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Folha de S. Paulo - Vale (São José dos Campos)

Prática constante de corrida favorece sistema imunológico de

Publicado em 26 agosto 2005

Por Valéria Dias, da agência USP

Envelhescência

Prática constante de corrida favorece sistema imunológico de idosos
A prática da corrida, quando realizada por vários anos, pode desacelerar a diminuição das atividades do sistema imunológico humano decorrente do envelhecimento (imunosenescência). Ao comparar a atividade imunológica de homens idosos que correm habitualmente, com homens sedentários (idosos e jovens), o médico Milton Hideaki Arai mostrou que a prática do esporte retarda a imunosenescência.

"Os idosos corredores apresentaram um condicionamento físico 52% maior do que os idosos sedentários", aponta Milton Arai. "Esse condicionamento foi semelhante ao encontrado no grupo de jovens", completa o pesquisador, que é médico do Hospital das Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da USP. Além disso, por meio de testes laboratoriais, verificou-se que a proliferação de linfócitos T (principais células do sistema imunológico) foi maior em idosos corredores do que nos sedentários. "No processo de envelhecimento, essa resposta proliferativa diminui", conta.

O pesquisador também verificou nos três grupos (idosos corredores, idosos sedentários e jovens sedentários) uma alteração na produção de interleucinas, pequenas proteínas, de vários tipos, produzidas preferencialmente pelos linfócitos T e que atuam tanto nos linfócitos T como em outras células do corpo.

No caso das interleucinas 2 (que diminuem conforme envelhecemos e cuja função é "orquestrar"o funcionamento do sistema imunológico), os idosos corredores apresentaram uma produção maior, em comparação aos idosos sedentários, e semelhante aos jovens. Já as interleucinas 6, (quanto mais presente no organismo, maior é a possibilidade de o idoso apresentar incapacidade funcional), os corredores apresentaram quantidade menor em relação aos idosos sedentários. E na análise das interleucinas 3 (relacionadas a hematopoiese - processo ligado à produção de sangue pela medula óssea, e que aumentam com o envelhecimento), os idosos corredores mantiveram a produção semelhante à dos jovens. Os idosos sedentários apresentaram uma produção maior.

Repercussão clínica
Mesmo tendo comprovado os benefícios imunológicos da prática constante de corrida, o médico é cauteloso quanto à repercussão clínica. "Não é possível afirmar que os corredores idosos tiveram um número menor de infecções e de doenças, pois isso não foi avaliado na pesquisa", conta Milton Arai. Ele ressalta que esta constatação dependeria de um estudo específico que abordasse o tema.

"O que nós, médicos, já sabemos é que a prática de meia hora diária de exercícios físicos, cinco vezes por semana, diminui a gordura abdominal (ligada a problemas cardiovasculares), previne e controla a osteoporose, a hipertensão e o diabetes, aumenta o colesterol bom e diminui o ruim, e previne também contra o câncer de cólon e o de mama", afirma.

Participantes
A pesquisa, que contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foi apresentada na Faculdade de Medicina da USP e teve a orientação da professora Valéria Maria Natale. Foram avaliados 20 corredores com idades entre 60 e 80 anos (média de 67 anos), praticantes do esporte há 23 anos (em média), e que correm cerca de 5 quilômetros por dia. O grupo controle era formado por 20 homens com idade média de 66 anos e que nos últimos 5 anos não praticaram nenhum tipo de atividade física. O terceiro grupo, composto por 10 homens sedentários entre 20 e 35 anos, estava há dois sem realizar atividades físicas.

Os 50 voluntários foram selecionados a partir de um protocolo (SENIEUR) que permitiu eliminar qualquer participante que tivesse tido alguma patologia que pudesse influenciar na investigação imunológica. Os participantes passaram por exames clínicos, laboratoriais e um inquérito farmacológico para saber se havia algum fator que poderia influenciar o funcionamento do sistema imunológico. Os selecionados também realizaram testes ergoespirométricos, para medir a capacidade cardio-respiratória (condicionamento físico).