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Jornal da USP online

Polo de saúde no interior, USP em Ribeirão Preto transforma desafios da pandemia em conhecimento

Publicado em 29 janeiro 2021

Por Rose Talamone

Os desafios impostos pela chegada da pandemia criaram um cenário contraditório. Como organizar a assistência de um polo de saúde referência para milhões de pessoas? Como adaptar a vida acadêmica de centenas de estudantes com o menor dano possível? E como extrair desta experiência, ao mesmo tempo, um formidável legado científico, das lições deste momento único na história recente da medicina?

Em Ribeirão Preto, a Faculdade de Medicina da USP (FMRP) e seu Hospital das Clínicas (HCFMRP) enfrentaram esse desafio e de forma particular, não havia tempo para adaptação, todas as ações, mesmo as menores, se configuravam emergência. Nas palavras do superintendente do HCFMRP, professor Benedito Carlos Maciel, uma situação de proporções inimagináveis. 

Para o atendimento de pacientes, o HCFMRP traçou um plano de contingência que envolveu mais de 40 profissionais, além de transformar suas unidades em um campo propício para o estudo da nova doença, resultado da consciência de profissionais capazes de transformar a realidade a partir do conhecimento. 

Esse conhecimento também foi impulsionado pelo uso das novas ferramentas tecnológicas, com um ambiente virtual capaz de orientar, trocar experiências e criar caminhos para a readequação das profissões da área da saúde. Para tudo isso, até um pacto foi criado na FMRP para o funcionamento da imensa engrenagem que existe entre a FMRP e o HCFMRP, que culminou com a formação de alunos do curso de Medicina com um aprendizado a mais, estar na linha de frente de um dos momentos mais dramáticos enfrentados pela humanidade. Nas linhas abaixo você poderá conhecer um pouco do que gestores, professores, alunos e funcionários da FMRP e do Hospital das Clínicas fizeram para enfrentar esse momento único da nossa história recente. 

O desafio da adaptação: emergência regional

Ribeirão Preto faz parte da Direção Regional de Saúde 13, que abrange outras 25 cidades e engloba mais de 4 milhões de habitantes. Na situação de pandemia, foi natural que a Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo tornasse o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP, de assistência terciária na hierarquia do SUS, a referência regional para atendimento de pacientes graves de covid-19. Três de cada dez pacientes acolhidos durante a pandemia provinham de cidades vizinhas. 

Para esse atendimento foi necessária uma redução do fluxo diário de 3 mil pessoas, para evitar a aglomeração de pacientes e acompanhantes nos ambulatórios, e ainda manter a prioridade de atendimento aos pacientes mais graves e de maior risco. Na Unidade do campus e na Unidade de Emergência foram estabelecidas áreas de fluxo independente para pacientes com diagnóstico positivo para covid-19, em todos os setores do hospital.

Esse plano de contingência para o enfrentamento da pandemia começou a ser delineado no início do mês de março, com a criação de um gabinete de crise, que se reuniu diariamente nos primeiros seis meses, incluídos sábados, domingos e feriados. 

Encontros com mais de 40 membros do Hospital das Clínicas, incluídos os da Unidade de Emergência e dos hospitais estaduais vinculados à sua fundação, a Fundação de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Assistência (Faepa). Hospitais estaduais de Ribeirão Preto, de Serrana, Américo Brasiliense e o Centro de Referência à Saúde da Mulher – Mater,  discutiam a melhora e organização do fluxo de pacientes entre os hospitais, a ocupação de leitos e protocolos de atendimento.

Organizar um hospital das proporções e importância do HCFMRP, inclusive a Unidade de Emergência, significou um desafio particular, especialmente porque a circunstância de pandemia não permitia um tempo de adaptação, e todas as ações, mesmo as menores, se configuravam emergência. Estabelecer agilidade na testagem de pacientes e funcionários, o deslocamento de médicos residentes e profissionais para as demandas, a implantação de programa de teleorientação para pacientes agendados nos ambulatórios para caracterizar a gravidade e procedimentos, toda uma imensa malha humana de profissionais voltados para o atendimento de mais de 600 pacientes por dia.

Na prática, todas as ações teriam que ser levadas a cabo por uma equipe reduzida ou em teletrabalho por conta do afastamento de funcionários e professores considerados grupos de risco para a doença. Em parceria com a Empresa Bild, foram disponibilizadas aos profissionais da linha de frente acomodações gratuitas em uma rede hoteleira para quem desejasse.

“É uma situação absolutamente inusitada, de proporções inimagináveis e que certamente representa, para qualquer instituição de saúde envolvida no atendimento desses pacientes, o maior desafio de sua história”, destacou o superintendente do Hospital das Clínicas, professor Benedito Carlos Maciel. 

“Deve-se destacar o papel essencial da Coordenação do Departamento de Atenção à Saúde do HCFMRP para a adequada implementação do plano de contingência e o gabinete de crise, com o apoio inestimável de profissionais administrativos, médicos assistentes, docentes e outros profissionais de saúde na gestão desses processos. É fundamental destacar e agradecer, enfaticamente, o papel dos profissionais de saúde que compõem a equipe do hospital e estão na linha de frente desse atendimento, trabalhando com dedicação, engajamento e coragem para proporcionar a esses pacientes um cuidado de elevada qualidade”, explica Maciel.

Como referência assistencial, o HCFMRP precisou ajustar seus ponteiros com as secretarias de saúde estadual e municipal, diante especialmente de uma grande cidade que resistia ao isolamento social e que obrigou a decisões de ajuste de novos leitos e organização da retaguarda constantemente. Ribeirão Preto tardou a migrar de fases no Plano SP e, afinal, apresentou um dos mais altos índices de contaminação por 100 mil habitantes no Estado.

A logística gigantesca colocada à disposição com agilidade pelo HCFMRP e os postos de atendimento possibilitou que paralelamente seus membros focassem naquele que é seu maior patrimônio acadêmico – a pesquisa científica. Diante de uma pandemia desafiadora, tanto na identificação dos contaminados quanto no tratamento e no uso de novas drogas, professores e alunos, ao mesmo tempo que assistiam aos doentes, buscaram tirar desta oportunidade conhecimentos que pudessem atenuar situações semelhantes no futuro, mas principalmente que mitigassem os efeitos devastadores do presente. 

Esse conhecimento foi canalizado para a investigação científica, vocação histórica na FMRP e no HCFMRP, hoje entre os mais importantes centros de pesquisas na área médica no País. A diversidade de seu corpo docente se reflete no alcance dos estudos propostos. Até o meio do ano, a Fapesp já havia aprovado 42 projetos relacionados à pandemia, sendo 22 apresentados pela USP (oito deles pela FMRP). Assim, os projetos da FMRP representaram quase 20% do total de aprovações e 36% dos projetos nascidos na USP. E estes números não são finais porque mais projetos aguardam aprovação.

De hospital referência a um imenso laboratório de pesquisas sobre a nova doença

Cumprir seu papel de referência regional e receber os pacientes de dezenas de cidades do entorno não impediram que o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP assumisse e estimulasse estudos para o avanço das técnicas de assistência e de conhecimento sobre a nova doença. Nos primeiros meses, três dezenas de investigações clínicas, epidemiológicas e fisiopatológicas foram desenvolvidas no HCFMRP, um investimento superior a 8 milhões de reais aprovado pela Fapesp, Finep, CNPq e Capes.

Parte dos resultados já foi publicada, como o artigo  Demonstração in vivo de trombose microvascular em Covid-19 grave no Journal of Thrombosis and Thrombolysis, sobre o estudo inédito que documentou em pacientes vivos a trombose de pequenos vasos da mucosa sublingual nos primeiros dias de internação, que contribui para o agravamento do caso clínico e a piora das trocas gasosas, comprometendo outros órgãos além do pulmão. Como consequência do estudo, os pesquisadores passaram a testar a utilização de um anticoagulante (heparina) para o tratamento destes pacientes, estudo em parceria com a Organização Mundial da Saúde. 

As pesquisas desenvolvidas em Ribeirão Preto abrangem numerosos aspectos da doença, sua manifestação e possibilidades de tratamento, com drogas já conhecidas ou com novos medicamentos. Por exemplo, um dos estudos mostrou que a colchicina, usada há décadas no tratamento da gota, contribui para o combate da infecção pulmonar e a redução do tempo de internação.

Os pesquisadores participam também do consórcio paulista (USP, Unicamp, HIAE e Sírio-Libanês) que estuda o uso de plasma convalescente de pacientes curados em pacientes graves de covid-19. Em outro campo, analisaram o risco de pessoas do grupo sanguíneo A de desenvolver a forma mais grave da doença (segundo investigação no HCFMRP, eles têm 3,5 vezes mais necessidade de cuidados intensivos do que pacientes do grupo O).

