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Por que o Brasil pega fogo todos os anos?

Publicado em 13 outubro 2020

No Brasil, é comum a luta contra incêndios florestais todo ano. Como já são esperados, o governo federal convoca brigadistas temporários no país nos meses com maior estiagem, entre junho e agosto. Em 2020, porém, o desafio está maior do que nunca. Regiões como Pantanal, Amazônia e Cerrado registram recordes de incêndios. Mas por que, afinal, o país pega fogo todo ano?

Ecoa ouviu especialistas para tirar as principais dúvidas sobre as queimadas.

O Brasil realmente está queimando tanto quanto falam?

Sim. Os dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) mostram que todos os biomas brasileiros estão queimando mais nos últimos dois anos. Do Pampa, no Sul, ao mais extremo da região Amazônica ao norte. Os dados são públicos e disponíveis online.

O Pantanal foi a maior vítima do fogo até agora: houve aumento de 208% no número de incêndios em relação ao mesmo período do ano passado. O fogo na Caatinga aumentou em 8%; os incêndios castigaram o Cerrado 58% a mais em 2018, comparado a 2017. O valor elevado manteve-se neste ano.

A Amazônia já queimou 17% a mais em 2020 do que no mesmo período do ano passado, de acordo com os dados do Instituto Nacional de Pesquisas Meteorológicas (Inpe). Em 2019, os incêndios já haviam sido 19% mais frequentes em relação a 2018.

Até mesmo estados do sudeste, como Rio de Janeiro e São Paulo, registraram aumento no índice de incêndios em regiões como o do Vale do Paraíba, onde foram registrados 164% mais incêndios em relação ao mesmo período do ano passado. O estado de São Paulo registrou aumento em 96% de incêndios.

Em todo o país, os incêndios já são 18% maiores do que no mesmo período do ano passado. Em 2019, o aumento já havia sido de 48% em todo o país — mas entre 2017 e 2018, os incêndios haviam caído 33% no Brasil.

Nem mesmo as unidades de conservação e Terras Indígenas (TI) se livraram do fogo. Já são 42 focos de incêndio em áreas de proteção e 16 em TIs.

Ao todo, os incêndios consumiram 121 quilômetros quadrados do Brasil até outubro. É como se cerca de três Espirito Santo tivessem sido incendiados.

Como o fogo é causado?

Por ação humana. Para o pesquisador do núcleo de incêndio do Inpe Alberto Waingort Setzer, os incêndios florestais acontecem, essencialmente, por culpa dos seres humanos. "A natureza, em si, não tem poder de autocombustão", explica.

As causas costumam ser a renovação de pasto para a criação de gado, agricultura ou para expansão ou apropriação de território.

No Pantanal, a Polícia Federal (PF) tem provas de que o incêndio foi causado para criar um trecho de pastagem.

Já em São Paulo, por exemplo, o governo aplica multas contra empresas que queimam a cana-de-açúcar durante a colheita e espalham as chamas. "A técnica de queimar a vegetação é mais do que comprovada que piora a qualidade do solo", explica o pesquisador que também desenvolveu trabalhos juntos à Fapesp.

Há casos acidentais causados por seres humanos, como um cigarro lançado pela janela do carro ou até mesmo uma fagulha acidental causada por uma máquina agrícola, afirma o coordenador do Inpe.

No ano passado, um homem foi preso no Rio de Janeiro após atear fogo em um carro para conseguir o dinheiro do seguro. O vento, porém, fez as chamas causaram dezenas de quilômetros de estrago na Reserva Biológica de Araras, na região serrana fluminense.

Uma fatia rara dos incêndios são por causas naturais, como a queda de raios. Apesar disso, a chuva que vem com o fenômeno ajuda a controlar as chamas. Há relatos ainda mais raros de fogo causado por quedas de meteoritos ou satélites.

Por que, neste ano, as chamas foram maiores?

O índice menor de chuvas é visto como a principal causa da escala dos grandes incêndios nos últimos dois anos em todo o país. Neste ano, a estiagem foi um dos principais motivos para o tamanho da destruição no Pantanal. O período de seca é escolhido para facilitar o "trabalho" dos incêndios.

