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Por um diagnóstico mais seguro: Pesquisa avalia se bactéria pode causar doenças a partir da transfusão de sangue infectado

Publicado em 28 agosto 2016

Bartonelas são bactérias de ocorrência mundial e que, embora negligenciadas, podem causar doenças fatais, a exemplo das endocardites. São as únicas que infectam o interior de eritrócitos humanos. A espécie mais associada à infecção humana, a Bartonella henselae, pode estar presente em animais de estimação, particularmente gatos, e já foi isolada do sangue de doadores do Hemocentro da Unicamp em que a infecção se mostrou assintomática.

 

Com o objetivo de avaliar se essa espécie pode causar infecção a partir da transfusão de sangue infectado, a enfermeira Marilene Neves da Silva, doutoranda do programa de Clínica Médica, realizou pesquisas com camundongos, orientada pelo dermatologista e infectologista Paulo Eduardo Neves Ferreira Velho, docente do Departamento de Clínica Médica, na disciplina de dermatologia, da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Do trabalho, que envolveu estágio de alguns meses no laboratório de hematologia da University of Minnesota (EUA) e coorientado pela professora Amanda Roberta de Almeida, resultou o “Estudo translacional sobre a infecção por Bartonella henselae e sua transmissão transfunsional”, que avaliou esse tipo de transmissão e sua infecção aguda e tardia no sangue, baço, fígado e pele dos camundongos.

 

A pesquisa translacional tem como escopo estabelecer uma ponte entre o que ocorre nas bancadas dos laboratórios e pacientes e comunidades, visando oferecer novas possibilidades de prevenção, diagnóstico e tratamento de doenças e a formulação de políticas públicas de saúde condizentes com as necessidades das populações.

 

Ao adotar o modelo translacional, a pesquisadora seguiu duas vertentes. Na primeira avaliou a possibilidade da transmissão de Bartonella henselae por via transfusional, do que resultou publicação no prestigiado periódico Transfusion. Na segunda abordagem ela avaliou a infecção aguda e tardia por essa bactéria no sangue, no baço, no fígado e na pele em modelo animal, trabalho que rendeu novo artigo, já submetido à outra revista. A ideia central era a de verificar se essa bactéria presente de forma assintomática em doadores de sangue poderia causar infecção em receptores.

 

Estudos

No primeiro estudo, apresentado em um dos capítulos da tese, sangue de camundongos previamente infectados foi transfundido para exemplares desses mesmos animais não infectados. O interessante é que, mesmo quando os exames de sangue realizados nos animais previamente infectados, não revelavam a presença das bartonelas, elas foram identificadas em determinados tecidos como baço e fígado dos receptores, embora em quantidades muito pequenas. Confirmou-se assim que a transmissão por transfusão é possível em camundongos, como já havia sido demonstrado anteriormente entre gatos, que constituem o hospedeiro natural dessas bactérias. “Demos um passo além e concluímos que a transmissão por Bartonella henselae por transfusão sanguínea é possível, mesmo quando os camundongos doadores apresentam infecção não identificável no sangue”, diz Marilene.

 

No segundo braço do trabalho, mostrado em outro capítulo da tese, em que a autora se concentrou nas infecções agudas e tardias, as amostras foram avaliadas depois de quatro e 21 dias após a infecção experimental. Na fase aguda não se detectou a bactéria no sangue dos camundongos embora ela se manifeste em determinados tecidos. Mas depois de 21 dias a infecção no sangue, estava presente em todos os animais estudados. Neste caso, a infecção acontece, embora nem sempre a bactéria esteja no sangue ou esteja nele em quantidades não suficientemente altas e no tempo necessário para gerar doenças.

 

Paulo Velho lembra que não há consenso sobre onde a bactéria se “esconde”, nem mesmo se sabe por que sua ação pode ocorrer em períodos recorrentes ou mesmo não se manifestar, revelando-se no caso assintomática por toda a vida do indivíduo. Além da pequena quantidade de bactéria no sangue, a manifestação tardia da infecção na corrente sanguínea pode constituir outro desafio para o diagnóstico precoce.

 

Estes resultados levam os pesquisadores a considerar que novos estudos são necessários em humanos para reavaliar os riscos e o impacto da transmissão destas bactérias por via transfusional. Para o docente, a relevância da bartonela tem sido subestimada até porque seu diagnóstico é muito difícil, pois exige uma cultura que não é de rotina e as técnicas moleculares utilizadas podem dar resultados falsos-negativos, como confirma o trabalho da aluna. Como se trata de uma bactéria negligenciada, muitos médicos não consideram o diagnóstico em casos de endocardite, hepatite, linfonodos aumentados, ou febre de origem desconhecida, por exemplo.

 

Para Paulo, o ideal seria chegar a testes que permitissem um diagnóstico passível de ser aplicado em um banco de sangue e, portanto, barato, acessível e rápido. Na ausência dessa metodologia, não existe segurança sobre a detecção da transferência dessa bactéria para o indivíduo que recebe o sangue, mesmo porque pode ser que ela precise de um parasita para se multiplicar. Ele enfatiza: “Existem questionamentos que precisam ser respondidos. O nosso trabalho alerta para a necessidade de desenvolver diagnósticos seguros, pois ocorrem doenças de causas desconhecidas e que poderiam estar associadas à infecção por bartonela”.

