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Por que uma matéria sobre AAS contra infarto e AVC é a mais lida do Jornal da USP?

Publicado em 01 outubro 2021

Por Ivanir Ferreira

A editora de Ciências do Jornal da USP, Luiza Caires, explica que o veículo tem como política republicar algumas matérias produzidas pela Agência Fapesp que envolvam pesquisas na USP, já que é impossível cobrir só com os repórteres do Jornal tudo que é produzido de ciência na Universidade – e o conteúdo da Agência tem alta qualidade.

“Ao ver o quanto esta matéria era acessada, já me questionei se as pessoas estavam usando as informações que demos para se automedicar, que é algo que não desejamos. Mas penso que não havia muito como apresentar os fatos de outra maneira, essa era a conclusão do estudo”, diz Luiza Caires. E acrescenta: “A matéria não é nossa. Mas se fosse, e fossemos publicar sobre este assunto agora, talvez tivéssemos feito mais recomendações sobre os perigos da automedicação. Acho que o jornalismo de ciências deve sim contribuir na educação sobre o uso adequado de medicamentos. Mas veja bem, não fazemos ‘milagres. Não adianta darmos todos os avisos do mundo se esta questão não for trabalhada em outros âmbitos. Quando você vai a uma farmácia, por exemplo, parece que está num supermercado, e tentam te empurrar vários remédios.”

Luiza Caires, Editora de Ciências do Jornal da USP - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A autora da matéria, Karina Toledo, se diz surpresa com os acessos do texto. Ela afirma que talvez tivesse dado um título diferente à reportagem se fosse refazê-la. Na publicação original da Agência Fapesp, a reportagem foi veiculada com o título Contra infarto e AVC, uma dose de ácido acetilsalicílico a cada três dias.

“Eu acho que a matéria em si está ok, mas talvez hoje eu amenizasse o título, pois há muita desinformação sobre saúde sendo disseminada na internet”, pondera Karina.

Tanto ela como Luiza Caires relatam que passaram a ser mais cuidadosas com reportagens envolvendo saúde, principalmente após perceber por meio das redes sociais e das mensagens enviadas aos respectivos veículos, como tais matérias eram recebidas, e às vezes distorcidas, pelo público. E a pandemia aprofundou o problema.

“No início, a Agência Fapesp era lida principalmente por pessoas do meio acadêmico e jornalistas científicos. Com o tempo, ela cresceu entre outros públicos, e a equipe leva isso em consideração”, conta Karina.

A matéria fez referência a uma pesquisa cujo artigo foi publicado no The Journal of Clinical Pharmacology . Nele, pesquisadores brasileiros mostravam o benefício de um novo esquema terapêutico com AAS, popularmente conhecido por aspirina. “Uma dose diária de AAS é frequentemente utilizada como prevenção de eventos cardiovasculares como infarto e acidente vascular cerebral (AVC) em pacientes de risco. Entretanto, o uso diário dessa medicação pode levar a efeitos colaterais, como irritação e sangramento gástrico”, explica Gilberto De Nucci, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) USP e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e coordenador do projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), ao qual o estudo estava vinculado. O novo esquema terapêutico mostrou que tomar uma dose a cada três dias não só mostrava a mesma eficácia na prevenção como evitava os efeitos colaterais relacionados a problemas gastrointestinais causados pelo uso diário”, relata o artigo.

Revisão de mecanismos de ação do AAS

Como a matéria foi divulgada em 2016, a reportagem do Jornal da USP procurou o professor De Nucci para saber se houve desdobramentos na pesquisa e mudanças na conduta da administração do fármaco. O pesquisador explica que o estudo feito com o AAS não representou avanço científico, foi um “sight line”, uma vez que há mais de 50 anos a literatura médica já conhecia os benefícios do AAS na prevenção de doenças cardiovasculares e também já se sabia dos efeitos colaterais adversos do medicamento.

A pesquisa que apontou esse novo esquema terapêutico foi resultado de um ensaio clínico realizado durante o doutorado do bioquímico farmacêutico Plínio Minghin Freitas Ferreira, orientado pelo professor De Nucci. Vinte e oito voluntários sadios, de ambos os sexos, foram divididos em dois grupos: um, recebeu AAS (81 miligramas) todos os dias, por um período de um mês; e o outro, recebeu o medicamento a cada três dias, sendo que no intervalo foi administrado comprimido de placebo.

Todos os pacientes foram submetidos a diversos exames antes e após a administração da terapia: endoscopia, biopsia gástrica, teste de agregação plaquetária e medição do nível de tromboxano no sangue e, no estômago, o de prostaglandina do tipo 2 (PGE2).

O AAS inibe a ação da enzima cicloxigenase (COX), que por sua vez diminui a produção de tromboxano A2, um tipo de lipídeo indutor de agregação plaquetária e de vasoconstritores, que juntos formam um ambiente propício para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Por outro lado, o AAS também inibe a formação da prostaglandina, um hormônio produzido por células estomacais, que protege o estômago da ação corrosiva do ácido clorídrico.