A temporada de seca na região pantaneira começa por volta de maio e costuma atingir o ápice em outubro, de acordo com a ONG SOS Pantanal. Mas, no início deste ano, a seca fez rios secarem em índices históricos nas últimas décadas.

Ao mesmo tempo, os ventos foram mais intensos na região. Os suspeitos pelos incêndios não se intimidaram e continuaram a "temporada do fogo". Foi a fórmula "perfeita" para o fogo se alastrar em tamanho e em alta velocidade.

O coordenador do Inpe explica que é comum períodos com menos chuvas. "Mas em função das mudanças climáticas, as temperaturas extremas acontecem com mais regularidade", explica.

Mas por que pega fogo todo ano?

Devido à impunidade. Os incêndios florestais são crime. Segundo o Código Penal, podem render até seis anos de prisão e multa. A pena aumenta em um terço caso seja contra a vegetação.

O risco de prisão ou multas, porém, não assusta a quem gera os incêndios. As multas ambientais caíram 34% durante o governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). É o menor patamar em 24 anos.

Em agosto do ano passado, o já marcante "Dia do Fogo" não teve autores presos ou multados. Na ocasião, empresários e produtores rurais do município de Novo Progresso (PA) organizaram um ataque organizado contra a floresta Amazônica. O grupo organizou até uma vaquinha para a compra de combustíveis.

O governo federal, porém, elaborou uma proposta para renegociar a dívida de acusados por queimar o país. Em março, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, também foi criticado pela fala em que dizia aproveitar a pandemia para "passar a boiada".

A fiscalização de incêndios é feita por órgãos como Ibama e ICMbio, do governo federal, em parceria com órgãos estaduais, como as polícias e promotorias.

Salles, porém, demitiu servidores do Ibama que apreenderam maquinário de desmatadores na Amazônia — o que causou um mal-estar entre órgãos ambientais e incentivou a quem planejava queimar a vegetação. Segundo o Ministério Público Federal, a exoneração teria sido uma interferência do presidente Bolsonaro.

Qual a diferença entre incêndio e queimadas?

Em termos técnicos, os incêndios são chamas causadas de forma descontrolada e que avançam sobre a fauna e flora de uma região.

A chamada "queima controlada", ou queimadas, costumam ser associadas ao manejo controlado do fogo. Na agricultura, o fogo pode ser utilizado para combater pragas ou preparar o solo para receber novos tipos de semente.

A queima controlada é feita com autorização do Ibama, por meio órgão Prevfogo, e é feita com especialistas em manejo do fogo e somente em casos onde não haja riscos de incêndios e em áreas determinadas.

As queimadas controladas costumam usar métodos como o "pinga-fogo". A técnica consiste em usar "fogo contra fogo".

Para queimar, as chamas precisam da chamada "biomassa", ou material orgânico para queimar. Antes que elas avancem, brigadistas promovem pequenos focos de incêndio. Assim, quando a chama cessa por não ter o que consumir em uma região já queimada. É preciso analisar os ventos e calcular a trajetória do fogo.

A queima controlada é usada para combater incêndios no mundo todo, inclusive no Pantanal. Apesar disso, brigadistas do ICMBio foram alvos de fake news nas redes sociais.

É possível acabar com os incêndios?

Para o coordenador do Inpe, é preciso estimular a fiscalização e a punição contra os "piromaníacos" no Brasil.

Anualmente, o Ministério do Meio Ambiente abre vagas para formação de brigadistas temporários para atuar nas épocas de seca.

Neste ano, o governo afirma ter contratado 3.326 brigadistas pelo Ibama e ICMBio para atuar no período de secas. "Seria preciso mais do que o dobro de brigadistas por região", diz. Para o pesquisador, outra saída é atrelar a penalização à punição.

"A educação ambiental já é bem-feita em todas as escolas do país. Mas enquanto houver impunidade aos infratores, nem com a campanha mais maravilhosa se resolve a situação", diz.

(Foto: Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters)