Notícia

Comércio da Franca

Por uma agência municipal

Publicado em 04 outubro 2007

Por Agnaldo de Souza Barbosa e Hélio Braga Filho

Desde fins da década de 80 a globalização crescente dos mercados gera transformações sentidas no ambiente macroeconômico sobretudo pela ampliação da taxa de risco e aumento da concorrência.

Neste cenário, os municípios, não perderam sua importância. As cidades, reconhecidas como territórios produtivos capazes de atrair investimentos em razão de sua infra-estrutura, mão-de-obra qualificada e do conhecimento disseminado nos limites de seu espaço geográfico, tornaram-se peças-chave da competitividade global. Em outras palavras, as cidades são lugares onde são geradas vantagens competitivas estratégicas para as empresas, decorrentes da ação de governos locais em parceria com a iniciativa privada e instituições engajadas na promoção do desenvolvimento (entidades de classe, universidades e centros de pesquisa). É assim em Oakland (EUA), em Bangalore (Índia), em Lyon (França), em Milão (Itália), e também em São José dos Campos (SP), São Carlos (SP), Campos (RJ) ou Caxias do Sul (RS), no Brasil.

Em todo o mundo a promoção do desenvolvimento econômico passou a depender muito mais de vantagens comparativas dinâmicas e da construção de consistente governança entre governo e agentes locais que do governo central. Surpreendentemente, em Franca a competitividade da indústria do calçado e de sua cadeia produtiva é encarada como problema que depende de decisões macroeconômicas, da alteração da política cambial, ou seja, não depende de nós, mas de "vontades superiores". Nos países desenvolvidos a competitividade há muito deixou de ser de responsabilidade dos poderes local e regional.

É urgente a necessidade de uma agência local de fomento ao desenvolvimento capaz de gerar a internacionalização das atividades produtivas visando ampliação da base exportadora. O que isso quer dizer? Tornar Franca sinônimo de pólo produtivo de referência internacional e trabalhar para que ele se consolide no exterior, não apenas na nossa retórica provinciana. Com estrutura enxuta e custos reduzidos, somado a parcerias com universidades, essa agência seria responsável pela oferta de serviços de outra forma inalcançável para o padrão empresarial aqui predominante: prospecção de mercados, assessoria à exportação, organização de feiras e eventos para micro e pequenos, relações públicas com embaixadas, consulados e câmaras de comércio.

Não há mais tempo para aguardar soluções vindas "de cima". Franca tem todas as condições para pensar um projeto próprio de desenvolvimento. O que foi construído aqui nos últimos 80 anos é elucidativo do empreendedorismo e criatividade com que os atores locais fizeram de Franca denominação conhecida mundialmente.

Deste modo, cabe ao poder público, como representante legítimo das aspirações coletivas, cumprir seu papel de articulador de um projeto de desenvolvimento e de promotor efetivo de sua execução. Os grandes governos são marcados por esse signo: construir no presente as bases para a sustentabilidade do futuro.


Agnaldo de Souza Barbosa é pesquisador da FAPESP/Programa Jovem Pesquisador e coordenador do NEIC (Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Indústria e Cadeia Produtiva do Calçado). Hélio Braga Filho é professor do Uni-FACEF e pesquisador do IPES/NEIC.