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Pós-modernidade: três noites e um debate interminável

Publicado em 21 outubro 2005

Por Mariluce Moura

Tente visualizar: no espaço amplo, até excessivamente aberto para o fim proposto, acústica prejudicada por  essa falta de barreiras, nenhum limite real entre palco e platéia, a voz poderosa da atriz, à frente do coro das Troianas, proclama: "Entrar em sintonia com a plasticidade das coisas. Captar o dinamismo interno dominante na vida social é certamente a chave para que se possa admirar a surpreendente mudança de costumes nas sociedades contemporâneas". De que se trata?
A indumentária e a maquilagem pesada no rosto de todas as atrizes acentuam a carga dramática das palavras. Ouçamos um pouco mais: "É a própria dimensão dessa mudança que anula os nossos modos habituais de pensar. Mas, ainda que nossa capacidade de alcançar uma lucidez ousada seja pequena, compreendemos, graças a uma sabedoria antiga, que, conforme a expressão de Platão, 'tudo o que é grande se ergue em meio à tempestade' (República, 479d, 9). Se formos capazes de constatar o que é, o que está aí, fica mais fácil identificar, no campo magnético das atrações e das repulsões sociais, alguns vetores em torno dos quais tudo isso se articula".
O lugar onde acontece a leitura dramática é o moderníssimo - pós-moderno, talvez? -  Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. É noite de segunda feira, 18 de outubro, e o que está em cena é a abertura da Semana Internacional da Pós-Modernidade, que se prolongará até a quarta, dia 20. Uma semana de apenas três dias? Isso mesmo, já não há motivo para espanto nessa flexibilização do tempo. As palavras, ora articuladas pela atriz Marlene Fortuna, ora a brotar das muitas vozes do coro, e que podem soar um tanto obscuras, algo misteriosas e estranhas para ouvintes e leitores mais afeitos à cristalina racionalidade iluminista, talvez à descarnada razão modernista, pertencem ao Manifesto da Pós-Modernidade, elaborado pelo pensador francês Michel Maffesoli especialmente para a ocasião.
Uma ocasião que deve funcionar, a rigor, como uma pequena pausa na rotina habitual, um parênteses no bombardeio de notícias sobre a gripe aviária, o referendo do estatuto do desarmamento, o processo de cassação de deputados em Brasília, etc., etc., para ouvir e refletir um pouco sobre que mundo mesmo é este em que estamos mergulhados, que discursos melhor nos aproximam de seu espírito, digamos assim, e que sociedades as atuais dinâmicas da vida social estão gestando para o futuro. A pausa não alcança muita gente. Há talvez perto de 100 pessoas na platéia. Mas o espaço é, em vários sentidos, mais aberto do que o da academia.
A idéia desse encontro se armou em torno da vontade de colocar para falar, num mesmo lugar, alguns expoentes europeus do chamado pensamento pós-moderno e conhecidos críticos brasileiros de suas idéias, numa espécie de exposição contígua de campo e contracampo ou canto e contracanto. Jean Baudrillard, Michel Maffesoli e Gianni Vattimo se postariam de um lado, enquanto o embaixador Sergio Paulo Rouanet, e os professores Renato Janine Ribeiro, da Universidade de São Paulo (USP) e Eduardo Portela, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ),  responderiam do outro lado, mais clássico, digamos, ou modernista. Numa posição singular, com um pensamento com vasta área de contato com os pós-modernos europeus, mas marcado por uma visão original da cultura brasileira, na qual destaca as categorias de potência e espaço, em lugar de sentido e verdade, por exemplo, se postaria o professor Muniz Sodré, da UFRJ. Na prática, as coisas não se passaram exatamente assim. Baudrillard, doente, desistiu de viajar ao Brasil e enviou um vídeo de sua fala. E ele mesmo destacou a extrema ironia dessa presença virtual justamente de quem criou e tanto analisou o conceito de simulacro na sociedade contemporânea O ex-ministro Eduardo Portela também não pôde comparecer ao encontro. E o alemão Werner Ghepart, que avisara que não viria, à última hora decidiu vir — daí, não houve tempo de incluir seu nome no programa impresso, mas encaixou-se sua palestra na programação sem maiores problemas.
