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A Gazeta (ES) online

Pó preto também é achado em mangues, diz pesquisa

Publicado em 13 novembro 2016

Uma pesquisa comprovou que nem os manguezais capixabas estão livres do pó preto. Pelo menos 13 metais pesados, incluindo chumbo, arsênio e mercúrio foram encontrados em algumas espécies de vegetais, animais invertebrados, sedimentos e até nos peixes da espécie robalo.

A análise do chumbo nesses seres e pontos revelou níveis de contaminação que comparam o Espírito Santo a cidades mundialmente reconhecidas pelos altos níveis de poluição como o México e Santiago, no Chile.

Para entender a comparação, em uma escala de valores, os níveis de contaminação atmosférica nas cidades citadas fica em torno de 2.3. Em Camburi, Vitória, os níveis de contaminação nas amostras de água coletadas chegam a 3.7 na escala de valores, claros efeitos das atividades da indústria metalúrgica na Grande Vitória, de acordo com a doutoranda em Ecologia e Recursos Naturais, Iara da Costa Souza.

Além do pó preto, manilhas jogam esgoto no mangue ao lado do galpão das Paneleiras de Goiabeiras

Ela é uma das pesquisadoras que vêm avaliando a influência das fontes de poluição na cadeia de alimentos em manguezais. Durante oito anos de pesquisa, foram coletadas, em parceria com organizações não-governamentais, como a SOS ES Ambiental, 200 amostras na Baía de Vitória (no entorno do Complexo de Tubarão), no manguezal de Vitória e inclusive no estuário de Santa Cruz, em Aracruz, litoral Norte do Estado. As nanopartículas podem alcançar mais de 500 quilômetros de distância, segundo ela.

Apesar da identificação de 19 metais em análises químicas, ela esclarece que utilizou uma metodologia mais exata para identificar o pó preto: as análises de razões isotópicas. O chumbo foi o metal escolhido porque é largamente utilizado na metalurgia e siderurgia. “Essa metodologia de pesquisa é muito mais exata do que a análise química porque analisa cinco isotópicos, que são partículas que compõem a massa do chumbo, e não apenas um, como ocorre na análise química”, explica ela.

A pesquisadora esclarece que, nas amostras coletadas no Complexo de Tubarão, apareceram em alta proporção isotópicos que deveriam ser naturalmente raros, uma evidência do desiquilíbrio causado pelas emissões de partículas poluidoras das empresas desse complexo, segundo ela.

Com isso, determinou-se que se o chumbo aparecesse com essa mesma proporção isotópica nos manguezais e estuários, poderia se concluir a presença do pó preto nessas regiões. E foi o que aconteceu, quando analisadas lgumas espécies de plantas, de ostra, de caranguejo, de camarão, de plânctons e até de peixe.

A pesquisa exigiu investimentos de mais de R$ 2,2 milhões e foi financiada por órgãos ligados ao governo brasileiro como a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e governos estrangeiros como a Escócia, que investiu, sozinha, R$ 1 milhão.

Iara, que apresentou a pesquisa em uma palestra na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), ressalta que pesquisadores do Brasil e do mundo contribuíram com a pesquisa, que vai analisar mais espécies e demais implicações do pó preto.

Empresas não se manifestam

Embora tenha alegado que só irá se pronunciar assim que tiver conhecimento oficial sobre o estudo, o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema) afirmou, em nota, que considera muito importante todo e qualquer estudo que possa contribuir na identificação e solução de problemas relacionados ao meio ambiente e se colocou à disposição da pesquisadora Iara da Costa Souza para que possa apresentar o estudo.

 

A Vale, uma das empresas atuantes no Complexo de Tubarão, informou, também em nota, que não teve acesso ao estudo e que, por esse motivo, não teria como se manifestar sobre o assunto. O mesmo posicionamento da ArcelorMittal Tubarão. A empresa afirmou, em nota, que não vai se posicionar sobre os resultados.

 

Mas reforçou seu compromisso com a questão ambiental da Grande Vitória e que se mantém aberta ao diálogo, tanto dos órgãos públicos quanto dos acadêmicos, para buscar soluções que gerem melhorias para a qualidade do ar na região. E ressaltou que um dos mais importantes investimentos da empresa é um filtro de manga chamado Gas Cleaning Bag Filter, que entra em operação até janeiro de 2018 e reduzirá 90% as emissões de material particulado.