Avaliam ainda a possibilidade de reinfecção pelo vírus e se empenharam no rastreamento de casos de covid-19 em asilos, com o uso de testes sorológicos RT-PCR nas cidades de Ribeirão Preto e Serrana. Em outra frente, diversos estudos fisiopatológicos foram elaborados a partir de necropsias e reforçaram a importância das comorbidades nos óbitos (principalmente obesidade, hipertensão arterial sistêmica e diabete). Novas análises ainda estão em andamento, inclusive sobre o impacto da doença no sistema nervoso central.

Em outro estudo, pesquisadores utilizaram amostras de 124 doentes com casos graves e moderados de covid-19 e concluíram que o grau de ativação dos inflamassomas está associado ao desfecho clínico dos pacientes, identificando, assim, mais um mecanismo envolvido na forma mais grave da doença e abrindo caminhos para novas possibilidades de tratamentos, pois já existem drogas eficazes que inibem os inflamassomas. 

Participantes da rede de laboratórios credenciados a realizar os exames da covid-19, o HCFMRP e o Hemocentro de Ribeirão Preto chegaram a 1 mil testes diários de detecção da doença. Esse consórcio de laboratórios integra a Rede USP de Diagnóstico da Covid-19 (Rudic), que reúne cinco centros da USP com infraestrutura e expertise para realização de testes de diagnóstico molecular para a detecção da covid-19 no Estado de São Paulo.

O HCFMRP também participa dos estudos clínicos de vacinas contra o novo coronavírus, como a CoronaVac, desenvolvida pela empresa Sinovac Research & Development Co. Ltd., em parceria com o Instituto Butantan e, ainda, a vacina Jansen-Cilag,  produzida pela divisão farmacêutica da Johnson-Johnson. 

Ainda há um imenso leque de estudos que foram motivados pela pandemia e que continuam em curso, envolvendo centenas de professores, profissionais e alunos da FMRP e do HCFMRP, cientes do seu papel na assistência à comunidade e de transformadores da realidade a partir do conhecimento que foram capazes de alcançar, mesmo em um cenário de pânico e incertezas.

O ambiente virtual para salvar pacientes graves

Uma situação nova enfrentada por todos foi a necessidade de tomada de decisões com pacientes em situação crítica, quando pouco se sabia a respeito da doença.  No ambiente virtual, diferentes iniciativas foram tomadas para a orientação de profissionais nos hospitais, principalmente no manejo de casos mais graves. A experiência em campo levou a questionamentos por médicos de todo o mundo e culminaram, ao longo do tempo, na descoberta de numerosos danos causados pelo vírus ao organismo e no consequente aumento de sobrevida quando novos procedimentos foram adotados.

No HCFMRP foi criada uma plataforma de telemedicina para estudo e acompanhamento de pacientes com AVC, já validada, adaptada e rebatizada como Join Covid, de formulários específicos, com o apoio de uma empresa japonesa. Para Valdes Roberto Bollela, professor da FMRP e infectologista do HCFMRP, os profissionais estavam aprendendo na prática e o compartilhamento das diferentes experiências vividas foi essencial para o trabalho de todos. Leia mais sobre a iniciativa aqui

Com a mesma ideia em mente, a professora Maria Auxiliadora Martins, da Divisão de Medicina Intensiva Adulta do HCFMRP, mobilizou dezenas de colegas para criar aulas virtuais sobre cada um dos procedimentos adotados com pacientes internados no Centro de Terapia Intensiva (CTI). Sua intenção era tornar públicas as informações mais relevantes sobre as complicações específicas. Em cada aula do Desafios na Pandemia, publicadas no Youtube, ela apresentava situações específicas e discutia com especialistas da área os procedimentos já consagrados e as novas informações de manejo descobertas no mundo, com interações abertas aos alunos e participantes.

As aulas temáticas visavam capacitar profissionais de saúde de qualquer lugar do País, em diferentes situações de gravidade e debater sobre as incertezas que surgiam no prognóstico e nos tratamentos. Para a professora, os protocolos foram se estabelecendo ao longo do tempo e se tornou urgente tornar pública cada nova informação que surgia. Foram mais de 20 horas de gravação, e a cada aula, além da professora Auxiliadora, participaram em média cinco especialistas no assunto tratado. Um retrato definitivo dos esforços nas CTIs para salvar pacientes graves vítimas da pandemia.