Foi quase um ano que se consumiu para arrumar esse evento, conta o discretíssimo Bernardo Issler, professor da Faculdade de Educação da (USP) por quase quatro décadas, e ainda hoje professor na graduação e na pós-graduação da Faculdade Cásper Líbero. Velho conhecido, para não dizer amigo, dos pós-modernos em questão, em especial de Maffesoli que conheceu nos idos de 1968, ainda em Estrasburgo, bem antes que ele se tornasse professor da Sorbonne, foi este que lhe propôs realizar no Brasil a sema da pós-modernidade. Daí, trataram ambos de viabilizá-la, o francês buscando a cumplicidade de seus pares, e o brasileiro a anunência de outros nomes locais e os apoios para materializar o evento. A embaixada francesa e o consulado em São Paulo foram as primeiras adesões. Depois, a Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) conseguiu o financiamento das passagens, hotel e cachês com uma empresa ligada à Ipiranga. A Casa do Saber, em São Paulo, que os maldosos chamam de Daslusp, entrou com mais algum recurso e, por último, o Instituto Tomie Ohtake aceitou receber o evento. Acertada a semana, Issler disse que isso exigiria um manifesto e Maffesoli o fez. Juremir Machado da Silva, da PUC-RS, o traduziu.
A julgar pelos termos justamente do manifesto de Maffesoli, nossa época é marcada pelo "retorno de forças primitivas e um tanto tenebrosas"; pelo retorno do "paganismo como princípio vital", na expressão que ele toma de Fernando Pessoa; pela permissão de "todos os delírios, inclusive os mais assustadores", a fervilharem "numa alegre confusão". Há um jogo das metamorfoses que "remete a um primitivismo e ao ressurgimento do arcaísmo da natureza humana, o que se pode ver encarnado em inúmeras manifestações da cultura atual em nossas sociedades". E daí ele propõe que justamente isso se tente pensar na Semana da Pós-Modernidade, "tomando como referência simbólica a Semana de Arte Moderna de 1922, de maneira a tornar fecunda a barbárie pós-moderna". Tudo à sombra de Dioniso, claro, dado que todo esse discurso nada tem a ver com posições apolíneas.
Difícil dizer se a semana seguiu o roteiro proposto no manifesto, mas sem dúvida ela jogou luz sobre aquilo que separa, em alguns casos de forma irredutível, os pensadores pós-modernos e seus críticos. E tomar algumas questões apresentadas pelos primeiros parece um razoável ponto de partida para explicitar isso. Baudrillard, para começar, com seu tema Barbárie e Carnavalização da Cultura Contemporânea: o que disse, via sua enorme imagem espectral projetada numa grande tela, esse velho conhecido do país, que já na primeira metade dos anos 80 passava por aqui nos apresentando seu Esquecer Foucault ?
Explicou que o Ocidente fez o sacrifício de todos os valores, chegando a uma forma de paródia total de si mesmo (daí a idéia de carnavalização no mau sentido), que busca tornar-se hegemônica em escala planetária. Mas ao mesmo tempo essa hegemonia sofre um revés, uma canibalização de muitas formas, das quais o terror é a mais violenta. Algo como um antagonismo contra o poder hegemônico, que nada tem a ver com a velha luta de classes, nem opõe duas civilizações, e está simultaneamente dentro e fora das redes ou dos circuitos integrados do poder hegemônico. "Todos estamos dos dois lados, por isso a situação se torna quase insolúvel", ele disse em tom sombrio, embora se declarando "nem otimista, nem pessimista". Dito de outra forma, o sistema hegemônico teria absorvido toda a sua negatividade e, não tendo um inimigo externo, a exemplo do comunismo, volta-se contra si mesmo — "no 11 de setembro, as torres do Worrld Trtade Center pareciam suicidar-se sozinhas". Ao mesmo tempo, há resistências de fora, "e um terror que luta contra o terrorismo inaugura o terrorismo de Estado". Em síntese, em seu olhar, vivemos numa situação paradoxal e desesperadora, estamos imersos na realização imediata das coisas e é muito difícil "conceber uma utopia qualquer".
