Notícia

Revista Eletrônica & Informática (Ipesi)

Pragmatismo high-tech

Publicado em 01 julho 2007

De roteador de chamadas a softwares educacionais,  as empresas participantes do Cietec mostram preferência pelos projetos tecnologicamente avançados,  mas voltados para o dia a dia

- Alberto Mawakdiye e Rosa Symanski -

As seis empresas recém-graduadas no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), que funciona no campus da Universidade de São Paulo (USP), constituem um bom exemplo do tipo de inovação tecnológica que é desenvolvida no instituto paulistano. São inovações sempre tecnologicamente avançadas, mas muitas delas parecem querer também solucionar alguns problemas do dia-a-dia.

A novidade da recém-graduada Econolig Tecnologia, por exemplo, é simplesmente um "Roteador Automático de Chamadas", indicado para quem quer economizar em ligações interurbanas. "Ao efetuar uma ligação, o sistema faz um rastreamento das operadoras, direcionando a ligação para a companhia de menor valor naquele momento", resume Roberto Cavalcanti, um dos sócios da empresa. De acordo com Cavalcanti, o software estará no mercado entre setembro e outubro deste ano.

Em junho, a Econolig lançou o "Auditor de Contas Telefônicas", software que confere os gastos com contas telefônicas, através da análise automática das tarifas cobradas pelas operadoras, a partir dos critérios de local, horário e duração da chamada.

P3D - Uma verdadeira revolução nas carteiras escolares tem por trás a última tecnologia de software tridimensional. Desenvolvido pela P3D, também recém-graduada no Cietec, o software, que leva o mesmo nome da empresa e já está presente em mais de 100 escolas brasileiras, ultrapassou as fronteiras, conquistando 150 escolas no exterior. "Já estamos também em processo de implantação do software em escolas públicas. É uma tecnologia de fácil uso e de muita interatividade", explica Jane Vieira, gerente da empresa.  

O software educacional desenvolvido pela P3D permite que professores e alunos façam verdadeiras viagens virtuais pelo corpo humano, pelo sistema solar ou até mesmo uma viagem ao Oriente Médio. "No software voltado à Biologia, cada osso e cada órgão pode ser mostrado em qualquer ângulo, em movimentos que parecem levar o espectador para dentro da imagem", observa a gerente.

Além de tornar a aula mais atraente ao utilizar imagens tridimensionais e realidade virtual, o software P3D otimiza o tempo de aula e aumenta a capacidade do aluno em reter o conhecimento. Segundo Vieira, o fato de que 70% das pessoas são "visuais" explica os motivos pelos quais o aprendizado é facilitado com o uso deste recurso.

Os módulos de biologia, geografia e química estão prontos e já estão sendo comercializados. O próximo passo é o desenvolvimento do conteúdo de outras disciplinas, entre elas, física, matemática e história. Todos os produtos da P3D são produzidos sob consultoria de professores da Universidade de São Paulo (USP).

O objetivo da empresa é desenvolver conteúdos em todas as disciplinas, mas o foco será dado aos módulos em que a realidade virtual realmente traga ganho significativo como ferramenta de auxílio aos professores. A pequena companhia, que atingiu uma receita de R$1 milhão em 2006, tem planos de dobrar este desempenho neste ano.

O ineditismo e os benefícios do software P3D já renderam à empresa dois prêmios internacionais: o Innova, na Feira Expodidactica (2006) realizada na Espanha, e o Worlddidac Award, na Feira World Didact, na Suíça, que foi entregue em outubro do ano passado. No Brasil, os softwares P3D venceram o prêmio Finep de Inovação Tecnológica - região Sudeste - e agora concorrem à versão nacional do prêmio, que acontece em novembro.

Tramppo - O Brasil possui um consumo médio anual de quase 100 milhões de lâmpadas fluorescentes e apenas 6% das lâmpadas descartadas passam por algum processo de reciclagem. Além do mais, não há empresas que trabalham na reciclagem dessas lâmpadas - que carregam várias metais pesados, como o mercúrio e o pó fosfórico, em sua composição - em pequenas quantidades.