 

Marilene acrescenta que, ao trabalhar com o modelo animal, teve a preocupação centrada em como o estudo pode ser transferido para o humano. “Realizamos um passo muito grande mostrando a contaminação da bactéria por transfusão sanguínea de um animal para o outro de mesma linhagem, constatando que ela permanece em determinados tecidos e não no sangue ou pode estar nele em quantidades tão pequenas que as técnicas vigentes não permitem detectar”. Com efeito, o isolamento desse microrganismo por cultura se torna difícil por requerer um período de incubação prolongado e condições especiais de crescimento.

 

Para a pesquisadora, o modelo animal mostra que a bartonela pode ser transmitida pela transfusão sanguínea; que só depois de 21 dias da infecção experimental ela foi encontrada no sangue; e ainda não é possível ter segurança do seu nicho primário. Mostra também a baixa sensibilidade dos métodos de análise, em face de ocorrência dos falsos negativos. Considera muito importante tornar público e fomentar a curiosidade sobre esse tipo de bactéria tão pouco valorizada, que vive próxima do ser humano em animais de estimação e potencialmente fatal.

 

Paulo Velho considera um privilégio discorrer sobre uma linha de pesquisa a que vem se dedicando há anos e mostrar que se trata de um campo de investigação em que existem muitas perguntas e questionamentos a serem respondidos. “Estamos trabalhando com um organismo vivo no limite do conhecimento, pouco estudado, pouco considerado, mostrando que esses estudos revelam-se mais importantes do que se julgava antes”.

 

Embora o espetro clínico das manifestações associadas às bartonela tenha crescido rapidamente nas duas últimas décadas, os médicos normalmente não consideram a infecção por bartonela como diagnósticos diferenciais, embora elas devessem ser mais conhecidas pelos profissionais de saúde, considera o orientador do trabalho.

 

Antecedentes

Já em 1994, Paulo Velho se deparou com o caso de um paciente com angiomatose bacilar, doença que provoca lesões na pele e decorrente da infecção por bartonela. Foi quando começou a estudar doenças causadas por estas bactérias, que são raras, embora quatro delas fossem bem conhecidas: a angiomatose bacilar, que acomete mais pacientes com Aids; a febre das trincheiras, observada na época de guerras; a doença de Carrión, própria da região dos Andes peruanos; e a mais conhecida, a doença da arranhadura do gato.

 

Ele tentou então reproduzir em um modelo animal o que observara no paciente por ocasião do seu doutorado, pois notara que essas doenças mencionadas tinham alguns elementos em comum. Ao terminá-lo, em 2001, listou dez prioridades de pesquisa. A primeira delas referia-se ao fato das bartonelas serem bactérias que sabidamente se hospedam nas hemácias, que pode ser fatal, e preocupava-se em saber se elas poderiam ser transmitidas de um indivíduo para outro em decorrência de transfusão de sangue. Ele ainda se perguntava se essa bactéria poderia causar infecção assintomática, levando o indivíduo a comportar-se como um doador de sangue com a infecção.

 

Em 2006 teve a ideia de infectar com bartonelas uma bolsa de sangue para verificar se elas resistiam à estocagem, constatando que depois de 35 dias elas se mostravam viáveis. Então, no caso de um doador assintomático, o sangue infectado poderia ser transfundido. Daí surgiu a questão: nessas situações não se estaria transfundindo bactérias que podem não causar danos imediatos à transfusão mas causá-los depois?

 

Em 2009, com recursos originários do Center for Global Health, do Johns Hopkins Hospital, ele pôde dar início a pesquisas com vistas a estas indagações. Foi quando em 500 amostras de sangue encontrou seis das quais foram isoladas as bactérias, o que corresponde a 1,2% das amostras. Utilizando técnica molecular, as amostras positivas elevaram-se para 16, levando a 3,2% das contaminações, valor que considera alto e preocupante para um agente do qual pouco se conhece.

 

O docente enfatiza que, como os testes disponíveis são pouco sensíveis, nos trabalhos convencionais não são identificadas todas as contaminações. Por isso, diz ele, “nosso foco é o de colaborar para melhorar o diagnóstico de bartonelas, chamando a atenção para a importância dessa infecção para a saúde coletiva. A questão da transfusão serve para mostrar que se está correndo risco desconhecido. Aliás, a revista Transfusion, mencionado no editorial o trabalho da Marilene na edição que o publicou, afirma que existe um risco potencial que precisa ser mais bem avaliado para se ter noção mais exata da relevância dos achados do estudo”.

 

Publicação

 

Tese: “Estudo translacional sobre a infecção por Bartonela henselae e sua transmissão transfusional”

Autora: Marilene Neves da Silva

Orientador: Paulo Eduardo Neves Ferreira Velho

Coorientadora: Amanda Roberta de Almeida

Unidade: Faculdade de Ciências Médicas (FCM)

Financiamento: Fapesp e CNPq

 

Texto: Carmo Gallo Netto

Fotos: Antoninho Perri

Edição de Imagens: André Vieira

Jornal Da Unicamp