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Baguete

Por dentro do P&D da Embraer

Publicado em 05 setembro 2013

Por Leandro Souza

Para a Embraer, empresa símbolo da indústria aeronáutica brasileira, aposta no desenvolvimento de seu setor de pesquisa e desenvolvimento para se manter forte na concorrência mundial do setor. Para isso, em 2012, e companhia investiu US$ 537 milhões, um recorde para a companhia.

Os dados são de Fernando Ranieri, Diretor de Desenvolvimento Tecnológico da companhia, que palestrou nesta quinta-feira, 05, no Seminário Gestão de P&D, em Porto Alegre.

Segundo o executivo, o investimento em inovação é o diferencial que impulsionou a companhia no mercado internacional.

"Desde 2007, gastamos cerca de US$ 400 a US$ 500 milhões em iniciativas internas e parcerias de pesquisa e desenvolvimento, entre investimentos internos, incentivos públicos e parcerias nacionais e internacionais", detalha Ranieri.

As cifras são ainda mais impressionantes se tidas em conta no contexto da economia brasileira, que notoriamente investe muito pouco em pesquisa e desenvolvimento.

De acordo com os números de 2010, os últimos disponíveis e sobre os quais são se devem esperar grandes mudanças, o Brasil destinou 1,2% do PIB para pesquisa e desenvolvimento.

É o dobro da média da América Latina e no Caribe, é verdade, mas bem abaixo das cifras de países como Alemanha, França e Reino Unido, líderes em novas tecnologias que aplicaram 2,8%, 2,3% e 1,8%, respectivamente. A China investiu 1,7%.

A Embraer, faturou R$ 12,2 bilhões no ano passado, então as cifras apresentadas por Ranieri indicam um investimento em P&D de quase 10% do faturamento no período.

A empresa brasileira já domina o segmento de jatos regionais, onde responde por 76% das unidades comercializadas, e já possui mais de US$ 4,9 bilhões em aviões comerciais encomendados por empresas dos Estados Unidos, deixando para trás a rival Bombardier.

Em relatório da canadense RBC Capital Markets, publicado em agosto, a Embraer deverá ter um aumento em sua participação no mercado internacional de aviação civil nos próximos dois anos de aproximadamente 63%, produzindo 1,8 mil aeronaves comerciais e executivas no período.

No setor de P&D, a empresa se divide em duas frentes de prontidão técnica, investindo em inovação de produtos e serviços, assim como otimização de processos e negócios. Segundo Ranieri, cerca de 5 mil funcionários trabalham em pesquisa e implantação de soluções.

"Passamos por diversas linhas de inovação, desde conceitos de novas aeronaves e materiais, eficiência energética, segurança, conforto e gerenciamento do ciclo de vida das aeronaves", revela.

PADRÕES

No setor aeronáutico, conforme explica Fernando Ranieri, novas tecnologias precisam estar dentro de padrões elevados de prontidão - em inglês Technical Readiness Level (TRL) - para chegarem na produção, o que torna mais lento e cuidadoso o trabalho da Embraer.

"Existem nove níveis de TRL, sendo nove o mais alto. Empresas aeronáuticas de alto nível como a nossa precisam estar com projetos em no mínimo um nível seis para poder aplicar novas tecnologias", diz.

Este ritmo mais lento também se reflete no número de patentes da empresa, que ficou em um total de 121 entre 2010 e 2012. Para Ranieri, é um número baixo em relação a outras empresas que registram centenas de tecnologias todos os anos, mas mostra a presença da companhia na frente de inovação no setor.

PARCERIAS

Além dos investimentos próprios, a empresa tem iniciativas de P&D em parcerias com empresas e instituições ao redor do mundo. A companhia, que conta com fábricas no exterior, nos Estados Unidos e na China, tem acordos com empresas em diversos setores, e até mesmo com rivais como a Bombardier.

"As cooperações são em projetos ainda iniciais, para redução de tempo e de custos. Geralmente, em estágios mais avançados do desenvolvimento, cada empresas leva estas pesquisas para dentro de suas operações e os transforma em produto", explica.

No Brasil, a Embraer tem projetos engatilhados com universidades como a USP. Ao lado da universidade paulista e com investimentos da Finep, Fapesp e BNDES, a empresa desenvolve projetos voltados a inovação para conforto de cabine em aviões e materiais de composição de fuselagem.

No Sul somente a Federal de Santa Catarina (UFSC) aparece na lista de universidades que tem iniciativas com a fabricante de aviões. No entanto, Ranieri não deu detalhes sobre o acordo.

INTERNACIONAL

O crescimento da Embraer no cenário internacional parece ter começado a dar os primeiros sinais de estar em descompasso com mercado local, em termos tecnológicos, de qualificação profissional e competitividade da economia como um todo.

A cadeia de fornecedores no país não acompanhou a evolução da Embraer: a empresa tem 17 mil empregados e a cadeia de fornecedores nacionais tem cerca de 5 mil.

Segundo dados comparativos levantados pela Fapesp, a maior fabricante do mundo, a Boeing, tem mais de 170 mil empregados e a cadeia aeroespacial norte-americana, mais de 620 mil pessoas.

Uma notícia que reforça esta constatação é a de que a Embraer está fabricando peças em Portugal e exportando para o Brasil. Conforme a Folha, nas duas fábricas que a empresa tem em Évora estão sendo montados componentes para a cauda e as asas dos jatos Legacy 500.

De acordo com especialistas, a decisão tem em parte a ver com a lógica de construir uma cadeia de fornecimento global e com o fato da economia europeia estar desaquecida, resultado em capacidade ociosa.

A reportagem do Baguete tentou uma entrevista com Ranieri para saber mais sobre este assunto, mas parou da fita vermelha da Embraer. Segundo a assessoria da fabricante, executivos da empresa precisam de autorização "de cima" para conversar com a imprensa.