Para modificar este cenário surgiu a Tramppo, empresa paulistana também graduada no Cietec, que desenvolveu um equipamento capaz de reciclar até 98% de uma lâmpada, separando vidro, pó fosfórico e mercúrio, que podem ser reutilizados. Já são clientes da empresa prefeituras e algumas grandes empresas do Brasil.

A Tramppo opera com uma produção limpa, com reciclagem quase total da lâmpada (98%), sem descartes em aterros. "Supermercados, bancos, universidades e indústrias possuem volumes extremamente grandes de lâmpadas fluorescentes, e de tempos em tempos precisam descartar", diz Elaine Menegon, uma das proprietárias da empresa. "Atuamos em um processo que permite as instituições, mesmo com pequenos volumes, terem acesso à reciclagem de suas lâmpadas e estarem de acordo as normas ambientais".

Vxia - A tecnologia de visão artificial está ganhando novas dimensões com a atuação da Vxia, especializada na automação de processos e controle de qualidade de produtos por meio de Sistemas de Visão Artificial.  Visão Artificial é uma tecnologia que permite, por meio de câmeras, sistemas ópticos, hardwares de baixo custo e softwares de processamento de imagens e reconhecimento de padrões, a inspeção ou automação de processos de qualquer natureza.

"Esta tecnologia, que busca simular o sistema visual humano, é apropriada para a automação de tarefas onde a atividade humana é repetitiva ou subjetiva, ou até mesmo inviável devido as suas limitações inerentes", explica Rafael Pacheco, diretor da empresa.

Segundo ele, a empresa, que estava incubada no Cietec, cortou o cordão umbilical em março deste ano e inaugurou uma sede no Jardim Bonfiglioli, zona oeste da capital paulista. "Estamos com grandes clientes como a GE e a Logoplaste, voltada para embalagens", revela o executivo.

Uma das particularidades da Vxia nesse setor está na complexidade da tecnologia desenvolvida na empresa, o que acaba sendo um diferencial no mercado. "Para soluções muito complexas que exigem muitas câmeras, o nosso software é mais adequado, porque estamos capacitados a desenvolver tecnologia", explica Pacheco. "As outras empresas voltadas para o nosso nicho são apenas integradores". 

Segundo ele, redução de custos de produção, aumento de produtividade, melhoria da qualidade dos produtos, atendimento a normas e padrões, preservação da imagem do cliente no mercado e proteção à saúde humana são alguns dentre dos benefícios proporcionados pela tecnologia Vxia. A empresa, que faturou R$ 500 mil em 2006, tem como meta fechar este ano com um resultado superior, de R$ 700 mil.

A Ecodigital atua no monitoramento on-line de gás, água, energia elétrica e ar-condicionado, dentre outros, visando a automação predial. O objetivo da empresa é tornar a utilização desses serviços mais eficaz e com isso reduzir despesas e desperdícios.

Também na área de automação está a P2S, que desenvolveu um software que controla a presença de partículas e componentes voláteis no ar de ambientes fechados, em especial aqueles que utilizam ar-condicionado, tendo como foco a manutenção da qualidade do ar e da saúde de trabalhadores.

Empresas faturaram R$ 29 mi em 2006

Um dos mais importantes centros incubadores do país e da América Latina, o Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec) foi criado em abril de 1998 por um convênio entre a Secretaria da Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, o Serviço de Apoio a Micro e Pequena Empresa de São Paulo (Sebrae-SP), Universidade de São Paulo (USP), Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen) e o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

O Cietec encerrou o ano de 2006 com 115 empreendimentos. Essas empresas, com 693 postos de trabalho tiveram um faturamento de R$ 29,05 milhões. O total de impostos arrecadados nos seus quase sete anos de existência é 4,68 vezes o valor investido pelo governo, feito através do convênio com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de São Paulo (Sebrae-SP). Em dados absolutos, enquanto o Sebrae-SP investiu aproximadamente R$ 4,3 milhões nesse período, as empresas do Cietec recolheram mais de R$ 20 milhões em impostos. No último ano, essa proporção chega a 6,1.

