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Plataforma digital traz indicadores sociais inéditos sobre São Paulo

Publicado em 15 agosto 2019

Verificar dinamicamente os números sobre como se distribuem distintos grupos populacionais na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) tornou-se possível para qualquer um a partir do projeto ReSolution (Resilient Systems for Land Use Transportation). Trata-se de uma inovação produzida pelos pesquisadores do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) da USP, um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Cepid-Fapesp). A plataforma acaba de ser lançada, junto com o novo site da instituição, e pode ser consultada através deste link.

O portal ReSolution apresenta 97 variáveis absolutas e relativas. Um exemplo é a concentração da população branca, amarela, parda e negra na RMSP, por meio do indicador cor-etnia. É possível verificar que na região central de São Paulo, por exemplo, pretos e pardos se localizam predominantemente no entorno dos bairros São Joaquim, Baixada do Glicério, Praça da Sé, Parque D. Pedro, São Bento e Luz, enquanto a população branca se concentra no chamado “centro expandido”, como Consolação, Pacaembu, Higienópolis e Jardim Paulista.

“Com o ReSolution, pela primeira vez conseguimos um sistema que disponibiliza, de forma amigável para o usuário, indicadores de demografia, raça e imigração, religião, educação, renda e trabalho, em uma só plataforma, e que agrega novos indicadores, os de acessibilidade e segregação, permitindo comparar padrões sociais com segregação e acesso”, destaca Eduardo Marques, vice-coordenador do CEM, coordenador do projeto e professor do Departamento de Ciência Política da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O ReSolution envolveu o desenvolvimento de um modelo baseado em agentes que simula as dinâmicas de localização residencial de distintos grupos populacionais e seus reflexos nos padrões de segregação e diferenciais de acessibilidade ao trabalho. Todas as atividades de pesquisa foram realizadas para Londres e São Paulo, de forma comparativa.

Os indicadores se baseiam no Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A Pesquisa Origem e Destino 2007 do Metrô de São Paulo foi utilizada pela equipe de Mariana Giannotti, coordenadora de Transferência do CEM e professora da Escola Politécnica (Poli) da USP, para levantamento dos tempos de viagem e cálculos para os índices de acessibilidade. A equipe da pesquisadora Flávia Feitosa, professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), desenvolveu os índices de segregação. Ambas as frentes contaram com a equipe da professora Joana Barros, do Departamento de Geografia do Birkbeck, Universidade de Londres. O modelo baseado em agentes foi desenvolvido em parceria com o Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe), e o projeto contou ainda com a parceria dos pesquisadores Mike Batty, Duncan Smith, Chen Zhong e Yao Shen do Centre for Advanced Spatial Analysis (Casa), University College London.

Acessibilidade e segregação: as grandes inovações

Com o ReSolution, é possível identificar e quantificar no espaço urbano a acessibilidade – conceito que demonstra as oportunidades de acesso a postos de trabalho com base no local onde se mora e meio de transporte disponível. “O portal mostra quantas oportunidades de emprego se consegue alcançar a partir do seu local de origem (moradia), considerando o tempo de viagem”, explica Mariana Giannotti.

Uma pessoa que more no entorno do Museu de Arte de São Paulo (Masp), na Avenida Paulista, por exemplo, tem a seu alcance mais de 1,3 milhão de postos de trabalho, em um raio de distância que pode ser percorrido em 30 minutos utilizando transporte público. Nos mesmos tempo e distância, um morador do entorno do Conjunto Habitacional Inácio Monteiro, em Cidade Tiradentes, bairro da zona leste da capital, tem acesso potencial a 100 vezes menos empregos – pouco mais de 13 mil postos de trabalho. É claro que o acesso a esses postos não se restringe à questão do deslocamento físico, envolvendo atributos educacionais e ocupacionais, entre outros. “A medida ajuda a colocar uma lupa para observar o quanto o transporte pode dificultar esse acesso para algumas populações em comparação a outras, acrescentando por vezes mais uma barreira que reforça as desigualdades”, acrescenta Mariana. Essa é, na verdade, uma dimensão central das desigualdades sociais em metrópoles como São Paulo.

O portal ReSolution também mostra e quantifica o processo de segregação espacial. “Para entender os diferentes aspectos da segregação, trabalhamos a chamada cartografia do invisível, ‘transformando’ conceitos em equações, usando dados populacionais”, aponta Joana Barros, pesquisadora do Birkbeck. “Como existem várias maneiras de entender a segregação, temos várias medidas. Para cada conceito, temos uma maneira de medir”, acrescenta.

A plataforma traz indicadores de segregação residencial e ocupacional. “Tradicionalmente se mede a segregação residencial, mas faz sentido medir a dos espaços de trabalho, dado o tempo que ficamos ou gastamos com ele. Como estávamos observando a questão do transporte, era interessante ter uma narrativa que juntasse essas duas coisas”, diz.

O ReSolution mostra como os grupos estão distribuídos na cidade, considerando espaços de residência e de trabalho, por meio de indicadores como o de dissimilaridade e índice H (da Teoria da Informação). Esses indicadores olham o local e comparam a sua composição populacional com toda a metrópole. Se o local é muito segregado, não vai ter a composição semelhante ao do todo.

Outro indicador são os Índices de Exposição, que mostra a chance de grupos diferentes compartilharem o mesmo espaço.

Parceria internacional

A ideia do ReSolution nasceu de um pós-doutorado de Eduardo Marques financiado pela Fapesp na Inglaterra em 2004. Lá ele conheceu o trabalho do Centre for Advanced Spatial Analysis (Casa), focado no desenvolvimento científico aplicado a métodos, ideias de modelagem e visualização baseados em computação aplicados às cidades. Eles desenvolveram o DataShine, um sistema que produz mapas on-line no nível da menor desagregação do censo inglês, gerando com muita velocidade um grande volume de dados sobre toda a Inglaterra. “Os procurei para negociar uma transferência de tecnologia, pois os webmaps brasileiros eram muito lentos, pouco amigáveis e de design ultrapassado, mas eles propuseram uma pesquisa em conjunto”, conta Marques.

Nessa colaboração, financiada pela Fapesp e Economic and social Research Council (ESRC-UK), os pesquisadores puderam comparar a segregação socioespacial e acessibilidade em São Paulo e Londres. Da parte inglesa, a coordenação ficou com Michael Batty e Joana Barros.

Na capital da Inglaterra, os padrões de segregação são mais complexos, associados à microssegregação, processo caracterizado pela existência de pequenos territórios de grupos específicos, que podem ser de classe, étnicos ou religiosos, e que se localizam tanto no interior quanto fora da metrópole. Já São Paulo é mais macrossegregada.

Transferência para sociedade e ganhos de capacitação

“Uma das missões do CEM é transferir o conhecimento que produzimos na academia. Desenvolver aplicativos construídos com base em temas sociais, de forma interdisciplinar por colocar engenheiros e profissionais da tecnologia da informação para conversar e trabalhar junto com cientistas sociais, não é uma tarefa trivial, mas encontramos uma maneira de fazer isso”, ressalta a diretora do CEM, Marta Arretche.

Marques ressalta ainda os ganhos na capacitação do próprio CEM. “O projeto permitiu que inovássemos também em nossa área técnica, aprimorando nossas bases de dados, possibilitou a integração dos bolsistas de tecnologia da informação e comunicação às nossas pesquisas, viabilizou a vinda da professora Mariana Giannotti para nossa equipe e nos atualizou em termos de transferência”, finaliza.