Maffesoli, um raro "pós-moderno feliz", na classificação irônica de Rouanet, ao abordar O retorno das emoções sociais, insistiu na tecla de que, embora os valores que fizeram a modernidade tenham cumprido um belo percurso, é preciso ter a coragem de pensar hoje o mundo como é, e não como deveria ser, base de todos os moralismos. Insurgiu-se contra o pensamento morno da maior parte dos discursos jornalísticos e acadêmicos e defendeu que, dado que a vida é um risco "o pensamento que quer afinar-se com a vida deve ter a audácia de ir na contra-corrente, contra a lógica do dever ser, para abordar o que é".  Depois de passear pela história da Metafísica, desde Santo Agostinho, Maffesoli observou que as grandes certezas já não funcionam, que ao contrário do que se diz do individualismo da época contemporânea é justamente esse individualismo que hoje está em jogo, num momento em que "estamos possuídos por aquilo que pensamos que possuímos, como os celulares e os computadores, num processo mágico semelhante ao que presidia a relação com o totem nas sociedades primitivas". 
Nosso tempo é, ele diz, o de um pensar em espiral, a via reta da razão já não funciona, e nele aliam-se coisas que pareciam tão separadas quanto a tribo e a internet. Ele propõe que podemos construir uma ética da estética, e informa que Prometeu, mito da racionalidade moderna, já foi substituído por Dioniso, num processo de reencantamento do mundo. Humildade e humor também seriam boas palavras para nossa época. E Gianni Vattimo, em seu tema Adeus à Verdade, depois de investir de maneira engraçada contra Bush, Blair e Berlusconi, "os grandes mentirosos", tratou de desmontar a noção metafísica de verdade, o conceito de verdade objetiva, que nem os cientistas defendem mais, segundo ele, porque não pensam o conhecimento científico como espelhamento da realidade, e sim como uma construção determinada, e terminou propondo que a verdade se faz numa linguagem compartilhada, sem naturalismo ético e sem autoridade metafísica.
E o que disseram os brasileiros no debate? Fiquemos por enquanto com Sergio Paulo Rouanet, deixando Muniz e Janine para um próximo artigo. Rouanet, é claro,  foi categórico em afirmar que não se vai escapar do mal estar da modernidade senão pela própria modernidade. E foi enfático em defender que a globalização que tanto assusta os pós-modernos não é um incidente de percurso, mas algo inerente à essência sociológica da modernidade, que já nasceu centrífuga. Rouanet passou pelas marcas da modernidade nas esferas econômica (força de trabalho formalmente livre, incorporação da ciência e da técnica), política (função tributária do estado, monopólio da violência) e cultural (setorização das atividades) e pelas críticas da direita e da esquerda a cada uma dessas esferas. E bateu firme nas constatações impotentes dos pós-modernos. Da "melancolia resignada" de Baudrillard, ao "encantamento deslumbrado" de Maffesoli, ante um mundo de festa, multicor, "que para ele paradoxalmente é um retorno ao arcaico", não deixou escapar nada.
Autonomia, em todos os sentidos — econômico, político, cultural -- foi a palavra que ele enfatizou depois, em sua proposta pela recuperação da vertente iluminista da modernidade, que teria permanecido latente sob o domínio da vertente funcional, em que eficácia é a palavra-chave. Isso seria a base de uma nova utopia concreta.
Mas no Instituto Tomie Ohtake parece que ainda ressoa "uma ética na qual o afeto tem seu lugar". E talvez, como disse Heidegger, e Maffesoli relembrou no manifesto, "o começo ainda é, não jaz às nossas costas, mas se ergue à nossa frente".

Mariluce Moura é jornalista e diretora de redação da revista Pesquisa Fapesp