Notícia

Gazeta Mercantil

Portais financeiros bridam pela sobrevivência

Publicado em 23 abril 2000

Por Marcelo Mota - de São Paulo
A Internet começa a ficar apertada demais para abrigar a prole da nova economia. Depois do "boom" de novos sites, os portais financeiros estabelecidos na Web afiam as garras para definir quem prevalecerá no mercado. Uma das armas declaradas para ai competitividade é a independência. O conceito de supermercado de produtos financeiros é o mais usado para definir o perfil de portais, que buscam transmitir isenção perante aquilo que oferecem ao usuário. É esse título que usa o InvestShop, portal que nasceu sob o controle do Grupo Meridional, holding do Banco Bozano, Simonsen. Desde que o Meridional foi vendido para o Banco Santander Central Hispano (BSCH), há cerca de três meses, o principal executivo do portal, Marcelo Barbosa, diz que vem sentindo mais facilidade de negociar parcerias. Somente na área de fundos de investimento, o InvestShop ultrapassa duas dezenas de parceiros, para os quais distribui mais de 100 aplicações. INDEPENDÊNCIA O portal foi o único ativo dá área financeira do Meridional a permanecer em poder de Júlio Bozano. O que não fechou nesse pacote, o BSCH foi buscar no Patagon.com. Um dos dois principais diretores do portal, Sérgio KuUkovsky não sente o peso da instituição afetando sua autonomia. "Seria o maior cheque rasgado da história", alega ele. O cheque que comprou o portal, de US$ 750 milhões, pagou exatamente pela sua independência, de acordo com Kulikovsky. Essa isenção, de acordo com Márcio Macedo de Almeida, analista da corretora BBA-Icatu, tem seu valor conforme o público-alvo do portal. Entre investidores com maior poder de compra e de discernimento, a independência pesa. A diversidade obtida por meio de parcerias oferece mais opções para o aplicador. Em níveis mais modestos, conta muito o peso de uma grande instituição. Nessa briga está o Shoplnvest, do Bradesco. Odécio Gregio, diretor do banco, afirma a intenção de distribuir fundos de investimento de outras instituições, até junho. Isso, porém, não tornará o portal independente do Bradesco. Apesar de oferecer produtos e serviços também para não-correntistas, o site se manterá dentro do compasso ditado pelo controlador. Mas mesmo os investidores menos arrojados podem ser alvo da isenção vendida pelos portais financeiros. Recém lançado no País, o pinheironet.com.br, resultante da fusão do brasileiro Planeta Dinheiro com o argentino Dineronet.com, vê sua autonomia em primeiro plano. O site, conforme um de seus sócios, Carlos Eduardo Martins, se propõe ser um "personal trainer financeiro". Por meio de parcerias, o portal pretende distribuir produtos, enquanto auxilia os usuários com o planejamento financeiro pessoal. Para se firmar em oito países, na América Latina e na Europa, a Dineronet.com se vale ainda de outro apelo: a identificação com cada país. "Não queremos ser latino-americanos, mas argentinos, brasileiros, ou colombianos", diz o diretor executivo do portal, Cláudio Porcel. As duas armas estão também nas mãos da ZonaFinanceira.com. Presente em 21 países, o portal usa a independência e sua abrangência para se vender no plano particular. Segundo seu presidente, Greg Keough, o site atrai usuários entre os latinos residentes nos Estados Unidos, que se interessam em acompanhar informações de seu país de origem. COMPETIÇÃO Mas a competição também tem um lado obscuro. Com a dificuldade de se checar os números apresentados por cada portal, alguns sites informam estatísticas infladas. "Eu não acredito mais em números", diz Kulikovsky, do Patagon.com. De acordo com ele, em uma ocasião viu um concorrente informar um giro financeiro com o serviço de "nome broker" (venda de ações por meio do portal), maior do que o número que ele tinha como o total realizado pelo mercado. O diretor do Patagon.com afirma que há diversas maneiras de inflar os números. Uma comum é a troca de "bunners" (tarjas de publicidade) entre sites. Um faz a propaganda do outro, em permuta, mas, contabilmente, é registrada uma receita e uma despesa de cada lado. Quando a receita é informada isoladamente, aparece inflada. Alguns sites também usam a atualização muito freqüente da página para aumentar o número de "page views" (número de vezes em que cada página do portal é acionada). De acordo com Kulikovsky, da Patagon, há casos em que a atualização da página é feita automaticamente, a cada 5 segundos. Como o número de "page views" é um dos poucos denominadores comuns entre os sites, tornou-se um indicador muito utilizado para medir a penetração de um portal. Quanto mais vezes, maior o sucesso. A distorção desses indicadores gera também estatísticas desproporcionais no mercado. Não é difícil encontrar um site pequeno com uma média de visitas maior do que portais como o Shoplnvest, que tem por trás o Bradesco, e 1,7 milhão de "page views" por mês. O gigante do varejo tem 8,7 milhões de correntistas, dos quais 1,1 milhão cadastrados no serviço de Internet banking. Sites financeiros lnvestShop.com Page view - 12 milhões/mês Usuários -105 mil Volume girado - R$ 50 milhões/mês Controladores - Júlio Bozano Shoplnvest Page views -1,7 milhão/mês Usuários -120 mil Volume girado - R$ 300 milhões em um ano Controladores - Bradesco Patagon.com Page views - 8 milhões/mês Usuários - 25 mil Volume girado - R$ 44 milhões/mês Controladores - Banco Santander Central Hispano (BSCH) Dineronet.com Page views - 3,9 milhões/mês Usuários -17 mil Controladores - Eduardo Constantini (empresário argentino), Cláudio Porcel, Donald Mclnthyre e Carlos Eduardo Martins (executivos da empresa) Fonte Empresa PROPRIEDADE DE NOMES GERA CONFLITOS NA WEB Marcelo Mota e Silvio Ribas - de São Paulo Vale quase tudo na guerra pela sobrevivência no mundo virtual. Não é diferente entre os portais financeiros. A velocidade com que novos negócios nascem e morrem na Internet gera muitos conflitos. Um dos mais comuns é em torno da propriedade de nomes. Sérgio Kulikovsky, do Patagon.com. conta que uma corruptela do endereço da Netrade, site que presta serviço de 'home broker" dentro do grupo, vem sendo utilizado por uma corretora concorrente. A Netrade ainda tentou precaver-se, registrando também o domínio com dois "T". Mas apareceu a Netrader, que, segundo Sérgio Kulikovsky, embarca na fama do site que dirige, recebendo visitantes acidentais. Apesar disso, ele não pretende recorrer contra a utilização do nome. O conflito também vem ocorrendo com o LatinStocks e a Lineinvest, ainda em lançamento. Ao digitar o nome do primeiro, sem o último "S", o internauta cai diretamente no segundo portal. Um porta-voz do Lineinvest alegou que diversos domínios foram registrados, no início do projeto, antes da LatinStocks entrar no mercado brasileiro. A empresa colocou, desde já, o nome à disposição da concorrente, gratuitamente. A forma adotada no País para o registro de domínios na Internet, junto à Fundação de Amparo e Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), é quase um estímulo ao conflito. Segundo a advogada Juliana Viegas, mais de 90% dos casos são solucionados por acordo entre representantes legais dos donos e dos que reivindicam ou contestam a posse. "A demora certa para uma solução em juízo, versus a urgência do mundo dos negócios, acaba levando a essa alternativa", diz. Ex-presidente da Associação Brasileira de Propriedade Intelectual (ABPI), ela lembra que muitas empresas se especializaram nas últimos anos em registrar marcas conhecidas ou internacionais na Web brasileira apenas para comercializá-las. Um facilitador disso é que Fapesp só questiona registros a partir de um index de "nomes famosos" elaborado pelo Instituto Nacional de Propriedade Intelectual (INPI), em 1996. A exemplo dos estágios para revisão de registros no INPI, Juliani defende a criação de instância administrativa da Fapesp para analisar os protestos que hoje só podem ser destinados a diferentes foros da Justiça comum e que tem levado à decisões discordantes. A idéia foi levada em janeiro ao Comitê Gestor da Internet pela ABPI.