A professora Margaret de Castro, que foi diretora da FMRP até julho de 2020, destaca o trabalho dos pesquisadores da faculdade, tanto das áreas básicas como das clínicas, que organizados em grupos multidisciplinares e translacionais responderam rapidamente às necessidades para um melhor entendimento da covid-19. 

Para a professora, todas as profissões da saúde passarão no futuro por readequações, levando em consideração os recursos tecnológicos de comunicação e informação. Novos protocolos clínicos devem surgir, segundo Margaret, e agregar valor na assistência médica individual e populacional, com uso mais efetivo da telemedicina, por exemplo, que deve compor à prática médica tradicional, sem abandonar os preceitos médicos éticos. 

“A pandemia trouxe valorização para os profissionais da saúde, apesar das dificuldades e do negacionismo, a sociedade de forma geral reconhece a competência dos profissionais para vencer a crise e a ciência encontrou seu espaço. Já a FMRP sai fortalecida para continuar a sua contribuição para o ensino, a pesquisa e o atendimento à população” , destaca Margaret.

Saúde coletiva em pauta

Na FMRP, assim como na pandemia, que exigiu esforços coletivos e imediatos em todo o planeta, a história continua sendo escrita, com a satisfação de poder aliar o conhecimento médico e a solidariedade humana a serviço da sociedade.  As ações do Departamento de Medicina Social da FMRP dão apenas uma pequena ideia do quanto uma faculdade pública pode colaborar nas ações em uma situação extrema de crise sanitária, como a enfrentada desde o início da pandemia. 

Uma emergência de saúde pública forma o cenário perfeito para a prática de um departamento que se define como dedicado “ao entendimento dos determinantes sociais da saúde e ao desenvolvimento de políticas e práticas para modificação e atenuação destes determinantes”. Com a saúde coletiva em pauta, professores e alunos foram a campo.

À frente ou junto a outros parceiros da FMRP, o Departamento de Medicina Social estendeu sua presença em todos os níveis de assistência possíveis. Manteve suas visitas domiciliares do Programa Saúde da Família, na identificação e encaminhamento de novos casos da doença entre a população mais vulnerável. Residentes participaram da escala de plantão na unidade municipal, o Polo Covid, com intenso movimento de moradores com suspeitas da doença, e ainda atuaram, junto a residentes de outros departamentos e profissionais da Secretaria de Saúde, no plantão telefônico de dúvidas para a população no Disque-Covid.

Nos primeiros meses, em todo o mundo ficou claro que as dúvidas não se concentravam apenas na população e, assim, o Departamento de Medicina Social decidiu estabelecer em suas próprias dependências o Tele-Covid, criado para orientação de médicos da Direção Regional, da qual fazem parte a FMRP e o HCFMRP. Contribuíram, ainda, intensamente em atividades de vigilância epidemiológica hospitalar, na notificação de casos, no controle de surtos hospitalares, na solicitação de exames e discussão de casos no complexo do HCFMRP.

Envolvidos no enfrentamento ativo da pandemia e na assistência a pacientes, o Departamento de Medicina Social também elaborou projetos de pesquisas científicas e epidemiológicas voltados ao desenvolvimento de novos tratamentos, na avaliação de sequelas de longo prazo em sobreviventes, nos efeitos do distanciamento social, nos serviços de saúde e ainda estudos de prevalência soroepidemiológica. E tem novos projetos que aguardam avaliação.

Não se restringiram à logística local. Ofereceram todos os dados e conhecimento técnico que poderiam dispor a diferentes agentes, a órgãos federais e internacionais. Fez parte, por exemplo, do Grupo Técnico da Diretriz Global de Manejo Clínico de Covid-19, da Organização Mundial da Saúde. Seus professores também deram centenas de entrevistas à imprensa local, praticamente diárias, desde o início da pandemia. Em todo o momento, o departamento esteve envolvido não só na produção de conhecimento e compartilhamento de informações, mas também em ações diretas de apoio à comunidade, na produção de equipamentos de proteção individual, os EPIs, na distribuição de toneladas de alimentos para famílias das comunidades em que atua e ainda na produção de vídeo motivacional para as equipes de saúde durante as fases mais difíceis em Ribeirão Preto. 

