evolução econômica e social, e perceber a responsabilidade e o papel que essa jovem paraibana tinha que ter como mulher e cidadã, além da carreira científica que se delineava.

Hoje a emoção é dobrada e o momento de felicidade e orgulho pelo fato de ser a primeira mulher a fazer parte de um time de pesquisadores renomados que a SBQ escolheu como referência para os mais jovens associados. Portanto, é um momento de profunda gratidão e que com grande humildade e uma alegria imensurável recebo esta homenagem.

Um momento especial para abraçar e desfrutar da convivência de amigos tão queridos.

Agraciada com uma premiação tão importante devo falar algumas palavras sobre a minha trajetória e experiência de vida. Acredito ser meu papel neste momento, dirigir algumas palavras aos jovens, com base nessa experiência, a dúvida é como deve ser essa mensagem?

Alguém já disse que a experiência é como um automóvel com os faróis colocados na parte de trás. Ela ilumina o caminho já percorrido, o passado. E nós, da Universidade, que estamos hoje ao redor dos setenta anos da institucionalização da pesquisa científica no Brasil, podemos nos perguntar, com um pouco de humildade: como utilizar essa experiência em benefício dos jovens estudantes e pesquisadores aqui presentes e de todo o país, especialmente num mundo global complexo, competitivo e incerto? Como poderia tecer palavras que possam iluminar vocês que serão os atores do nosso futuro? Não há respostas prontas! Mas vejo luz, criatividade e muitos sonhos em cada um!

Quando passei a fazer parte da SBQ, em 1977, o mundo era diferente. E se isso parece uma constatação óbvia, é também um ponto de partida. Pode-se dizer que, naquela época, muitas áreas de conhecimento, a minha inclusive, estavam ainda formando as primeiras gerações de pesquisadores. E esse esforço estava concentrado, sobretudo, em algumas poucas universidades do Sudeste, especialmente de São Paulo e do Rio de Janeiro, daí ter eu migrado para estudar em São Paulo.

Tínhamos clareza da enorme tarefa à nossa frente. E da gigantesca distância que separava nosso trabalho daquele feito nos grandes centros internacionais. Mas é importante notar que, naquele momento, alguns países hoje situados na vanguarda da pesquisa, da ciência e da tecnologia, nem sequer eram citados nos rankings internacionais de desenvolvimento. Pois bem! O que mudou desde então?

Pode-se dizer que uma boa parte daquela distância que nos separava dos grandes centros internacionais de pesquisa foi bastante reduzida, embora esse avanço apresente nuances entre as diferentes áreas de conhecimento. Apesar das criticas que se faz neste momento ao nosso modelo de universidade, o país se inseriu no mapa da pesquisa científica internacional, ocupando papel de destaque no cenário da inovação nacional e internacional.

É curioso observar que quando lembramos aquela época, nos anos oitenta e noventa, a palavra “crise” aparece de forma insistente, mostrando as frequentes dificuldades econômicas e sociais que o país enfrentava e isso parece não ter mudado.

O cenário mundial mudou muito. Tornou-se muito mais complexo e este é um dos desafios que espera vocês nas próximas décadas. E tenho certeza de que estão aptos a construírem o mundo sustentável almejado. As tendências estão aí para vocês explorarem e contribuírem. A indústria 4.0 é mais um motivo para a ousadia e criatividade de vocês, jovens químicos.

O diálogo permanente neste mundo global e uma visão multidisciplinar são imperativos dos novos tempos. Quem insistir em se manter isolado na sua sala ou seu laboratório está condenado à obsolescência. Também quem acredita que pode percorrer uma carreira acadêmica restrita a uma única área disciplinar, precisa revisar urgentemente seus conceitos.

Mesmo para aqueles que já nasceram no mundo digital, as mudanças provocadas pela integração de diversas tecnologias, sem dúvida trarão um forte impacto para o futuro das profissões. Que exigências de conhecimento surgirão com a chamada revolução industrial quatro pontos zero? O que você jovem químico, pode acrescentar a este novo universo tecnológico, com formação na área da química? Uma ciência central, que povoa a vida diária de todo cidadão?

Vocês vão viver no mundo da bioeconomia. Esse mundo, aliás, já está em pleno desenvolvimento em muitos pontos do planeta.

Mas eu gostaria de retomar o fio da meada e lembrar que também nos anos oitenta e noventa do século passado, as incertezas sobre o futuro eram muito grandes. As expectativas sobre o que aconteceria com as novas gerações eram angustiantes. E as diferenças de desenvolvimento entre o Brasil e os países centrais talvez fossem ainda maiores que hoje, sobretudo no campo do desenvolvimento social. Entretanto, há um ponto em comum entre as duas situações.

Naquela época, como agora, quem conduz essas mudanças que determinam nossos destinos, quem traça o rumo que será seguido pelos outros, são os países que construíram uma forte base educacional. São países que, ao longo dos anos, sedimentaram uma sólida educação básica, contam com um ensino médio eficiente e detêm uma rede de ensino superior capaz de dar respostas às necessidades da sociedade. São países que investem em ciência, tecnologia e inovação. Não importa se eles estão na América do Norte, na Europa ou na Ásia. Eles fizeram uma opção pelo futuro.

