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POR QUE INVESTIR NA CIÊNCIA DOS ANIMAIS?

Publicado em 02 dezembro 2020

Por Revista Torta

Você provavelmente já deve ter ouvido falar sobre a importância do equilíbrio climático, a preservação das abelhas ou os riscos da extinção dos corais. A impressão que se pode despertar é a de que a natureza deve se manter intocada pelo ser humano. No entanto, não é sobre manter tudo em uma redoma de vidro.

Mas, como encontrar uma maneira de infiltrar-se, sem danos para o sistema? A resposta é: através da pesquisa científica.

POR QUE APRENDER SOBRE BIODIVERSIDADE?É possível dizer que o mundo submarino contém a maior diversidade evolutiva, sendo seu potencial de pesquisa quase que ilimitado.|| Foto: Pixabay

Em entrevista para a Torta, o pesquisador, Doutor em Ciências Biológicas e Livre Docente na Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), Sérgio Stampar, explica que os organismos presentes na natureza existem como num sistema de engrenagens, onde, se você retira uma peça, tudo consequentemente começa a parar de funcionar.

Stampar elucida que podem haver grupos de seres vivos os quais não sabemos exatamente qual função desempenham na engrenagem, e que possam ser essenciais para a vida na Terra. Nesse sentido, conhecer a biodiversidade é ter consciência da funcionalidade de cada peça e evitar desequilíbrios irreversíveis.

“Só podemos proteger e nos beneficiar da biodiversidade se a estudarmos e a conhecermos”, Célio Haddad, para o Nexo Jornal.

Dentre os diversos benefícios que a natureza proporciona para o ser humano, a criação de medicamentos é uma das mais rentáveis. O Professor e pesquisador coordena um projeto que mapeou toxinas em anêmonas e chama atenção sobre ser mais interessante procurar remédios em animais do que em plantas, por esses seres possuírem sistemas mais parecidos com os nossos.

Pelas substâncias produzidas por animais serem naturais, as chances de elas serem menos tóxicas para nós é bem menor. Sérgio Stampar ainda cita as esponjas como detentoras de grande atenção dos pesquisadores por possuírem uma grande quantidade de bioativos já conhecidos, como o utilizado no combate ao HIV.

Substâncias como Captopril, usada para tratamento de hipertensão, e Exenatida, para diabetes tipo 2, são provenientes de animais.|| Foto: Pixabay

O Brasil possui, por exemplo, a terceira posição mundial na diversidade de répteis, o que expande os horizontes de possibilidades para o achado de novas substâncias com potencial farmacológico. Ao longo das eras terrestres, os animais foram refinando processos para se manter vivos,?—?esponjas, por exemplo, não possuem câncer. O entrevistado ainda acrescenta:

“O interessante é que a gente aprenda como esses mecanismos funcionem para que possamos sintetizá-los e usá-los para nós.”

Primeiro é preciso entender e depois simular, se inspirar para desenvolver processos. “Há animais imortais, se boa parte do mercado de beleza busca a manutenção da juventude, será que utilizando essas técnicas de reciclagem celular, não é possível produzir cosméticos de reciclagem de pele?”.

Para a própria pergunta, o pesquisador diz não saber, mas enfatiza que o importante de se manter a biodiversidade, além de manter a ecologia em exercício, é aprender sobre seus diversos funcionamentos.

A NECESSIDADE DE INVESTIMENTOS

Todo esse mundo de descobertas, ganhos e benefícios, no entanto, tem um custo. Nosso entrevistado compara os gastos que sua equipe teve com a pesquisa em anêmonas-de-tubo, ao preço de um carro, por exemplo.

O objetivo principal do Programa Biota é catalogar a biodiversidade do Brasil visando preservação e sustentabilidade na exploração. Stampar elogia o programa e o caracteriza como importanteimportnte para o país.|| Foto: Pixabay

Por esse motivo, iniciativas como o Programa de Pesquisas em Caracterização, Conservação e Uso Sustentável da Biodiversidade (Programa Biota-FAPESP), que completou 20 anos em 2019, são tão importantes para o fomento da pesquisa brasileira. Só nos últimos 10 anos, o número de citações que envolvem o nome do programa, teve um aumento de 7.230. O que evidencia um crescimento em conhecimento.

Mesmo que tenha tido um início focado no estado de São Paulo, hoje os dados reunidos pela iniciativa mapeiam a biodiversidade do país como um todo, contribuindo para o trabalho de diversos acadêmicos e ajudando a criar um Brasil mais inteligente sobre si mesmo.