Talvez a história deste departamento seja apenas uma amostra dos inúmeros esforços de todos os departamentos e dos profissionais, tanto da FMRP quanto do HCFMRP e dos polos de atendimento à população na pandemia de covid-19. Um retrato de um momento em que a universidade pública pôde exercer plenamente seu papel essencial dentro da sociedade como um todo.

Pacto para o ensino, a pesquisa e a extensão

Para atenuar o pânico inicial dos inúmeros personagens diretamente afetados pela pandemia, foi preciso reinventar o cotidiano e suas relações mais próximas. Como em todo o mundo, ninguém sabia o que fazer a princípio e os diálogos tiveram que ser canalizados de alguma forma. Na FMRP, as ações foram pensadas para que a imensa engrenagem funcionasse em harmonia e se conseguisse tirar frutos da experiência, não só os científicos, mas do relacionamento entre todos e deles com a comunidade.

A complexidade em azeitar a logística criada impôs a gestação de um acordo – Pacto por um Semestre Melhor, liderado pela diretoria da faculdade. As discussões que o antecederam mostraram que havia dificuldade em reconhecer dúvidas, limites e fraquezas e que era necessário criar um contraponto, canais abertos para o apoio institucional e o apoio principalmente humano.

Comissões, centros acadêmicos e diferentes instâncias se comprometeram a respeitar os diferentes espaços de diálogo e colaborar para que o enfrentamento da crise que se instalou em todos os níveis fosse transposto coletivamente. O comunicado invocou não um desafio limitado no tempo, já que seus efeitos e extensão ainda se desconhece.

“Com o aprendizado dos últimos meses, já sabíamos que era preciso promover uma maior e melhor integração entre as diferentes comissões, centros e setores acadêmicos e Administrativos para que a comunidade tivesse acesso fácil e direto a todo recurso e apoio para atuar neste novo cenário. Nossa unidade é rica em recursos humanos, seus estudantes, equipes de apoio administrativo e docentes. Este é o nosso maior patrimônio e é com ele que contamos para esta travessia. Não sabíamos ao certo o que nos esperava na outra margem e, ainda não sabemos, mas temos certeza que, se permanecermos juntos e nos apoiarmos, chegaremos todos ao ‘novo normal’ melhores do que éramos no momento da partida”, afirma a professora Maria Paula Panúncio-Pinto, presidente da Comissão de Cultura e Extensão da FMRP.

A aflição e a insegurança de descobrir-se na linha de frente de uma doença grave e com poucas informações sobre o tratamento haviam criado situações de tensão que precisavam ser atenuadas racionalmente e de forma urgente. Segundo a professora Maria Paula, houve relatos de uma insegurança geral, partidos de professores e de alunos, com questionamentos sobre um desequilíbrio nas relações entre todos. 

 “Estas impressões foram filtradas pelos centros que atuam de forma integrada no cuidado com o ensino, com os estudantes e professores e nas relações na comunidade, e entendemos a necessidade de reforçar a importância da união, do diálogo, da cooperação, para podermos enfrentar a situação. E foi importante a instituição se mostrar atenta a essas necessidades”, explica Maria Paula.

O pacto já havia sido utilizado em ações da Comissão de Direitos Humanos, e com o surgimento das novas necessidades e a complexidade enfrentada pela FMRP, pelo Hospital das Clínicas da FMRP e Centros de Atendimento, como os Núcleos de Saúde da Família, a sua reedição foi sugerida pelo psicólogo Rodrigo Flauzino. Além de reconhecer a interdependência de todos, a ideia também foi construir melhores relações e obter o comprometimento com a qualidade do que é feito e oferecido, como acontece com os desafios enfrentados de forma coletiva: oferecer e pedir ajuda, dialogar, ouvir, reconhecer limites e possibilidades.

“Creio que as metas do pacto são metas de longo prazo. Uma construção, mesmo, todos os dias. Que as pessoas se sintam mais seguras e assim consigam manter as atividades de ensino, pesquisa, extensão e gestão com a qualidade que todos desejamos e necessitamos, mas entendendo que podem e devem buscar ajuda para isso, sempre que necessário. E que encontrarão esse apoio nos colegas e na instituição”, diz Maria Paula.

Ficou clara a necessidade de amparo emocional. “Além dos desafios tecnológicos, os depoimentos indicaram que havia necessidade urgente de diálogo”, conta o professor Valdes Bollela, coordenador do Centro de Desenvolvimento Docente, o CDDE.  “Esperamos mudar para melhor a cultura de trabalho e cooperação na nossa unidade. Não só durante a pandemia, mas de maneira duradoura.

