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Jornal da Unicamp online

Por uma ciência romântica

Publicado em 15 outubro 2012

Por Carmo Gallo Netto

A Revolução Científica desencadeada no século XVII trouxe mudanças significativas na estrutura do pensamento, culminando no estabelecimento do método científico.  Esta mudança determinou que o homem passasse a ver a natureza como objeto de sua ação, do seu conhecimento e sua tarefa passou a consistir em representá-la através de hipóteses que pudessem ser experimentadas para certificação da sua validade.  Deixaram de ser consideradas as explicações teológicas e metafísicas, o que levou Kepler e Galileu a choques com a cosmogonia e a filosofia de Aristóteles, que serviam de base para o pensamento teológico.

Diante desse quadro, chamar de Primeira Revolução Científica aquela que se desenvolveu a partir do século XVII e que perdura até nossos tempos – que teve como expoentes fundadores, entre outros, Descartes, Galileu e Copérnico – e considerar o movimento que surgiu como oposição àquela como Segunda Revolução Científica – que permeou durante apenas 60 anos as últimas décadas do século XVIII e as primeiras do século XIX e passou a ser denominada de Ciência Romântica – certamente provocará uma reação irada de grande parte dos homens de ciências que consideram esta última uma negação da ciência, porque entendem que os eventos que plasmaram a ciência moderna, a Revolução Científica, são únicos e perfeitamente estabelecidos. 

Mesmo assim, particularmente em países centrais, existem pesquisadores preocupados em resgatar os elementos da Ciência Romântica por considerarem estratificadas as visões que permeiam a ciência institucionalizada. 

Em tese desenvolvida junto ao Departamento de Sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, orientada pela professora Leila da Costa Ferreira, o pesquisador Marcelo Fetz apresenta uma interpretação da formação da ciência brasileira que escapa ao determinismo da via “institucionalista”, que compreende a trajetória do fortalecimento da atividade científica no país apenas a partir da criação de institutos, museus e universidades, considerando as atividades anteriores de “pequenos feitos científicos”.

No estudo, Fetz defende que a formação da ciência no Brasil em sua fase pré-institucional, apresenta uma organização singular em função da realidade histórica do país e do contexto cientifico da época. Neste particular, ele considera que, “a exemplo dos contextos de formação da atividade científica nos países centrais da Europa como Inglaterra e Alemanha, houve a aproximação da atividade científica com as atividades sociais. No caso brasileiro, contudo, diferentemente dos europeus, a recepção e a difusão de um modo do pensamento e da vida científica foram realizados com o auxílio dos círculos literários e artísticos, à época, mais consolidados que os científicos”.

Com efeito, no início do século XIX, havia no Brasil revistas dedicadas à literatura e às artes que publicavam também matérias científicas. O pesquisador procura mostrar que a origem do desenvolvimento científico no Brasil decorreu das influências daquela que seria a Segunda Revolução Científica, fundada em países centrais da Europa, de que se originou a denominada ciência romântica, estilo de pensamento contemporâneo ao romantismo literário europeu e impulsionado pela ascensão da burguesia da época.

A pesquisa compreende a época que vai da primeira viagem do Capitão Cook (1768) à primeira viagem de Darwin a bordo do Beagle (1831), período em que ocorreu o fortalecimento da concepção romântica de ciência na Europa e a introdução de atividades científicas no Brasil.

O pesquisador considera que, em função da conjuntura histórica que marca a abertura cultural brasileira com a chegada da corte de Dom João VI no ano de 1808 ao Brasil, a presença desse estilo de pensamento científico assume valor histórico e sociológico fundamental para a interpretação da formação do pensamento científico brasileiro.

Financiamento da Fapesp permitiu que o autor realizasse pesquisas durante seis meses na Universidade do Mississipi, EUA.

O que é

Para os que compartilhavam os princípios da ciência romântica, o pensamento nascido da primeira revolução científica teria sido incapaz de compreender todas as faces da natureza. Suas formas de abordagem e comunicação conseguiriam entender apenas parcela do mundo, tornando-o distante dos homens comuns e difundindo uma visão de natureza baseada na fragmentação de suas partes componentes, de que é exemplo uma espécie biológica isolada da paisagem total que a envolve.

Em reação a essa particularização, a literatura e a pintura passaram a ser utilizadas pelos naturalistas da ciência romântica.  A literatura é encarada então como um meio ideal da comunicação, particularmente a poesia.

Paradigma desse tipo de escrita seria a obra Templo da Natureza (Temple of the Nature), de Erasmus Darwin, avô de Charles Darwin, em que a tese sobre a origem das espécies surge na forma de poesia. 

