Porco clonado no Brasil inaugura era de transplantes no SUS nasceu em Piracicaba (SP) e coloca o país na vanguarda da pesquisa em xenotransplante, com potencial de suprir a demanda do Sistema Único de Saúde por órgãos.
Porco clonado no Brasil inaugura era de transplantes no SUS
O primeiro porco clonado da América Latina veio ao mundo no Instituto de Zootecnia da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, em Piracicaba, resultado de um projeto coordenado pela Universidade de São Paulo (USP) e financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). A conquista encerra seis anos de trabalho do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Xenotransplante (XenoBR) e abre caminho para a produção nacional de órgãos destinados a transplantes no SUS.
Liderado pelo cirurgião Silvano Raia, pela geneticista Mayana Zatz e pelo imunologista Jorge Kalil, o grupo escolheu uma linhagem suína de rápido crescimento: em sete meses, o animal atinge peso compatível com o de um receptor humano adulto de 80 kg. O clone nasceu saudável, com 1,7 kg, após gestação de quase quatro meses em uma fêmea híbrida das raças Landrace e Large White.
Para evitar rejeição imunológica, os cientistas inativaram três genes suínos responsáveis por respostas incompatíveis e inseriram sete genes humanos usando a ferramenta CRISPR/Cas9. “Precisávamos editar loci específicos para garantir funcionalidade e sucesso da clonagem”, explicou Ernesto Goulart, pesquisador do Instituto de Biociências da USP. O domínio dessa etapa era considerado o maior obstáculo, já que suínos apresentam dificuldades biológicas adicionais em comparação com bovinos e equinos.
Os animais geneticamente modificados serão mantidos em duas instalações de biossegurança 2 localizadas na USP e no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), ambas construídas com apoio da FAPESP. O controle rigoroso busca eliminar riscos de transmissão de patógenos, requisito indispensável para uso clínico de órgãos.
A curto prazo, rim, coração, córnea e pele são as prioridades, pois respondem por 94% da fila nacional de transplantes. O objetivo é criar um plantel reprodutivo que permita atender a demanda interna sem recorrer a importações, cenário que, segundo Goulart, colocaria o sistema público brasileiro em situação insustentável. “Queremos que São Paulo se torne a capital do xenotransplante da América Latina”, afirmou.
Mundialmente, nenhum país obteve autorização regulatória definitiva para xenotransplantes, mas estudos clínicos avançam nos Estados Unidos e na China. Ainda que a sobrevida dos órgãos seja limitada, eles podem servir como “ponte” até a chegada de um doador humano compatível. Mais detalhes técnicos podem ser encontrados na própria Agência FAPESP , referência internacional em divulgação científica.
Os pesquisadores projetam que, produzidos localmente, os órgãos suínos custem apenas uma fração dos valores previstos por centros norte-americanos e chineses, tornando o procedimento financeiramente viável para o SUS e potencialmente exportável a países vizinhos.
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