Gostaríamos que as pessoas entendessem a diferença entre ser o melhor do mundo e ser o melhor para o mundo.”

Não só no ensino e na linha de frente da assistência aos pacientes a FMRP, por meio do HC,  se fez presente. Preocupados com as consequências do isolamento social na periferia, os alunos dos cursos de Medicina, membros do Centro Acadêmico Rocha Lima, e de Nutrição arrecadaram fundos para a compra de alimentos e máscaras para serem distribuídos para a comunidade mais afetada. Doaram mais de 7 toneladas de mantimentos para o Projeto Cozinha Solidária, que forneceu 3 mil refeições diárias para os trabalhadores informais e desempregados da periferia de Ribeirão Preto, além de distribuírem máscaras para esta população, entregues durante ações locais de orientação sobre a pandemia.

Formação médica com aprendizado adicional

Para grande parte das unidades da USP, a transição para os limites ditados pela pandemia talvez tenha sido, de certa forma, menos traumática, já que desde o início da pandemia 95% das disciplinas aconteceram de forma remota. Para uma faculdade de medicina, que além da graduação em Medicina tem outros seis cursos voltados à área da saúde – Terapia Ocupacional, Nutrição e Metabolismo, Fonoaudiologia, Ciências Biomédicas, Fisioterapia e Informática Biomédica -, no entanto, esta equação não se resumiria à tecnologia. Era preciso organizar a questão didática, mas também orientar e proteger aqueles que obrigatoriamente seriam levados para a linha de frente da pandemia. Eles se tornariam os mais importantes agentes na grande rede de assistência médica da qual fazem parte, alunos, professores e funcionários, no mais importante polo de saúde da região nordeste do Estado. 

Para os alunos, um terço das aulas implicam necessariamente em atividades práticas na assistência à comunidade, em diversos níveis. Essa realidade se transformou em aprendizado. No País, segundo o presidente da Comissão de Graduação, professor Miguel Angelo Hyppolito, a FMRP é uma das três faculdades de medicina que não suspenderam as aulas do internato – os dois últimos anos da graduação, que têm 100%  de aulas práticas, com atendimento aos pacientes e supervisão de um médico/professor. 

“Esses alunos tiveram um ganho adicional na formação, pois estiveram à frente no enfrentamento da covid-19.” Para os alunos dos primeiros anos de Medicina e dos demais cursos, mesmo com a nova expertise do corpo docente, em desenvolver ferramentas para atividades práticas virtuais, será necessário um tempo maior para a formação. “Na área da saúde é necessário a prática profissional e o contato com o paciente”, avalia o professor Hyppolito. 

Para essa reorganização didática e a continuação das pesquisas, a paralisação das atividades ou o trabalho em casa não puderam ser estendidos a todos os funcionários da faculdade, e, ainda, porque a assistência não poderia ser interrompida. Quarenta por cento deles mantiveram o trabalho presencial, em escala de revezamento ou jornada diferenciada.

“Em virtude da dimensão da FMRP, o fechamento de nossas portas se tornou algo impraticável, por contarmos com áreas, desde a administração central até a assistência à saúde, envolvidas nos serviços prestados à comunidade”, explica Mariana Martinez Pires, assistente técnica administrativa da FMRP. 

Para o professor Rui Alberto Ferriani, diretor da FMRP, “nos vimos diante de uma situação inédita, e as reações ocorreram num crescente, inicialmente no sentido de cuidados à saúde de todos os alunos e funcionários, mas ao mesmo tempo sem perder a perspectiva de nossa enorme responsabilidade junto à sociedade, seja em prestar apoio e assistência, seja em desenvolver pesquisas inéditas, mas também em ter um olhar crítico e científico sobre a situação”. 

O diretor ressalta a importância das bases científicas para entender o processo inusitado do momento, e com tantos vieses ideológicos e políticos. “A sociedade precisa ter uma referência nesses momentos, e penso que a FMRP se posicionou muito bem diante da gravidade da situação. Atualmente enxergamos que as oportunidades abertas com a crise foram muitas, e mudanças permanentes serão implementadas, a fim de que o futuro seja melhor que o passado e que o aprendizado nos traga muitos benefícios”, finaliza.

Colaboração: Patrícia Cainelli e Regina Prado