Assim, aparentemente, não há nada que se possa fazer para deter a chegada da nova revolução industrial. Ela virá. Não há nada que se possa fazer para impedir que a indústria mundial caminhe em direção à bioeconomia. E o nosso potencial é enorme, e certamente terá em vocês, queridos jovens, os atores das grandes descobertas e realizações.

Mas há algo que podemos fazer para determinar como o país estará situado nesse vendaval de mudanças. De forma individual ou coletiva, precisamos empunhar a bandeira da defesa dos investimentos em educação, em ciência e tecnologia e num salto de inovação. Não há outro caminho, como mostra a experiência nestes anos de vida. Esse é o grande divisor de águas que vai definir como estará a vida profissional de milhões de brasileiros nas próximas décadas.

As reuniões anuais da SBQ são a principal vitrine da produção científica na área. Mas elas desempenham também um outro papel fundamental para a comunidade dos químicos. A meu ver, a missão de vocês será produzir conhecimento que nos destaque ainda mais no cenário internacional, que permitam a criação de tecnologias inovadoras e não destrutivas, mas que possam também chegar à sociedade, permitindo-lhes maior absorção da importância da ciência e dos cientistas para os avanços que o país demanda para minimizar a enorme separação econômica e social que ainda separa o Brasil em muitos brasis.

Gostaria de aproveitar este momento para me dirigir às cientistas mulheres, em particular às jovens. Eu que vivi num mundo onde os livros não tinham mulheres protagonistas, e lembrando que somos 50% da humanidade, mas apenas 30% pesquisadoras em âmbito mundial, gostaria de ressaltar a importância das ações da SBQ e, aqui, destaco o Núcleo Mulheres SBQ, criado na atual gestão e que tem como objetivo apoiar e estimular a presença feminina no espaço químico e científico nacional. Parabéns à D&C por este passo na nossa história e às queridas cientistas Rossi, Claudia e Elisa, a quem me reverencio com uma imensa alegria por terem catalisado a ideia da premiação e que encontrou ressonância de toda a Diretoria e Conselho a quem me reverencio também.

Para finalizar, gostaria de agradecer a todos que contribuíram de uma forma ou de outra para chegar onde estou. A estrada foi longa e tortuosa, mas como tudo na vida, um aprendizado riquíssimo e engrandecedor. Aos meus amigos e companheiros que encontrei nesta caminhada, pela qual hoje a nossa SBQ me homenageia, e aos amigos acadêmicos, espalhados por este país e mundo afora, pessoas incríveis com quem tanto tenho aprendido! Aos meus alunos de IC, Mestrado, Doutorado e jovens pesquisadores pós-docs, o meu eterno agradecimento. Vocês me dão luz e por isso os considero meus filhos científicos. Não poderia aqui deixar de falar dos colegas e amigos da Unesp e do IQ e em especial do Departamento de Química Orgânica e do NuBBE a quem agradeço todo apoio, amizade e carinho recebido durante 40 anos. Não poderia deixar de agradecer aos amigos e colegas do INCT BioNat e do CEPID Fapesp CIBFar, meus agradecimentos pela valiosa colaboração, essenciais ao trabalho acadêmico de excelência que realizamos. Agradecimentos aos amigos e colegas da Diretoria e Conselho da SBQ e da SBPC, sociedades em que me afiliei desde que aqui cheguei para fazer meu mestrado, há 42 anos. Aos jornalistas da SBPC com quem tenho desenvolvido um trabalho bacana de comunicação, incluindo vídeos sobre o mundo da ciência para a sociedade, meus agradecimentos especiais. Tenho aprendido muito com vocês! Não poderia terminar esta fala sem destacar o papel da família. De meu pai, mãe meus irmãos. Sou o que sou pela maneira como fui criada, pelo destaque e valorização que meus pais, mesmo sem muita instrução, davam ao estudo. Costumavam falar que tinha que ser letrada! Certamente estão juntos às estrelas, iluminando minha vida e me aplaudindo neste momento. Aos meus amados filhos Mariana, Tiago, netinhos Julio e Raul e ao meu genro Vicente e nora Claudia, por iluminarem meus dias e me darem felicidade e vontade de chegar aos 100 anos.

Ao longo desta trajetória aprendi que a humildade é o caminho para conseguirmos sermos melhor! Citando um trecho de “Mãos Dadas” do grande poeta Carlos Drumond de Andrade.

Não serei o poeta de um mundo caduco

Também não cantarei o mundo futuro

Estou preso à vida e olho meus companheiros

Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças

Entre eles, considero a enorme realidade

O presente é tão grande, não nos afastemos

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas

minha eterna gratidão.

28/05/2019

Sobre a autora:

Vanderlan Bolzani é vice-presidente da SBPC e da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (Aciesp) e professora titular do Instituto de Química da Unesp/Araraquara