Notícia

Correio Popular (Campinas, SP)

Pós-graduação e as boas notícias

Publicado em 05 agosto 2020

Por Gleyd Bertuzzo

Duas importantes notícias veiculadas na mídia recentemente nos chamaram a atenção, uma delas é o anúncio da safra recorde de grãos em 2020 e, a outra, são as novas parcerias do Brasil com laboratórios internacionais para o desenvolvimento da vacina para a Covid-19.

A primeira, dada pelo o IBGE, por meio do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), anunciando a projeção de recorde nacional para a safra de grãos para o ano de 2020. Isto significará seis milhões de toneladas de grãos a mais em relação ao ano de 2019. Em termos econômicos, e, diante do cenário de grave crise mundial, a produção agrícola aliviará um pouco a nossa combalida economia, movimentando toda a cadeia produtiva do agronegócio, mantendo empregos, gerando impostos e fazendo girar a roda da economia do país. A segunda notícia está relacionada a dois acordos de cooperação internacional: um deles no âmbito do Governo Federal com a Universidade de Oxford, o Laboratório AstraZeneca e a Fiocruz.

E o outro, entre o Governo do Estado de São Paulo, a farmacêutica chinesa Sinovac e o Instituto Butantã. O que uma e outra, de áreas tão diferentes, têm em comum? A resposta é: a ciência nacional, que está sendo capaz de dar conta de respostas para os problemas atuais. No caso da agricultura, a ministra da agricultura Tereza Cristina, em entrevista ao Estadão reconheceu: “Nos últimos 40 anos, a nossa área plantada cresceu 32%, enquanto a produtividade aumentou 385%, isto se deve à pesquisa, à nossa tecnologia”. Já no caso das vacinas para a Covid-19, o Brasil possui uma conjunção de fatores que jogam a nosso favor: além da competência científica para desenvolvê-las e produzi- las em grande escala, é também um país muito populoso e com grande diversidade racial. Segundo especialistas da área, se as vacinas desenvolvidas aqui forem bem-sucedidas, terão uma grande vantagem competitiva em relação às outras produzidas em países da Europa ou dos Estados Unidos, significando que estarão aptas a imunizar o planeta. E isso não é pouco e nem é tudo. É urgente, no entanto, reconhecer que só chegamos ao estágio atual graças à institucionalização da pós-graduação no país há exatos 45 anos, o que garantiu o avanço científico brasileiro.

O objetivo, no início, era formar professores para os novos cursos e novas universidades que estavam sendo criadas e qualificar a mão de obra para a indústria nacional, que começava a crescer e a se diversificar. Contudo, viu-se a necessidade de criar metas e diretrizes surgindo assim os Planos Nacionais de Pós-Graduação (PNPG), que até o presente ano somam- se a seis edições. O atual é o PNPG (2011-2020) que, em virtude da complexidade das demandas que temos na atualidade, elencou uma lista de áreas prioritárias e inovadoras incluindo a biotecnologia, os fármacos e vacinas, os materiais avançados, a nanotecnologia e tecnologia da informação e da comunicação, a microeletrônica, o espaço, a defesa e a energia nuclear, que provou os seus resultados por meio das notícias que acabamos demencionar.

Outra evidência disso é a notícia de que o acelerador nacional de partículas Sirius apresentou detalhes da microestrutura do coronavírus, devido à radiação eletromagnética e cujo equipamento foi desenvolvido por uma startup campineira, ou seja, cem por cento de tecnologia brasileira. Mais uma importante conseqüência do PNPG (2011- 2020), segundo recente artigo publicado pela Revista da Fapesp, é o fato do Brasil subir de 22° lugar (1980-1984) para 7° lugar (2015- 2019) no ranking mundial das publicações de pesquisas em colaboração com cientistas de diferentes instituições e países, expressando assim o resultado dos acordos de cooperação internacional e dos convênios entre as instituições brasileiras previstos no plano.

Por fim, é preciso entender que a complexidade e a dinâmica apresentadas pelo surgimento da Covid-19, por exemplo, comprovaram a importância da pesquisa científica nacional para o enfrentamento dos desafios atuais e do porvir. Assim sendo, é imperativo que a sociedade civil brasileira compreenda que o advento de novas e boas notícias está diretamente atrelado à continuidade de investimentos na pósgraduação do país, porque o retorno, como vimos, é inegável.