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Mercado Ético

Pontes entre os saberes

Publicado em 04 maio 2012

Depois de sustentabilidade, outra palavra grande, com um significado abrangente, está tomando conta do vocabulário da academia: interdisciplinaridade. Seu significado, na prática, é algo tão desafiador quanto a primeira palavra citada. Tive o privilégio de ter assistido a aula magna do professor Arlindo Phillipi Júnior, doutor em Saúde Pública e Livre Docência em Política e Gestão Ambiental pela Universidade de São Paulo (USP). Ele é professor titular dessa universidade, pesquisador da FAPESP e CNPq e abordou o tema “Pós-graduação e a formação interdisciplinar em ambiente e desenvolvimento” nesta quinta-feira (3), no auditório da Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). A promoção foi do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural do Instituto de Estudos e Pesquisas Econômicas da UFRGS, onde estou cursando a disciplina Agricultura e Meio Ambiente como aluna especial.

Esse assunto tem tudo a ver com mudança de paradigma, com “o fim da era das certezas”. Representa o ir além das editorias, ultrapassar os limites da cultura cartesiana, de produção de conhecimento em institutos, faculdades, organismos, sem levar em consideração saberes de outras áreas. Significa o avanço das conexões, a construção de pontes, uma condição fundamental para se buscar a sustentabilidade, o entendimento e a compreensão entre os saberes.

Phillipi, que exerce atualmente a função de pró-reitor adjunto de Pós-Graduação da USP, coordenador pro tempore da nova área de Ciências Amibentais da CAPES e membro do Conselho Superior da CAPES, explicou para uma atenta plateia de pós-graduandos que a problematização de um objeto de estudo nos remete a levantar aspectos jamais imaginados. A articulação entre disciplinas é fundamental para a compreensão de vários lados de uma questão. Dessa forma, explica o professor, “na hora da certeza”, surge sempre uma nova pergunta, o que muitas vezes resulta em inovações. Esse processo exige conhecimentos distintos. A interdisciplinaridade é algo vital para tentar interpretar, reconhecer as crises, como a econômica e a ambiental, por exemplo, pois atingem várias áreas.

Ele explicou a diferença entre a multidisciplinaridade e a interdisciplinaridade. A primeira é “o estudo que agrega diferentes áreas do conhecimento em torno de um ou mais temas, no qual cada área ainda preserva sua metodologia e independência”. Não é obrigatória a cooperação ente os distintos saberes, mas precisa de uma coordenação. Como exemplo, ele citou a fabricação de um marca-passo.

Já a interdisciplinaridade “é a convergência de duas ou mais áreas do conhecimento não pertencentes à mesma classe, que contribua para o avanço das fronteiras da ciência e tecnologia, transfira método de uma área para outra, gerando novos conhecimentos ou disciplinas, como a biotecnologia e nanotecnologia”.

Para o Phillipi o novo profissional precisa ter além de uma formação sólida e integradora, uma capacidade de saber assimilar a importância da cooperação e da coordenação entre as disciplinas. “Entende que sua área não dá conta de entender o problema”, acrescenta.

Viver e praticar tudo isso exige muita conversa, articulação. O trabalho multidisciplinar até dá para trabalhar com cada macaco no seu galho. Mas o interdisciplinar requer muitas reuniões e cada um precisa procurar entender as metodologias, a forma de pensamento das outras áreas. E mais, ser humilde e ouvir o que a comunidade tem para acrescentar. O professor lembrou que já viveu situações onde quem deu a solução de um problema, pesquisado arduamente pela academia, foi um membro da comunidade, que expôs de uma forma simples e prática o caminho para o resultado esperado.

A interdisciplinaridade é uma necessidade das ciências modernas, diz Phillipi. E mais, as perspectivas apontam para a ampliação da cooperação técnico científica, para a consolidação de base de dados, o compartilhamento de informações e uma maior cooperação entre os setores da sociedade, do serviço público com a universidade. Adianta que a USP está criando 23 novos programas interdisciplinares.

Só que isso exige um novo comportamento: a comunidade acadêmica deve adquirir uma atitude interdisciplinar. Phillipi ressalta a importância de se ter uma maior interação e retorno à sociedade. Para exemplificar ele toca em um aspecto bem humano e comum em esferas de egos inflados. “Os dados não são de um determinado professor”, argumenta, salientando que as informações são públicas, devem ser acessados por quem precisa.

Essa atitude deve ser estabelecida em função de práticas de pesquisa e de inovações tecnológicas e dos novos tipos de relações com os objetos de pesquisa. E é mais do que necessário abrir a cabeça, “instrumentalizar” esses novos olhares. O ideal é ler textos de diferentes naturezas, participar de grupos de estudo e pesquisa e ir a eventos científicos de áreas distintas.

Confesso que fiquei mais curiosa ainda com a outra fase, no meu entender, acima desse patamar, que já é ultra desafiador. A vivência da transdisciplinaridade, mais uma busca de soluções que uma área só não consegue resolver. Implica englobar a interdisciplinaridade e as relações, os sentimentos das pessoas, conforme citou o professor. Mas isso deve ser objeto de outra aula que espero um dia poder participar. Pois a assimilação do conhecimento está intimamente relacionada com a emoção, com o bater do coração, com o significado do que cada aprendizado representa para cada um de nós.

(Silvia Marcuzzo/Mercado Ético)