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Por um lugar no pódio nacional

Publicado em 24 outubro 2011

Por SABINE RIGHETTI - ENVIADA ESPECIAL A BRATISLAVA

O governo brasileiro usa listagens internacionais, feitas em outros países, para direcionar algumas de suas políticas de ensino superior. Isso porque não tem ranking nacional de universidades. Mas não é mais assim em países como Vietnã, Bulgária e Cazaquistão. Eles passaram a produzir e publicar seus próprios rankings locais.

Suas universidades nem aparecem em listas mundiais como a do Times Higher Education (THE). Mas não importa. O objetivo de se fazer rankings nacionais é avaliar as instituições pelos critérios que fazem sentido no país. Nessas listagens, os principais indicadores se repetem: impacto da produção científica, número de docentes com doutorado e presença de alunos estrangeiros. Mas os pesos mudam.

"Além disso, há dados específicos, que são relevantes apenas naquele contexto nacional", diz Kazimierz Bilanow, diretor do Observatório de Rankings (Ireg, sigla em inglês), vinculado à Unesco. A entidade promove um tipo de "auditoria" das metodologias usadas em rankings de 19 países -que se reuniram neste mês, na Bratislava, Eslováquia, para discutir formas de trabalho e resultados. Ainda não há nenhum país da América Latina cadastrado no Ireg. "Esses países ainda avaliam suas universidades pelos rankings internacionais", diz Bilanow.

CENÁRIO BRASILEIRO

No Brasil, o governo classifica cursos do ensino superior por meio de uma prova feita pelos universitários, o Enade (Exame Nacional de Desempenho de Estudantes). A pós-graduação é acompanhada pela Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), também ligada ao MEC, que examina e dá notas aos programas a cada três anos.

Mas, segundo o secretário de Ensino Superior do MEC, Luiz Cláudio Costa, listagens internacionais são usadas para direcionar algumas políticas. "As universidades mais bem ranqueadas são as que mais têm contribuído para o desenvolvimento."

Para Elizabeth Balbachevsky, da USP, fazer ranking não é papel do governo. "Mas seria interessante se entidades independentes olhassem para nossas universidades." Os rankings internacionais mais renomados têm metodologias desenhadas para responder ao contexto de países europeus e dos EUA. Na maioria dessas listagens, a quantidade de alunos estrangeiros é supervalorizada. "No Brasil, ter alunos de outros Estados pode ser mais importante do que ter estudantes estrangeiros", diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor-científico da Fapesp.

No ranking nacional da China, por exemplo, um dos indicadores leva em conta os estudantes "não locais". Já a Bulgária considera a opinião dos alunos para avaliar a qualidade de suas instituições. "Se não estiver bem instalado nas moradias estudantis, sua produtividade cai", explica Patricia Georgieva, uma das coordenadoras da listagem búlgara.

Um desafio é a credibilidade dos dados. "Instituições podem mentir", diz Algimantas Sindeikis, coordenador da lista da Lituânia. "Essas classificações não são perfeitas, mas são um caminho sem volta. A única saída é aprimorar as metodologias", afirma Gero Federkeil, vice-presidente do Observatório de Rankings.

Colaborou PATRÍCIA GOMES

Listagens devem incluir impacto social da ciência

DA ENVIADA ESPECIAL A BRATISLAVA

Uma das conclusões dos especialistas do Observatório de Rankings é a necessidade de inclusão de indicadores de "impacto social" nas listagens.
"Nem sempre uma pesquisa de alto impacto também tem importância social", analisa Valeria Thiel, consultora da Elsevier.

A Rússia tem um indicador que chamou de "serviços sociais". "Isso pode ser medido na área de saúde. Mas e nas outras áreas?", diz Evgeny Kniazev, da Universidade Nacional de Pesquisa, de Moscou.

Para Renato Dagnino, especialista em política científica da Unicamp, não está claro "onde acaba a ciência e começa a sociedade". Por isso, é difícil medir tal impacto. (SR)

Fonte: Folha de São Paulo