Notícia

B2B Magazine

Por uma cultura virtual

Publicado em 01 agosto 2003

Quem aproveitou a atual conjuntura econômica da Argentina para dar uma visitinha deve ter ficado surpreso com a quantidade de locais chamados "locutórios" que permitem acesso a Internet por banda larga ao preço de pouco mais de 2 pesos a hora. Há três mil locutórios privados, três mil centros tecnológicos comunitários somente em Buenos Aires e mais três mil no restante do país. Nestes a navegação é gratuita. Em São Paulo há 110 infocentros (do Estado) e 120 telecentros da Prefeitura e para uma população bastante maior. A diferencia dos números chamam a atenção. Alguns fatores estruturais nos ajudam a entender o processo. Argentina é um país sem abismos sociais, e por isto a maior parte das pessoas está incluídas em hábitos de consumo, lazer, de vida similares. A sociedade argentina, pega pela crise mais violenta de sua história, já tinha a necessidade criada de acesso a informação. A expansão da Internet substitui o mio de acesso a ela, uma vez que é mais barata, mais abrangente e mais eficaz. Podemos folhar vários jornais de diferentes países, podemos procurar emprego em classificados de diferentes mídias e prospectar oportunidades de negócio. Estes fatores culturais ajudam a explicar o processo, mas como analisamos a difusão de locais similares na Índia? Como explicar os computadores com acesso à Internet nos botequinhos de bairro, nos quais os estudantes fazem o dever de casa e os moradores acessam a Internet? Na Índia houve uma política deliverada do Estado para gerar essa cultura e necessidade. A entrada na Economia Digital era estratégica para alavancar o desenvolvimento do país. Com os abismos sociais que vivemos é imperioso encontrar saídas que permitam a integração social de setores que não vêem a cultura do trabalho como meio de ascensão social. Sabemos a enorme dificuldade que o mercado de trabalho tradicional tem para concorrer na atração dos jovens de baixa renda na disputa com o crime organizado. Procurar um emprego operacional qualquer não só não garante renda para ascender socialmente como perpetua a exclusão à que essa pessoa esteve submetida por gerações. Elaborar estratégias que permitam incluí-la em atividades relacionadas a economia digital pode ser uma saída para diminuir os abismos sociais. Culturalmente esses jovens estarão incluídos na mesma cultura, usarão a mesma linguagem que outras frações sociais às que aspiram pertencer. Convenhamos que é muito mais atrativo ter uma atividade econômica relacionada a tecnologia da Informação que a uma atividade na manufatura ou no comércio e é muito mais provável ascender socialmente a partir deste tipo de atividade. Os telecentros públicos podem ser uma das principais ferramentas para que estas transformações aconteçam. Eles são centros de convívio que favorecem a interação pessoal e, com isso, torna facilitado o aprendizado da tecnologia. Disto pode se derivar a formação de uma comunidade ligada por interesses similares e necessidades vitais próximas. Mas os telecentros não precisam ser públicos, podem ser gerenciados por ONGs ou pelo setor privado. Pode ser um excelente exemplo de novas oportunidades de negócio que são geradas pela Sociedade da Informação, é só olhar para outros modelos de sucesso. Desde já, há que criar a demanda, sem este processo não haverá milagres. Os telecentros podem ser o motor de uma grande mudança que redefina as distâncias sociais, que seja o motor da construção de estratégias de desenvolvimento sustentável de uma comunidade.