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Central Florestal

Precisamos conversar sobre empreendedorismo na engenharia florestal

Publicado em 18 dezembro 2019

Por Central Florestal

Sociedades em transformação refletem novos tempos e, novos tempos exigem novas posturas, sobretudo quando é preciso enfrentar os desafios da economia e mercado de trabalho. No setor florestal não é diferente, o empreendedorismo tem sido um valioso caminho para profissionais dispostos a aplicar suas habilidades, conhecimentos e inovações em busca de soluções mercadológicas. Contudo, as instituições de ensino superior estão formando engenheiros (a) florestais efetivamente habilitados para empreender, ocupar cargos e postos importantes no mercado? Existem deficiências em educação empreendedora nos cursos de engenharia florestal? E o mercado? Conseguirá absorver novas gerações de engenheiros florestais recém-formados?

É sobre estas perguntas e outros assuntos voltados a “como empreender na engenharia florestal”, que conversaremos com o engenheiro florestal e co-fundador da Geplant Tecnologia Florestal, Eduardo Moré de Mattos. A entrevista foi concedida à Luciano França, coordenador de redação da Central Florestal, a qual acompanharemos a seguir:

Central Florestal – Saudações Eduardo. Muito obrigado pela sua entrevista e por aceitar nosso convite. Conte-nos um pouco sobre sua história, formação acadêmica e por que escolheu seguir a carreira como empreendedor no mercado florestal? O que o incentivou na escolha?

Eduardo Mattos – Olá Luciano e toda comunidade da “Central Florestal”, obrigado pelo convite, é um prazer poder contribuir. Sou natural de Olímpia, noroeste do estado de São Paulo, a região não possui tradição florestal e como muitos, encontrei a Engenharia Florestal através do guia do estudante optando pelo curso por ter afinidade com as disciplinas de biologia, física e matemática durante o ensino médio. Ingressei na ESALQ/USP em 2008, concluindo a graduação no final de 2012. Durante a graduação me relacionei com diversos projetos através de estágios e iniciações científicas, no último semestre, realizei estágio vivencial em uma grande empresa do setor de florestas plantadas e apesar de receber uma proposta de trabalho ao final do período, minha vivência junto à pesquisa me motivou a ingressar no Mestrado já em 2013. O mesmo ocorreu quando conclui o Mestrado em 2015. Apesar de ter oportunidades para continuar as atividades através do Doutorado, inclusive fora do país, decidi seguir um caminho que ressoava com minha personalidade e em um feliz momento do tempo, em que as pessoas certas compartilhavam os mesmos objetivos, fundamos a empresa em 2015.

Central Florestal – Qual seu atual ramo de atuação profissional? Conte-nos um pouco como é a dinâmica do dia a dia de um empreendedor florestal?

Eduardo Mattos – Sempre tive afinidade com a parte quantitativa, ao mesmo tempo sempre gostei do campo e da vivência prática. Durante os anos de academia me especializei em tópicos relacionados a silvicultura, manejo, biometria, ecofisiologia florestal, estatística e ciência de dados, sistemas de informação geográfica e sensoriamento remoto. Hoje com a Geplant atuo junto ao tive de desenvolvimento e na área comercial. Já o dia a dia, não é diferente de nenhum outro empreendedor brasileiro, é acordar e trabalhar.

Central Florestal – Qual foi o maior desafio encontrado até hoje na sua missão como empreendedor?

Eduardo Mattos – Assim como várias outras profissões, a Engenharia Florestal possui um viés predominantemente técnico em sua grade curricular. Com a empresa operando, um dos maiores desafios foi buscar conhecimento em áreas complementares ao negócio como gestão financeira, administrativa, fiscal, questões trabalhistas, contábeis, jurídicas e uma série de outros predicados.

Central Florestal – Qual o real potencial empreendedorismo no setor florestal do Brasil?

