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Poder emergente

Publicado em 01 agosto 2008

Por Fábio Reynol

Helen Milner, da Universidade de Princeton, destaca a rápida evolução dos países em desenvolvimento, que têm hoje mais poder de negociação junto aos mais ricos e "deveriam buscar maior representatividade em instituições como FMI e Banco Mundial"

Poder emergente

Agência FAPESP – Nos últimos 20 anos, de acordo com a cientista política norte-americana Helen Milner, as relações entre países desenvolvidos e em desenvolvimento mudaram radicalmente e muitas nações do hemisfério Sul conquistaram um poder de barganha muito maior sobre as mais ricas do planeta.

Nesse novo contexto, segundo ela, em vez de atacar instituições internacionais como o FMI e o Banco Mundial, os países em desenvolvimento deveriam buscar uma representatividade maior dentro dessas organizações, cuja extinção seria prejudicial principalmente para eles mesmos.

A diretora do Centro de Globalização e Governança da Escola Woodrow Wilson da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, descreveu o processo de ascensão dos países em desenvolvimento no cenário mundial durante conferência apresentada no 6º Encontro da Associação Brasileira de Ciência Política (ABCP), que termina nesta sexta-feira (1º/8) na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Antes de se tornar professora de política internacional em Princeton, em 2004, Helen lecionou na Universidade Colúmbia por 18 anos.  Em 1986, ganhou o prêmio Sumner, da Universidade de Harvard, por tese sobre direito internacional e paz.  É autora de nove livros sobre globalização e desenvolvimento.

A pesquisadora destacou três fatores responsáveis pelas mudanças das relações entre o Sul e o Norte do planeta: globalização, desenvolvimento e governança internacional.  “Esses três itens formam uma combinação única, nunca antes vista”, afirmou.

Para Helen, a balança do poder mundial tem encontrado outros pontos de peso que não se limitam ao poderio financeiro ou militar de um país.  “Não podemos dizer que o poder militar, por exemplo, seja hoje determinante para que uma nação exerça influência sobre outras.  Brasil, Coréia do Sul e Japão são países influentes em suas regiões e não é por causa de seu poderio militar”, argumentou.  Segundo ela, outros tipos de poder também devem ser determinantes nas relações internacionais, como o das idéias ou o da política doméstica.

As administrações domésticas foram destacadas pela cientista política.  Segundo ela, para as nações se desenvolverem é preciso tranqüilidade interna, o que não vem ocorrendo com a China, por exemplo, onde obstáculos locais poderão se tornar uma pedra no caminho do gigante asiático.

Helen salientou o aumento da desigualdade social chinesa que caminha junto com o seu desenvolvimento.  “As classes sociais estão enriquecendo, mas não na mesma proporção, e esse aumento das desigualdades também preocupa o mundo”, disse, prevendo um aumento dos focos de tensões internas em nações como a China e que podem atrapalhar o desenvolvimento mundial.

Por dentro do poder

A professora de Princeton criticou os ataques às instituições internacionais como o FMI e o Banco Mundial dizendo ser “simplista” considerar que elas prejudicam os países pobres só porque são formadas pelos países ricos.  “Devemos fazer um exercício de imaginar como seria o mundo se não houvesse essas entidades no passado e também como seria o futuro sem elas”, afirmou.

Helen Milner acredita que os países em desenvolvimento têm mais a perder do que os desenvolvidos caso o FMI, por exemplo, venha a desaparecer.  Por outro lado, reconhece que a representatividade dos países dentro dessas organizações não é igualitária.

“Os novos players asiáticos aumentaram seu nível de influência no globo e não ocorreu o mesmo em sua participação nas instituições mundiais”, analisou.  Com base nessa constatação, sugere que os países do hemisfério Sul não busquem a extinção das entidades econômicas mundiais, mas que briguem por mudanças dentro delas.

O desenvolvimento econômico mundial também tem uma faceta perversa nas relações Norte-Sul, pois, segundo ela, a prosperidade dos países em desenvolvimento está gerando um endurecimento nos acordos com os países desenvolvidos.

“Está cada vez mais difícil que os Estados Unidos e a União Européia desistam de seus subsídios agrícolas, pois eles estão vendo que os países em desenvolvimento estão indo bem”, exemplificou.

Quanto à governança internacional, Helen lembra que nunca houve tantas ONGs, instituições e corporações privadas transnacionais como hoje.  Cada país do mundo, diz ela, pertence a pelo menos uma instituição internacional.  Essas entidades formam redes mundiais e representam novos laços entre as nações.

As nações em desenvolvimento levariam vantagem, segundo ela, com a interdependência imposta em várias áreas das atividades humanas pela globalização.  Como exemplo, ela cita o caso da gripe asiática, que a China tentou resolver internamente, mas acabou atingindo o Canadá e depois os Estados Unidos.

“As doenças não respeitam fronteiras”, disse.  Além da área da saúde, o setor da segurança e o campo do meio ambiente seriam outros pontos de interdependência mundial.  “Os Estados Unidos não conseguem despoluir sozinhos o seu meio ambiente.  A Califórnia recebe hoje poluição do ar que vem da China atravessando o Pacífico.  Se isso acontece com o país mais poderoso do mundo, pode acontecer com qualquer outro”, disse.