Notícia

Jornal da Unesp

Põe precocidade nisso

Publicado em 01 agosto 2001

Por Evanildo da Silveira
Em tempos de vaca louca e disseminação da aftosa na Argentina e na Europa, a Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da UNESP, câmpus de Botucatu, divulga uma boa notícia para a pecuária brasileira. Depois de nove anos de pesquisa e mais de 12 mil animais abatidos, na Fazenda Lajeado, da FMVZ, e em mais 200 propriedades particulares de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Tocantins e Rondônia, está definitivamente consolidado o projeto temático Crescimento de Bovinos de Corte no Modelo Biológico Superprecoce, iniciado em 1992. De acordo com o engenheiro agrônomo Antônio Carlos Silveira, do Departamento de Melhoramento e Nutrição Animal da FMVZ, coordenador do projeto, o sistema de criação de bovinos desenvolvido por sua equipe é uma solução inovadora para a pecuária nacional. "Com esse projeto, os pecuaristas ganham uma técnica de manejo nova, que desenvolve a pecuária e pode levar à exportação de carne em grande escala", diz. "Nossa expectativa é fazer, aqui, o maior centro de pesquisa em qualidade de carne do País." O que os pesquisadores fizeram foi desenvolver um novo sistema de manejo - modo de criação e de alimentação -, que resultou no chamado "novilho superprecoce". É um animal que, com um ano de idade, sem uso de anabolizantes, alcança pelo menos 450 quilos e está pronto para o abate, ao contrário da maioria do gado nacional, que requer de três a quatro anos para chegar a esse peso. O novilho superprecoce é resultado do cruzamento entre animais da raça Nelore, de origem indiana, com raças européias, como Angus, Hereford, Simental, Braunvieh, Charolês, Limousin e Pardo Suíço, entre outras. Segundo o zootecnista Mário De Beni Arrigoni, que também faz parte da equipe de pesquisa, esse animal é geneticamente superior a seus pais. "Ele une a rusticidade e a capacidade de adaptação do Nelore com a precocidade sexual e o rápido desenvolvimento do gado europeu", explica. "Os melhores resultados que obtivemos foram com o cruzamento de matrizes meio-sangue europeu-zebu com outras raças européias, que deram origem a animais com peso de abate, aos 12 meses de idade, acima de 16 arrobas (240 kg)." Além de uma boa escolha de raças, o segredo do sistema de manejo criado pela FMVZ está na alimentação e na queima de etapas no desenvolvimento do gado. Segundo Arrigoni, nos primeiros sete meses de vida os novilhos recebem ração à base de milho e de um preparado protéico, junto com leite materno. "A vantagem é que o animal atinge maior peso em menor tempo", explica. Outra vantagem desse sistema é que, por serem animais jovens, a capacidade de conversão alimentar (kg de alimento/kg de peso ganho) é maior. No período de confinamento, por exemplo, o bezerro precisa de apenas 5,1 kg de alimento para ganhar 1 kg de peso vivo. No caso do confinamento tradicional, que utiliza bovinos mais velhos, esta relação é de 8-9 kg de alimento para 1 kg de peso. "Por isso, o superprecoce só precisa de 35% da área de pastagem usada na pecuária tradicional", explica Arrigoni. De acordo com Silveira, o objetivo final do projeto é estabelecer um certificado de qualidade da carne brasileira para facilitar sua exportação. "O Brasil poderia ser um grande exportador de carne se apresentasse um produto mais macio e com selo de garantia", enfatiza. "Num prazo de três anos, pretendemos que o laboratório faça a certificação da carne, especificando se é de macho ou fêmea, quanto tem de gordura e de maciez, além de apresentar um rastreamento da alimentação dos animais."