Eduardo Mattos – Eu acredito plenamente no setor florestal e na capacidade empreendedora e inovadora do Brasil. Vivemos em um momento mundial em que urge a necessidade de conscientização e ação para preservação de nossas florestas e recursos naturais. O uso de materiais renováveis, energia limpa e ações para mitigação dos impactos ambientais serão a regra. Tudo misturado a uma mudança radical do perfil do consumidor e das oportunidades com tecnologia, colocando o setor florestal em destaque em âmbito doméstico e internacional.

Central Florestal – Como o engenheiro (a) florestal recém-formado conseguirá investir na abertura de uma empresa/negócio, em tempos de incertezas na economia e frente aos desafios burocráticos para se empreender no Brasil? Como é possível superar estas barreiras?

Eduardo Mattos – É uma mudança de paradigma. Hoje a dinâmica econômica e financeira permite que alguém com absolutamente ZERO “dinheiros” no bolso (mas muita capacidade de execução) consiga levantar recursos para iniciar praticamente qualquer tipo de negócio. Não é sobre os desafios e barreiras, mas sim sobre persistência.

Central Florestal – O que o recém-formado engenheiro (a) florestal precisa entender sobre mercado, para evitar erros? Como atrair investimentos, prospectar negócios e se beneficiar dos créditos e/ou programas do governo?

Eduardo Mattos – Erros são parte do processo. Acredito que o recém-formado deveria, em primeiro lugar, eliminar a separação entre academia e mercado. Durante os anos de graduação e pós-graduação, mantive relações que fortalecem uma rede de conexões e eventualmente se transformam em oportunidades. Precisamos nos alertar para necessidade de aprendizado autodidata e busca constante por novos conhecimentos. Carrego um ensinamento de uma palestra ministrada por José Luiz Tejon que diz: “em um mundo onde temos acesso à informação o tempo todo, o segredo está em onde eu coloco o olho”.

Central Florestal – Eduardo, é uma realidade que há deficiência nas estruturas curriculares dos cursos de eng. florestal do Brasil sobre a temática da gestão de negócios, pessoas e empreendedorismo. Qual seria o melhor modelo de ensino ou abordagem, na sua opinião, para preenchimento dessa lacuna?

Eduardo Mattos – As universidades já estão alertas para a necessidade de mudança na forma de ensino, porém em qualquer grande organização, mudanças estruturais são lentas e muitas vezes pragmáticas. Na minha opinião um dos maiores equívocos atuais é o sistema de avalição das instituições de ensino que privilegia a produção científica. Sinto falta dos professores com perfil de PROFESSORES e não de pesquisadores que dão aulas. Para mim é ingênuo pensar que a vanguarda científica e tecnológica estará nas universidades, por isso acredito que a grande oportunidade de transformação está em direcionar as ações de modo a fortalecer o ENSINO e principalmente, a EXTENSÃO. É atuar com ênfase na transferência e no compartilhamento do conhecimento gerado.

Central Florestal – Um grande desafio para muitos estudantes é o de vencer o medo do desemprego ou subemprego após formação acadêmica. Efetivamente, as universidades conseguem munir os estudantes das competências exigidas pelas empresas? E quais seriam os requisitos fundamentais que um recém-formado necessita para ingressar no mercado de trabalho rapidamente?

Eduardo Mattos – Muito desse medo seria eliminado (ou não) se a pergunta fosse revertida em: “Como gerar valor com o conjunto de habilidades que sou capaz de desenvolver?”. Por consequência, empregar-se seria uma das opções. Honestamente, penso que a responsabilidade em responder esta pergunta não é da universidade.

Central Florestal – Eduardo, “Trabalho é emprego?”

Eduardo Mattos – Definitivamente NÃO! Fico feliz em perguntar isto. Sempre que converso sobre questões relacionadas à profissão gosto de provocar esta reflexão. Minha sugestão é pensar em trabalho da mesma maneira que aprendemos no ensino médio. Trabalho é representado pelo produto entre força e deslocamento, ou seja, trabalhar é colocar sua força em movimento. Simples assim! Somente força ou somente movimento não gerará trabalho. Enquanto não assumirmos o protagonismo sobre como gerar valor através de nossa propriedade intelectual, permaneceremos frustrados a espera daquela vaga tão merecida ...