Professor Gilberto De Nucci, pesquisador do ICB-USP e da Unicamp e orientador da pesquisa - Foto: arquivo pessoal

Os resultados do ensaio clínico mostraram que, em ambos os grupos, a inibição de tromboxano foi superior a 95% e o resultado no teste de agregação plaquetária também foi equivalente. No grupo que tomou AAS todos os dias, houve redução de 50% na síntese de prostaglandina, enquanto que nos voluntários que tomaram o medicamento a cada três dias não foi observada diferença em relação entre as dosagens de prostaglandina pré e pós-tratamento. “Levando-se em conta que a prostaglandina está envolvida na cura gástrica, entendemos que esta nova abordagem poderia ser mais segura e tão eficiente quanto a terapia diária padrão em longo prazo”, relata o pesquisador.

O professor De Nucci fala da importância da divulgação científica do conhecimento produzido dentro das universidades e dos centros de pesquisas para que os resultados cheguem à sociedade, porém, lembra que a divulgação deve ser realizada com responsabilidade como foi feito à época pelo Jornal da USP e pela Agência Fapesp. Em 2016, De Nucci foi procurado por vários veículos de comunicação e não imaginava que a matéria sobre a pesquisa da qual ele foi orientador fosse dar tanta repercussão.

Novo fármaco: AAS e anti-hipertensivo

“O AAS (aspirina) não tem patente, a molécula foi descoberta há mais de um século, e por isso não há interesse dos laboratórios farmacêuticos em desenvolver um produto baseado na administração do AAS duas ou três vezes por semana”, diz o pesquisador. Entretanto, alguns laboratórios cogitam a possibilidade de lançar um novo produto juntando a aspirina com outro fármaco comercial. É o caso da Biolab, laboratório farmacêutico que tinha, à época, parceria com a Universidade. Quando soube da repercussão da matéria no Jornal da USP aventou novamente a possibilidade de lançar um novo produto que associe, na mesma cartela, o AAS e algum ou medicamento para combater a hipertensão.

No primeiro dia, o paciente tomaria os dois fármacos, no segundo e no terceiro apenas o anti-hipertensivo e placebo, explica. Um estudo feito também pelo grupo do professor De Nucci e publicado no Journal of Bioequivalence & Bioavailability, em 2015, já havia mostrado que o AAS não diminuía a biodisponibilidade da losartana, droga indicada no tratamento de pessoas com insuficiência cardíaca, hipertensão e doenças isquêmicas.

O livro que o professor publicou em janeiro deste ano, Tratado de Farmacologia Clínica (editora GEN), recomenda o uso de AAS duas vezes por semana, quintas-feiras e domingo, por uma questão prática e por facilitar o uso do medicamento. No livro, o pesquisador faz uma revisão sobre os mecanismos de ação, as indicações terapêuticas e a real eficácia dos principais fármacos utilizados na prática clínica da atualidade.

Prescrição médica

O médico cardiologista José C. Nicolau, diretor da Unidade de Coronariopatia Aguda do Incor, do Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), explica que os antiplaquetários (o AAS, por exemplo) são prescritos rotineiramente aos pacientes com doenças isquêmicas do coração, ou seja, aquelas que afetam as artérias do coração (as coronárias) com o acúmulo de placas de gordura que são responsáveis por angina do peito e infarto agudo do miocárdio, sendo estas também as formas mais comuns das doenças cardiovasculares.

Para os pacientes com essas doenças, o AAS é prescrito para uso durante toda a vida. Já na prevenção primária, apenas para as pessoas com maior risco de sofrer infarto. Segundo o cardiologista, “em geral, o AAS é receitado junto com outros medicamentos para corrigir fatores de risco como colesterol alto, hipertensão, diabetes, entre outros”, afirma. Nicolau segue recomendações que constam de diversas diretrizes nacionais e internacionais, como as da Sociedade Brasileira de Cardiologia, European Society of Cardiology e American College of Cardiology, diz.

O médico cardiologista Bruno Caramelli, diretor da Unidade de Medicina Interdisciplinar em Cardiologia (Incor) e professor da Faculdade de Medicina USP (FMUSP), prescreve a seus pacientes o uso do AAS apenas para prevenção secundária, ou seja, para aqueles que já possuem a doença. O tratamento seria para evitar a ocorrência de novos eventos. O médico, que é também pesquisador, discorda das indicações sugeridas pela pesquisa realizada em 2016. Segundo ele, não há consenso na literatura médica sobre o assunto. Outros estudos mostraram que o benefício da aspirina é menor neste grupo (primário), que ainda não apresentou eventos de cardiopatias e foi suplantado pelo risco de complicações hemorrágicas do uso crônico do AAS. Em sua opinião, “o tratamento é benéfico somente se houver equilíbrio favorável entre seu risco e seu benefício”.

Bruno Caramelli, médico cardiologista, diretor da Unidade de Medicina Interdisciplinar em Cardiologia (Incor) e professor da Faculdade de Medicina (FM) da USP - Foto: Arquivo pessoal

Caramelli pontua que é preciso saber, em um estudo clínico com pacientes, se o benefício permanece o mesmo com dose menor para prevenção secundária de eventos e complicações.

Mais informações: e-mail denucci@gilbertodenucci.com, com o professor Gilberto De Nucci

 

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