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Poesia digital encarna "segunda vida" da poética, segundo acadêmico

Publicado em 07 outubro 2010

Por Paula Dume

Para Jorge Luiz Antonio, mundo digital ofereceu outras relações para a poesia. A designação parece estranha, mas poeta digital existe. Tanto que, para o acadêmico Jorge Luiz Antonio, a poesia digital se mostra como uma "segunda vida" da poesia.

"Porque a hipertextualidade, a interatividade e a hipermidialidade oferecem novos significados à nossa vida cibercultural", explica o professor universitário, pós-doutorando no IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) da Unicamp, bolsista da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo) e autor de "Poesia Digital: Teoria, História, Antologias", em entrevista à Livraria da Folha.

A obra resulta da tese de Antonio, chamada "Poesia Eletrônica: Negociações com os Processos Digitais", de 2005. O texto se tornou livro homônimo, em 2008, "e agora se transformou em "Poesia Digital: Teoria, História, Antologias", segundo o autor.

Nesse, Antonio traça um panorama da história da poesia digital e esclarece para o leitor como os recursos aparentemente frios da informática proporcionam essa "segunda vida" para a poética.

O livro acompanha um DVD, que reúne uma antologia de poemas digitais e de seus antecessores. São 501 poemas, de 226 poetas, e 110 textos teóricos, de 73 autores, brasileiros e estrangeiros, com cerca de 1.500 páginas impressas e eletrônicas.

Durante a conversa, o professor detalhou as diferenças entre as poesias digital e analógica, as dificuldade que passou para publicar um livro de poesia, além do mais sobre a digital, entre outros temas.

Leia abaixo a íntegra da entrevista com o pesquisador.

Livraria da Folha - Quanto tempo você se dedicou à pesquisa da poesia digital?

Jorge Luiz Antonio - Sou um apaixonado pela poesia moderna, contemporânea, inovadora, de vanguarda desde os tempos de adolescente. A principal motivação foi uma palestra, 1996, na PUC-SP, ministrada por E. M. de Melo e Castro, a respeito da poesia experimental portuguesa. Em 1997, fiz o curso de Infopoesia e Poesia Sonora, que ele ministrou na mesma universidade. Estava no mestrado, estudando as relações entre poesia e pintura realista impressionista, na obra de Cesário Verde (1855-1886). A partir desse curso, decidi estudar poesia digital. Minha tese foi "Poesia Eletrônica: Negociações com os Processos Digitais" (2005), que se tornou o livro com o mesmo título, de 2008, e agora se transformou em "Poesia Digital: Teoria, História, Antologias".

Livraria da Folha - O espaço para a poesia é restrito no mercado editorial brasileiro?

Antonio - O espaço para a poesia é restrito, sim, embora existam muitas editoras alternativas e de pequeno porte, com produções a preço acessível ao poeta. Mesmo com a divulgação realizada pela web, a poesia tem um público especializado e menor. Infelizmente as escolas, em sua grande maioria, preparam muito pouco os alunos para a fruição de poesia e de artes.

Livraria da Folha - Enfrentou dificuldades para publicar "Poesia Digital" ?

Antonio - Passei por algumas dificuldades para publicar meus livros, mesmo tendo um auxílio publicação da Fapesp. Boa parte dos editores não tem interesse em obras acadêmicas, como as minhas. Felizmente valeu a minha persistência. Talvez devido à pouca venda, de um modo geral, as editoras universitárias, que deveriam incentivar os novos autores, só conseguem publicar as obras dos seus docentes e autores já consagrados. Há também o problema da distribuição do livro, o que infelizmente nem as editoras universitárias, em sua maioria, fazem a contento. É raro ver uma editora universitária, como a da Unicamp, entre as cinco melhores do país. Como os problemas são sempre desafios para melhores soluções, "Poesia Digital" nasce com muito apoio, tanto das coeditoras (Fapesp, Navegar e Luna Bisonte Prods) e do portal "Cronópios", como de pessoas, como o Paulo Franchetti, o Álvaro Luis Kassab, do Jornal da Unicamp, da Fapesp, por intermédio da bolsa de pós-doutorado etc.

Livraria da Folha - Quais curiosidades sobre a poesia eletrônica mais lhe chamaram a atenção?

Antonio - Minha paixão pela poesia não é restrita apenas ao meu atual objeto de estudo. Todos os tipos de poesia me fascinam, me encantam. A poesia digital me fascinou como um dos tipos de poesia contemporânea, pela sua capacidade de realizar as potencialidades da poesia do meio impresso. Por exemplo, as palavras sugerem imagens, sons, movimentos, os leitores criam essas sugestões em suas mentes, interagem com esse mundo de palavras, durante as leituras. Não se trata apenas de ilustrar o que a palavra sugere, mas de trazer novos significados. Outro aspecto curioso é atualidade que a poesia digital apresenta, além da fusão das artes, das ciências e das tecnologias, que foi preconizada, idealizada e realizada precariamente pelas vanguardas do início do século 20, principalmente o futurismo e o dadaísmo. É o mundo contemporâneo que amplia, materializa, atualiza o encanto permanente que a poesia nos proporciona. É uma especie de materialização possível do que o leitor imagina quando lê um poema.

Livraria da Folha - No que difere, digamos, da poesia analógica?

Antonio - A poesia digital se mostra como uma "second life" ("segunda vida", em tradução livre) da poesia já existente, porque a hipertextualidade, a interatividade e a hipermidialidade oferecem novos significados à nossa vida cibercultural.

Livraria da Folha - Qual a principal distinção entre as duas, fora o meio onde são publicadas?

Antonio - O poeta sempre experimentou, sempre mostrou-se interessado nos mais variados conhecimentos para fazer poesia. O mundo digital lhe ofereceu outras relações, à semelhança da poesia total, uma relação da poesia com outras artes, dos movimentos dos anos de 1960 e 1970. Estou me referindo à poesia objeto, à poesia performática, à poesia visual, à poesia sonora, que faz uso das técnicas artísticas e as incorpora no fazer poético.