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Polo da cana, Piracicaba está virando o 'Vale do agronegócio'

Publicado em 17 julho 2019

Por Paulo Beraldo

Quando um viajante se aproxima de Piracicaba pela rodovia SP-308, é fácil entender a fama da cidade: as plantações de cana a perder de vista e o nome da estrada, Rodovia do Açúcar, explicam porque a região é um dos polos sucroalcooleiros do País. Quem se dedicar a olhar mais atentamente para a cidade vai encontrar, em meio ao verde, porém, prédios espaçosos, coloridos e com gente disposta a inovar. Hoje, Piracicaba concentra 120 das 300 startups brasileiras dedicadas ao agronegócio (ou agtechs), segundo dados da Associação Brasileira de Startups (ABStartups).

Juntas, essas empresas estão ajudando a mudar um dos setores mais importantes da economia do País, e também exportando suas soluções. Há até quem já chame a região de “Vale do Agronegócio” ou “AgTech Valley”, em referência ao Vale do Silício californiano. Além disso, a profusão de startups que surgem no local atrai a atenção de empresas tradicionais, como a Raízen e a Coplacana, além de novatas do setor fundadas em outras regiões.

Hoje, algumas das soluções desenvolvidas em Piracicaba já podem ser consideradas triviais para os iniciados no campo. São ideias como monitoramento de plantações via satélite, uso de sensores para irrigação inteligente ou de drones para a disseminação de pesticidas. Outras, no entanto, começam a mostrar diversificação na cena de startups piracicabana, indo além do aumento da produtividade de plantações.

É o caso da @Tech, dona de uma solução que ajuda pecuaristas a identificar o melhor momento para vender seus rebanhos. A ferramenta da startup, chamada de BeefTrader, cruza dados dos animais, como peso e dieta, com informações do mercado e até da localização da fazenda. Assim, o sistema pode calcular não só o preço mais eficiente para a venda, mas também o lucro da operação.

Criada em 2015 por Tiago Zanett Albertini, doutor em Nutrição Animal, a empresa recebeu em maio um aporte da fabricante de eletrônicos Positivo. Com os recursos, começou a internacionalização, de olho em mercados como EUA, Austrália e Argentina. Antes, teve aportes da Coplacana, uma das principais cooperativas da região, e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Como modelo de negócios, a @Tech cobra dos fazendeiros um valor diário para monitorar cada cabeça de gado.

Além de vender seu peixe, ou melhor, boi, a @Tech é a idealizadora do AnimalsHub, centro de inovação para startups de pecuária. Até o fim do ano, dez empresas selecionadas em um edital ocuparão o espaço de 450 m². A meta é ter startups que se dediquem à toda a cadeia da pecuária, do dia a dia na fazenda à comercialização, passando por certificações e padrões de consumo. “A pecuária está entrando em uma nova era”, diz Pedro Chamochumbi, agente de inovação do AnimalsHub. “Queremos integrar tecnologias e oferecer um combo tecnológico ideal para esse momento.”

Pioneira, universidade faz transferência de conhecimento

Antes do AnimalsHub, o primeiro escritório da @Tech ficava dentro do EsalqTec, incubadora da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), ligada à USP. “Tudo começou ali, com ajuda para estruturar planos de negócios e contatos”, diz Albertini, que fez mestrado, doutorado e pós-doutorado na escola.

Fundada em 1901, a Esalq só não tem uma história mais antiga que a da cultura de cana na cidade, as primeiras plantações datam do século XIX. Quando a cana se desvalorizou, a escola ajudou Piracicaba a encontrar novos rumos, com pesquisas que levaram à industrialização local. Formou-se um ecossistema de grandes empresas e pesquisadores, além da Esalq, a cidade está perto de unidades da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Outra vantagem é a localização: Piracicaba fica a menos de 200 quilômetros de outros polos agrícolas e mercados consumidores – como São Paulo, Campinas, São Carlos e Ribeirão Preto.

No mundo das startups, quando um local reúne condições ideais para a criação de um ecossistema, diz-se que ele tem boa “densidade”. No caso de Piracicaba, isso é válido há décadas. Porém, faltava incentivo à inovação. “Há cinco anos, a discussão de empreendedorismo não era tão presente”, diz o engenheiro agrônomo Guilherme Raucci, que fez mestrado na Esalq e hoje é um dos diretores da Agrosmart. Uma das startups mais conhecidas do setor, a empresa nasceu em Itajubá (MG) e exporta suas soluções para nove países, mas tem um escritório em Piracicaba.

Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, fundada em 1901, é das principais escolas de ciências agrárias do mundoHoje, diz Raucci, o cenário é bem diferente, os alunos da Esalq vivem em contato com inovação, organizando palestras e visitando empresas. Além disso, há incentivo para a transferência de conhecimento. “Sempre tento fazer os alunos verem a chance da pesquisa virar produto ou serviço, gerando emprego e renda”, diz o professor Sérgio Pascholati, presidente do conselho da EsalqTec. Hoje, a incubadora tem 10 empresas residentes e 121 projetos em andamento. Além disso, ajuda a direcionar alunos para trabalhar nas startups da região.

É o caso da Gênica, que usa biotecnologia para ajudar no combate de pragas e doenças em grandes cultivos como soja, milho, feijão, cana-de-açúcar e algodão. Fundada por Fernando Reis, a empresa tem em sua equipe oito ex-alunos da Esalq – um terço dos 25 funcionários. Até o fim de 2020, serão mais 10 pessoas. Parte da equipe ajudará a startup a fazer uma espécie de “vacina” para a ferrugem da soja, a principal doença da agricultura brasileira.

“Estamos trabalhando em compostos que ajudem os genes da planta a se manifestar”, diz Marcos Petean, diretor executivo da Gênica. “Assim, ela pode desenvolver mecanismos bioquímicos para se defender de doenças como a ferrugem.”

Mão de obra, capital e conectividade são desafios

Mas nem tudo são flores, frutos e sementes para as startups piracicabanas. Entre os desafios citados pelos empreendedores locais, há obstáculos como a quantidade de investidores dedicados ao setor, especialmente em aportes mais robustos. A conectividade no campo, no qual está o público das empresas, é outro entrave, diz José Massad, diretor de inovação da Raízen.

Além disso, se hoje a região já gera empreendedores, ainda falta mão de obra para trabalhar nas startups. Segundo entrevistados ouvidos pelo Estado, ainda há pouca gente capaz de lidar com a cultura de constante mudança e inovação. Outros elencam ainda a “falta de maturidade” com que algumas empresas se lançam ao mercado.

Tecnologia pode ajudar no combate à fome

Para o presidente da ABStartups, Amure Pinho, o ecossistema de Piracicaba ainda precisa refinar a combinação de talento, mercado e capital. “Assim, será possível tirar o melhor da região para resolvermos um problema sério: aumentar a produção de alimentos”, diz, ressaltando o papel da tecnologia no processo. Segundo estimativas da ONU, o planeta terá 10 bilhões de pessoas e será um desafio botar comida na mesa de tanta gente. Hoje, alimentação já é um problema para 820 milhões em todo o mundo, segundo relatório publicado pela ONU nesta semana.

Para os especialistas, o Brasil pode liderar esse processo, e exportar não só comida, mas tecnologia. “O entrosamento entre academia e produção é muito bom em Piracicaba”, diz Bob Sainz, professor da Universidade da Califórnia em Davis. “Se a vocação para o agronegócio e as tecnologias forem bem unidas, não tenho dúvida de que o Brasil não exportará só carne e soja, mas também moléculas, algoritmos e softwares.”

O Estado de São Paulo