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Jabuticabas

Podres Poderes

Publicado em 22 fevereiro 2021

Por Démerson Dias

A eleição do Artur Lira para presidência da Câmara elucida do que é feito o conglomerado político chamado Legislativo e os reais interesses dos donos do poder no Brasil.

Lamento divergir de camaradas que ocupam e/ou valorizam a disputa institucional no parlamento. E, não o faço com a hipocrisia dos que só denunciam a "farsa democrática" quando não são capazes de granjear o escrutínio "popular".

A suposta democracia burguesa não é uma democracia e a burguesia brasileira esta comprometida até o rabo com o bozofascismo, seu "governo", o genocídio, e até mesmo com o pão com leite condensado.

O tripé institucional do Estado brasileiro caracteriza uma ditadura burguesa porque, nada acontece, em suas entranhas, que seja oposto ao conjunto dos interesses da classe burguesa.

Tal caracterização é o inverso da que acreditam os validadores da democracia burguesa, que a justificam porque, esporadicamente, pingam migalhas do banquete burguês. Como cada migalha custa empenho e esforço enorme dos representantes das classes excluídas, a farsa se auto justifica, já que, setores serviçais a segmentos distintos da burguesia, oferecem gamas distintas de resistência às demandas das classes assujeitadas.

A eleição de Artur Lira expressa o caráter, e as prioridades, do conjunto da burguesia brasileira. Deixaram o fascistinha brincar de trumpismo porque, parcela concorda, e o conjunto, é lento e burro, para interpretar as movimentações da burguesia internacional.

Essa burguesia nacional é imediatista, reacionária, parasitária e, fundamentalmente, predisposta à vassalagem.

Ainda assim, parece que sempre existiram capatazes, dispostos a sujar as mãos a serviço dos déspotas.

Não consegui decifrar se a surpresa que Rodrigo Maia acusou, muito levemente, assim que abriu o painel de resultados, significa que achou Arthur Lira teve muitos votos, ou se Baleia Rossi teve poucos. Como ex-articulador do centrão, é bem provável que já conhecesse seu sucessor.

Bolsonaro não tem capacidade intelectual para conduzir as negociações que garantiram o apoio decisivo do centrão. A mídia comercial, efetivo braço ideológico da burguesia na sociedade, precisa encobrir que o centrão é basicamente ideológico e burgues (Revista FAPESP - Edição 75 maio de 2002). Surgem as insinuações de votos comprados e pagos com emendas orçamentárias. Mas não é disso que se trata nessa conjuntura específica.

Arthur Lira e Baleia Rossi, qualquer dos dois, não são Inocêncio Oliveira, Severino Cavalcanti ou Eduardo Cunha. O centrão é a reconstituição do bloco gestor da ditadura.

Para o parlamentar que se vende, a grana é a recompensa. Ocorre que para que essa grana tenha comprado esses votos e não aqueles, dependeu de uma decisão ideológica ponderada a partir da reflexão sobre quais alternativas atendem melhor ao interesse do campo reacionário.

A corrupção é, praticamente, o álibi do centrão, para consagrar sua opção ideológica, sem que isso fique tão escancarado. Só por isso a mídia comercial tem a liberdade de falar contra seus próprios membros, já que o que denuncia é uma categoria que não se confunde como os protagonistas que a compõem.

Se ainda não perceberam, os alentadores da hipótese de impeachment de bolsonaro, voltam à estaca zero em suas ambições. Sendo essa a conclusão mais elementar. A inépcia administrativa do bolsonarismo é território fértil para as malandragens mais corriqueiras, ou mais criativas, do legislativo federal.

As reformas estruturantes, que não são de governos, mas da classe que comanda o poder, terão maior desenvoltura, não apenas para tramitarem, mas para passarem por crivo ideológico mais fino. O que é definitivamente impossível no ambiente de debate franco, que vinha se delineando, caso Baleia Rossi fosse vitorioso.

Qualquer democracia, mesmo a mais vulgar, faz muito mal para os negócios.

O que devemos assistir, para infelicidade, inclusive, da oposição a bolsonaro, é que o projeto de poder ao qual ele serve, terá maior desenvoltura para fazer recuar as posições atabalhoadas, vomitadas pelo presidente e anexos, e que perdem qualquer razão de ser com a derrota do trumpismo.

E não há espaço para comemorar, que seus maiores aliados internacionais, Trump e Bannon, estejam saindo de cena. Essa é a mais corriqueira das acomodações que a ditadura burguesa produz, e que, dentre suas virtudes, consegue acalmar as resistências otimistas.

Bolsonaro não será salvo pela eleição de Arthur Lira. E esse, não está fadado a cumprir papel político de peso. O que selará, de fato, o destino de ambos, vai depender, em parte, das enrascadas que cometerem, ou se livrarem, do grau de otimismo e condescendência das oposições, formais e populares e, enquanto não forem destituídos do poder, da capacidade da burguesia de manter misancene que faz uma maioria enxergar democracia, onde subjaz uma ditadura, cujo feito mais prosaico, é comandar a maior guerra civil em curso no planeta.

O Brasil é o único país no mundo em que um genocídio é encarado com reticência, ou parcimônia, o que dá no mesmo, inclusive pelos porta-vozes, representantes e lideranças das vítimas.