O nascimento do primeiro porco clonado da América Latina, em Piracicaba (SP), marca um avanço histórico para a biotecnologia brasileira
Pedro Spadoni
O nascimento do primeiro porco clonado da América Latina , ocorrido no final de março em Piracicaba (SP), marca um avanço histórico para a biotecnologia brasileira.
Desenvolvido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) no Instituto de Zootecnia (IZ), o animal é peça-chave de um projeto que visa gerar suínos geneticamente modificados para xenotransplante (transferência de órgãos entre espécies diferentes) para suprir a demanda humana.
O objetivo central é fornecer órgãos compatíveis para o Sistema Único de Saúde (SUS) , reduzindo as filas de espera e a dependência tecnológica de outros países, como Estados Unidos e China, que já têm estudos clínicos na área.
A iniciativa é liderada pelo cirurgião Silvano Raia, professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP, pela geneticista Mayana Zatz, professora do Instituto de Biociências (IB) da USP e coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco (CEGH-CEL) e pelo imunologista Jorge Kalil, professor da FM-USP.
O projeto começou em 2019, por meio de uma parceria com a farmacêutica EMS no âmbito do Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica (PITE) da FAPESP. E ganhou escala a partir de 2022 com a criação do XenoBR, um dos Centros de Ciência para o Desenvolvimento (CCDs) financiados pela Fundação.
“O passo que demos agora é crucial porque a clonagem de suínos é uma das técnicas mais difíceis de serem dominadas para viabilizar o xenotransplante”, disse Ernesto Goulart, professor do IB-USP e principal pesquisador do CCD à Agência FAPESP .
Porco clonado: edição genética é a chave para evitar rejeição de órgãos suínos em humanos
Para viabilizar o uso de órgãos suínos em pessoas, os cientistas usam a ferramenta CRISPR/Cas9 , que permite editar o DNA com precisão.
No caso do clone brasileiro , foram inativados três genes suínos responsáveis pela rejeição imunológica imediata. Paralelamente, foram inseridos sete genes humanos nas células do animal.
“Esses genes precisam ser inseridos em lugares específicos e da forma correta para garantir sua atividade adequada e que a clonagem seja bem-sucedida”, disse Goulart.