Dentro do Cietec, o índice de sobrevivência das pequenas empresas é inversamente proporcional ao de empresas que não têm esse apoio. De acordo com dados do Sebrae, sozinhas no mercado, 75% das pequenas empresas fecham as portas nos três anos primeiros anos. No Cietec, de 70% a 80% dos empreendimentos continuam atuantes no mesmo espaço de tempo.

O objetivo do Cietec é incubar empreendimentos de base tecnológica para ampliar o índice de sobrevivência e a competitividade dessas empresas, objetivando o crescimento da economia brasileira, o aumento da geração de empregos qualificados e de melhores resultados na balança comercial brasileira.

O pré-requisito para ingressar no projeto é ter propostas inovadoras em pesquisas para produtos e serviços com alto conteúdo tecnológico preferencialmente nas áreas de Biotecnologia, Biomedicina, Química, Meio Ambiente, Materiais, Técnicas Nucleares, Tecnologia da Informação e Softwares Especiais. As empresas residentes são divididas entre as seguintes modalidades de incubação: Pré-Incubação ou Hotel de Projetos; Incubadora Tecnológica de Empresas Residentes; Incubadora Tecnológica de Software e Incubadora de Empresas não residentes.

As empresas incubadas no Cietec têm acesso às facilidades técnicas e operacionais oferecidas pela USP, o Ipen e o IPT. São mais de 400 laboratórios em todas as áreas do conhecimento humano, com o apoio de técnicos e pesquisadores de todas as entidades envolvidas. Além disso, o Cietec conta com assessoria de marketing em assuntos referentes à gestão de negócios, marketing e vendas e assessoria jurídica.

Área de nanotecnologia também tem projetos

O avanço nanotecnológico também já começou no Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec). Algumas empresas da incubadora atuam no desenvolvimento desta que é apontada como uma das principais tecnologias do futuro. A nanotecnologia é o desenvolvimento de tecnologias em escala nanométrica - um nanometro mede um milionésimo de milímetro - um conceito em expansão. Seu uso tem sido visto com bons olhos em setores diversos como robótica, eletroeletrônica, medicina, saúde, entre outros.

Dentre as empresas do Cietec, duas delas atuam desenvolvendo tecnologias na área, ambas voltadas para o setor de saúde. A STQ, por exemplo, obteve reconhecimento internacional e foi selecionada para participar da Missão Técnica para a França - Iniciativa Empresa Inovadora, organizada pela Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores (Anprotec) no último mês de junho.

A STQ desenvolve um anti-hipertensivo de liberação sustentada no organismo. Voltado para as indústrias farmacêutica, veterinária e cosmética, o produto apresenta como vantagem a possibilidade de produção de uma formulação com dose única de freqüência de administração do medicamento, o que acarreta redução de custos e maior aceitação dos pacientes, graças à perda da necessidade de lembrar os horários do remédio ao longo do dia.

O medicamento é baseado no encapsulamento molecular em ciclodextrinas e no micro e nanoencapsulamento em polímeros biodegradáveis. Residente no Cietec desde meados de 2006, essa tecnologia, já obteve apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Outra empresa do Cietec que acaba de lançar um produto utilizando a nanotecnologia é a Incrementha PD&I. Nascida da união entre dois grandes laboratórios nacionais, Biolab e Eurofarma, ela desenvolveu um anestésico de uso tópico sem similares no mundo. O medicamento, que terá como benefícios a diminuição da dose recomendada, maior rapidez de ação e aumento e prolongamento dos efeitos terapêuticos, ³está sendo finalizado, mas é grande a possibilidade de que possa ser utilizado também como substituto para anestesias injetáveis em procedimentos de pequeno porte, como na cauterização de verrugas.

Com seus testes de verificação sendo desenvolvidos de acordo com as recomendações das principais entidades que regulamentam o setor no Brasil e no exterior, como a brasileira Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a norte-americana Food and Drug Administration (FDA) e a européia European Medicines Agency (Emea), a previsão de lançamento no mercado é o ano de 2008.