Na pintura, a paisagem é utilizada como recurso para a síntese geral dos elementos componentes da natureza. Para o autor, esse estilo de ciência esteve fortemente presente no Brasil da primeira metade do século XIX através de viajantes naturalistas estrangeiros, passando a ciência romântica a fazer sentido no cenário de fortalecimento de uma agência científica nacional, pois sua organização epistemológica e metodológica conferia à literatura e à pintura de paisagem um importante papel no entendimento da natureza.

Na tese são descritas e analisadas com maiores detalhes as obras de Spix e Martius, Eschwege e Wieud-Neued, sobretudo as narrativas de viagem desses naturalistas. “Esses viajantes, notadamente aqueles de origem germânica ou saxônica, desenvolviam suas pesquisas, segundo os princípios dessa ciência romântica, com descrições e análises que adotavam a mensuração, a medição e a observação empírica da natureza, particularmente os elementos da fauna e da flora, mas se utilizavam de “sentimentos” e “sensações” como critério de avaliação da “força da Natureza”, de sua “vitalidade orgânica” e de sua riqueza natural”, diz ele.

Estes princípios de organização do saber pretendiam ir além do entendimento empregado por homens de ciência que pautavam a análise da natureza pela separação entre sujeito e objeto.

Segundo Fetz, os exemplos canônicos do estilo de conhecimentos científicos da ciência romântica teriam sido as obras finais de Humboldt, em que o naturalista utiliza dois recursos para a compreensão da natureza.  O de “sentimento da natureza”, comunicado nas narrativas que expressam os sentidos subjetivos do naturalista, e o “quadro da natureza”, revelado através de palavras ou pinturas de paisagem que procuram dar uma visão panorâmica da natureza. 

Esse tipo de procedimento característico da ciência romântica é visto em geral como um envolvimento indevido da ciência com esferas sociais que não fazem parte da atividade científica, casos das interações entre ciência e literatura e entre ciência e artes pictóricas, e considerado um retrocesso, uma anticiência, devido aos excessos subjetivos empregados pelo naturalista. 

O autor ressalva porém que “se consideradas as novas abordagens da compreensão da atividade científica, especialmente na historiografia e na sociologia da ciência, fica difícil separar o que é daquilo que não é ciência. As contribuições ao desenvolvimento científico seriam muito mais complexas do que aquelas que reconhecem a ciência como uma esfera hermeticamente isolada da sociedade e dos demais campos culturais. Trata-se, portanto, de trazer ao debate alguns elementos ativos do mundo científico que não são tradicionalmente  considerados como contribuição ao fortalecimento da atividade científica”.

No Brasil

O pesquisador constata que no Brasil a presença desse estilo de conhecimento elaborado com o auxílio da fruição artística que, no entanto, não deixava de lado a observação empírica e as medições quantitativas, deu-se com base nas narrativas das viagens científicas dos naturalistas a partir da primeira metade do século XIX. Para esses viajantes, a natureza brasileira seria o exemplo mais bem acabado da força e da beleza exuberante do mundo natural.

A natureza, com sua beleza e exuberância, seria adotada como um dos elementos centrais do oitocentista brasileiro e o seu estudo seria transformado em uma das principais vocações da ciência nacional, na opinião de  Marcelo Fetz.

Para ele, a Segunda Revolução Científica - expressão cunhada no final do século XVIII pelos escritores ingleses William Wordsworth e Samuel Coleridge – considera que o mundo é dinâmico e o sujeito inseparável do objeto. O pesquisador faz parte do objeto de pesquisa e é tão dinâmico quanto o mundo.

A saída para gerar ciência nesse contexto seriam os argumentos literário, poético, artístico. Esse dinamismo é comunicado a partir de uma linguagem específica, além da linguagem científica, que seria capaz de comunicar uma natureza viva, diferentemente do contexto anterior em que a natureza fria, morta é incapaz de gerar qualquer envolvimento com o homem.

Qual o sentido dessa postura hoje? A professora Leila da Costa Ferreira reconhece que essa é uma visão científica datada. Para ela, a tese é importante do ponto de vista da sociologia do conhecimento ao mostrar que a ciência não começa com o processo de sua institucionalização, mas é anterior a ele.

Especificamente no caso brasileiro, ela afirma que o trabalho mostra que, mesmo antes de 1830, já havia o desenvolvimento de uma ciência da natureza.

Fetz conclui: “Procurei trazer para o debate esse contexto pouco científico ou até anticientífico. Já há duas décadas está ocorrendo a intromissão de elementos não científicos na historiografia da ciência. Nessa chamada transdisciplinaridade existe uma grande dificuldade no estabelecimento de critérios de demarcação entre o que é e o que não é ciência, ou até que ponto ela se move por si só ou ela necessita de outros  campos de atuação humana para se construir”.

Publicação

Tese: “Entre a razão e a fruição: formação e presença da Segunda Revolução Científica no Brasil (XVIII e XIX)”
Autor: Marcelo Fetz
Orientadora: Leila da Costa Ferreira
Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)