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Altair Tavares

Pós-Covid: associação médica recomenda que Brasil crie protocolos para tratar pacientes que tiveram a doença

Publicado em 16 abril 2021

A Academia Nacional de Medicina (ANM) aponta um estudo que preocupa a comunidade médica que são as consequências que vítimas da covid-19 sofrem após se recuperarem da doença. Os profissionais de saúde vêm percebendo uma série de complicações sofridas por ex-infectados pelo coronavírus. O fato fez a ANM se mobilizar e pedir um protocolo para cuidar dessa situação.

O assunto levou a um debate promovido no dia 8 de abril pela ANM com os profissionais de vários setores. O diretor-geral do Instituto do Coração (Incor) e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FM-USP), Fábio Jatene, explica o que é o “Pós-Covid”.

“Temos observado que o doente se cura da COVID-19, sai da UTI [Unidade de Terapia Intensiva], mas permanece no hospital, pois não consegue voltar para casa. Ele precisa de reabilitação. Por isso, temos de pensar num modelo que passei a chamar de unidade pós-COVID, onde teríamos atendimento ambulatorial, hospital-dia e algumas áreas para internação daqueles pacientes que não têm condição [de ter alta]”, explicou.

Jatene alertou sobre a ocorrência de problemas cardiovasculares devido à covid-19, que, segundo o professor, não ocorrem apenas em pacientes com histórico prévio de doença cardíaca.

“A literatura tem várias observações a respeito de pessoas absolutamente sem doença cardiovascular e que acabaram desenvolvendo no pós-COVID. Inclusive atletas universitários, pessoas sem risco cardiovascular. Estudos revelaram que 55% dos pacientes no pós-COVID apresentaram alterações no bombeamento cardíaco. Num estudo realizado na Alemanha, 78% dos pacientes diagnosticados com COVID-19 mostraram evidência de alguma lesão cardíaca, causada até semanas depois da recuperação da doença propriamente dita”, disse.

O presidente da ANM, Rubens Belfort Jr., esclarece que várias moléstias surgirão em decorrência de doenças infecciosas e que a covid-19 vem mostrando isso.

“O problema vai muito além da COVID-19. Quem poderia imaginar que tantas alterações aparentemente não relacionadas a doenças infecciosas decorrem delas? Com toda certeza, muitas outras doenças virais podem causar manifestações tardias, mas a medicina ainda as desconhece”, pontuou.

Já para Carlos Alberto Barros Franco, membro da ANM e professor da Escola Médica de Pós-Graduação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), o Brasil ainda está na fase da pandemia em que a preocupação mais urgente é conter a transmissão do vírus, mas os problemas decorrentes da covid-19 vão persistir por muito tempo.

“Essa é uma preocupação de países europeus e norte-americanos, que vêm se preparando para essa segunda fase, a da síndrome pós-COVID ou COVID longa. Isso terá consequências da maior gravidade no Brasil. Haverá pessoas que não vão poder voltar a trabalhar normalmente. Então é fundamental que o Brasil se prepare”, disse.

Os palestrantes relataram também estudos realizados no Brasil e no exterior das mais variadas manifestações ocorridas após a resolução da fase aguda da covid-19. Alterações gastrointestinais, pulmonares, do fígado e das vias biliares; diferentes manifestações dermatológicas, renais e otorrinolaringológicas; problemas psicológicos e até da retina já foram relatados na literatura médica.

Segundo Paulo Hoff, diretor-geral do Instituto do Câncer (Icesp) e professor da FM-USP, a pandemia trouxe queda significativa nos exames preventivos e, consequentemente, no diagnóstico precoce de tumores.

“São dados que se repetem ao redor do mundo. Tivemos redução na ordem de 70% a 90% nos exames de rastreamento de tumores importantes como de mama, próstata e colorretais. [Houve ainda] redução significativa nas cirurgias relacionadas ao diagnóstico de câncer e, talvez mais importante, dados originados nos laboratórios de anatomopatologia mostram até 30% de redução nas biópsias de câncer nesse período. Lembrando que esses casos continuam acontecendo, só não estão sendo diagnosticados no seu estágio mais precoce, o que seria desejável”, contou.

O médico oncologista afirmou ser essencial que os pacientes diagnosticados mantenham o tratamento, ainda que seguindo protocolos de segurança contra a covid-19.

Com Agência Fapesp