Central Florestal – Em 1995 havia 2.762 estudantes matriculados nos cursos de engenharia florestal no Brasil, em 2017 esse número passou para 13.791 matriculados, de acordo com SNIF/SFB. Você acha que o mercado conseguirá absorver a massa de profissionais que estão a formar?

Eduardo Mattos – O mercado sim, mas não necessariamente em atribuições para as quais se projeta a figura do Engenheiro Florestal. O guarda-chuva das Ciências Agrárias poderá abrigar muitos profissionais da Eng. Florestal. Há grandes oportunidades em áreas correlatas, como o leque das Engenharias e Ciências Biológicas. Sem contar que muitos podem se realizar profissionalmente fazendo algo completamente diferente do que imaginavam.

Central Florestal – Muito se fala ultimamente do papel do analista de dados ou Data Science e a importância desse profissional no mercado de trabalho, como o engenheiro (a) florestal pode se inserir nesse “novo mercado” e catalisar novas possibilidades de emprego?

Eduardo Mattos – Gosto de comparar a ciência de dados (ou Data Science) ao aprendizado do inglês. Enquanto estudante, inglês era uma habilidade desejável que gradativamente tomou caráter obrigatório. O mesmo acontece com a ciência de dados. É algo que atualmente é desejável em um profissional e gradativamente passará a ser reconhecida como habilidade obrigatória. Na minha visão, a transformação será tamanha, que não tardaremos a ver estas disciplinas sendo introduzidas cada vez mais cedo no ciclo estudantil básico.

Central Florestal – Outro importante e recorrente tema, atualmente, é o conceito das Startups na prospecção de ideias, produtos e soluções inovadores para vários setores da sociedade. Qual sua opinião sobre as Startups? E porque, até então, existem poucas no setor florestal, sobretudo em comparação ao setor agrícola?

Eduardo Mattos – As Startups ocupam uma lacuna muito importante na nova economia mundial. Elas propõem uma estrutura flexível e ágil, capaz de iterar rapidamente com o mercado/sociedade para o desenvolvimento de produtos e soluções. É importante ressaltar que o “pensamento Startup” se aplica a muitos processos. Podendo ser explorado para acelerar, modernizar e impulsionar os mais diversos tipos de organização. Já a disparidade entre empresas do setor agrícola e florestal se dá pelo próprio tamanho e diversidade do mercado agrícola em relação ao mercado florestal. Outro ponto é a própria maturação do ambiente de negócios e do momento econômico de cada segmento nas cadeias de valor. Além do mais, esta separação pode não fazer sentido para muitas aplicações e veremos cada vez mais um intercâmbio entre as áreas. Pensem nas aplicações com uso de sensoriamento remoto por exemplo.

Central Florestal – Eduardo, a nossa última pergunta. Qual recado, mensagem e recomendações você deixa aos aspirantes a empreendedores na engenharia florestal? Como resgatar a capacidade do estudante de sonhar?

Eduardo Mattos – Quero agradecer mais uma vez à Central Florestal e já que é para sonhar, para me despedir deixo como mensagem um poema de um dos heterônimos de Fernando Pessoa:

Para ser grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê todo em cada coisa. Põe o quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

Ricardo Reis (1933)

Eduardo Moré de Mattos

Engenheiro florestal formado pela Universidade de São Paulo - Escola Superior de Agricultura "Luiz de Queiroz" (2012) com mestrado (2015) em recursos florestais pela mesma instituição com intercâmbio junto à North Carolina State University (NCSU). Atualmente cursando o MBA (2019-2020) em Big Data Analytics pela Fundação Instituto de Administração (FIA Business School). É co-fundador da Geplant Tecnologia Florestal (2015) e pesquisador da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) desenvolvendo projetos de inovação. Sua experiência abrange tópicos relacionados à Data Science e Análises estatísticas; Ecofisiologia Florestal; Inventário Florestal e Biometria; Agrometeorologia; Sensoriamento remoto e SIG.

eduardo@geplant.com.br