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Gueto online

poema s/título, de Annita Costa Malufe

Publicado em 21 agosto 2018

Gueto

há uma voz que não está

no poema por trás do poema há

uma voz há antes uma dor escrever uma dor

escutando o delírio escutando os fantasmas

da voz escutando as vozes dos fantasmas

que circulam por dentro e por fora

nos cômodos do apartamento vozes

que sequestram o corpo escrever

para não sucumbir a essas vozes para

não afogar escrever com elas apesar delas

beber com elas num bar da esquina escrever

escutando uma dor uma voz caindo

próxima ao chão rente ao poema como estar

mais próximo ao chão estar

mais próximo estar rente

ao chão corpo a corpo numa

linguagem precária rente ao chão ao rés do chão

há algo que não está dito algo que vasa

nas bordas das palavras algo transborda

uma dor vaza pelo chão rastros

uma entrega à beira dos dedos

das mãos entre um copo e outro um

corpo e outro beber com elas num

bar escrever algo que não cabe

no poema não cabe na palavra o não dito

a saliva alcançar em um poema aquilo

que ficou de fora do poema

o fora do poema a transfusão da voz

em off as vozes em off se intercalando se

misturando uma mistura de

vozes em off beber com elas num bar vozes

transbordando os corpos as mãos

gesticulando no ar o cabelo

no ar a pele gesticulando

no ar o vermelho da pele o sangue

voando com os cabelos no ar

vozes se entrelaçando na saliva

a saliva se entrelaçando na saliva

a transfusão da saliva nas línguas

a transfusão das línguas nas vozes

entreditas rastros de vozes a vida

vazada na boca vazada na língua

vazada na saliva vazada em off

Para Alberto Pucheu e Danielle Magalhães

Annita Costa Malufe (São Paulo, 1975) é autora dos livros de poemas Fundos para dias de chuva (7Letras, 2004), Nesta cidade e abaixo de teus olhos (7Letras, 2007), Como se caísse devagar (Ed. 34/PAC, 2008), Quando não estou por perto (7Letras/Petrobras, 2012), Ensaio para casa vazia e Um caderno para coisas práticas (7Letras, 2016). É doutora em Teoria e História Literária pela Unicamp e publicou os ensaios Territórios dispersos: a poética de Ana Cristina Cesar (Annablume/Fapesp, 2006) e Poéticas da imanência: Ana Cristina Cesar e Marcos Siscar (7Letras/Fapesp, 2011). Atualmente, é professora da pós-graduação em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP.