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Plástico Moderno

Plástico recuperado vira papel

Publicado em 01 fevereiro 2009

Uma nova alternativa para minimizar o impacto ambiental causado pelos descartes plásticos começa a ganhar contornos industriais nos próximos meses. Em etapa final de testes, um papel sintético obtido de plástico reciclado de resíduos urbanos chegará ao mercado convertido em fitas adesivas, papel de impressão e rótulos. Resultado de uma parceria tríplice, o produto comprova que a união de forças entre cientistas e empresários na busca de desenvolvimentos para agregar valor à sociedade quase sempre acerta o alvo. O projeto demandou vários anos de estudos e ganhou corpo nos últimos três. Em abril de

2007 foi depositada a patente em nome dos três parceiros: Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de São Carlos (DEMa/UFSCar), Vitopel e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

A coordenadora do projeto e docente do DEMa, Sati Manrich, explica que, a fim de aproveitar o máximo possível o resíduo urbano, foram desenvolvidas várias formulações. Os rejeitos plásticos, depois de limpos e moídos, recebem aditivos para a obtenção de propriedades ópticas (brilho, brancura, dispersão e absorção de luz) e resistência mecânica ao rasgamento, à tração e a dobras. A blenda segue para a extrusão e resulta em um material semelhante ao papel derivado da celulose.

 De acordo com a mentora da pesquisa, a ideia surgiu com o objetivo de buscar alternativas para minimizar o impacto ambiental causado pelo material plástico descartado com produtos de maior valor agregado. “A intenção era despertar o interesse para aplicações mais nobres, chamar a atenção tanto de empresários como da população”, explica Sati. O produto ainda incorpora outros aspectos ambientais importantes: seu uso tem a contrapartida de evitar a derrubada de árvores e economizar grande volume de água, necessário ao ciclo produtivo do papel celulósico.

Como principais características, a cientista ressalta a maior durabilidade, resistência à umidade e melhor aspecto visual, em comparação ao papel da celulose. A cientista indica o material para aplicações que requerem propriedades como barreira à umidade e à água ou maior resistência.

Na Vitopel, o novo material utiliza a tecnologia dos filmes de polipropileno biorientado (BOPP), resultando num material resistente, com aspecto diferenciado e similar ao do papel cuchê. “O produto requer extrusão mais sofisticada e biorientação”, comentou José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Vitopel, maior produtora de filmes flexíveis biorientados da América Latina e a terceira maior do ramo no mundo.

O projeto também contou com os conhecimentos da empresa em formulação e extrusão para o desenvolvimento de filmes multicamadas e de tratamento que oferecem ao produto final características de resistência associadas à espessura mais fina. A companhia investiu dois milhões de dólares na elaboração do composto.

“Só falta caracterizar melhor o produto, sua produtividade, padrão de cor, entre outros aspectos, para entrar no mercado comercialmente”, explicou Roriz. Dentro de dois meses, as primeiras 250 toneladas do material chegam ao mercado transformadas em fitas adesivas, papel de impressão e rótulos. Além dessas aplicações, também está previsto o seu uso em livros escolares, envelopes e catálogos institucionais, entre outros itens. De acordo com o presidente da Vitopel, o papel derivado de resíduos plásticos não concorre com o de celulose. “A ideia é ser um produto complementar, pode até ser laminado com papel”, disse.

A empresa tem capacidade instalada para produzir um total de 150 mil toneladas anuais de filmes flexíveis. Num primeiro estágio, seriam convertidas 10 mil toneladas do novo material que, a propósito, pode ser reincorporado ao processo produtivo.

Esse volume pode facilmente ser elevado para 50 mil toneladas anuais, de acordo com a demanda do mercado e desde que a empresa tenha condições de estabelecer um sistema de coleta contínua, fundamental para manter constante a produção. Da sua própria fábrica, a Vitopel poderá reabsorver 250 toneladas mensais de aparas. A empresa já tem potenciais fornecedores: algumas cooperativas de reciclagem com as quais mantém relacionamento.

O presidente da Vitopel comemora o fato de o produto ter despertado interesse internacional. “Se não estiver no raio de alcance de exportação, os três parceiros – Vitopel, UFSCar e Fapesp – podem licenciar a tecnologia”, declarou Roriz.

A docente do DEMa/UFSCar está envolvida com o projeto de caracterização de poliolefinas provenientes de resíduos urbanos para a fabricação de papel sintético desde 1996. Várias pesquisas abordaram o reaproveitamento de embalagens pós-consumo e em 2002 ganhou impulso o estudo que resultou no produto agora em vias de comercialização.

Empresário pleiteia formalizar reciclagem

Os recicladores de resinas termoplásticas precisam se organizar em associações próprias em favor do atendimento de seus interesses específicos. Para o segmento se desenvolver no país e deixar de ser percebido como uma indústria marginal, o governo deveria elevar a atividade dos recuperadores ao patamar de utilidade pública, por uma simples razão. Eles ajudam a limpar o meio ambiente e devolvem como matéria-prima milhares de toneladas de dejetos, que tinham como destino final, em tempos passados, os aterros sanitários.

Essa é a opinião do empresário gaúcho Rosalvo Prates, radicado desde o final dos anos oitenta no Paraná, onde dirige a empresa de sua propriedade denominada Mennopar, em Pinheirais, na Grande Curitiba. Prates é filiado e um dos diretores do Sindicato da Indústria de Material Plástico no Estado do Paraná (Simpep). No entanto, lamenta o fato de que apenas cinco recicladores daquele estado estejam agrupados em torno do sindicato.

Para Prates, a principal missão dos recicladores, agrupados em uma associação comum, é conquistar o reconhecimento oficial, pois conforme ele, trata-se de uma indústria fundamental, porque pega passivo ambiental, transforma em matéria-prima, gera imposto e emprego. Mas é cobrada de maneira desproporcional. Ele revela estar imobilizando, neste começo de 2009, mais de R$ 60 mil na instalação de equipamentos contra fogo, tais como hidrantes, mangueiras e reservatório para água. Somente o projeto de engenharia ficou em R$ 13 mil.

Abrir uma usina de reciclagem em consonância com a legislação ambiental do Paraná, nos cálculos de Prates, demanda hoje algo em torno de R$ 1,5 milhão. A escavação de um poço pode ficar entre R$ 30 mil e R$ 50 mil. A estação de tratamento de efluentes, outros R$ 100 mil, para 2 mil m² de galpões, mais equipamentos, como moinho extrusoras, lavadores e secadores. Todo esse maquinário pode reciclar umas 2.400 toneladas/ano de resinas.

Por conta da demanda, do investimento e das obrigações ambientais, a principal queixa do mercado formal da reciclagem é a presença na cadeia da figura do sucateiro, um comerciante muitas vezes informal, que compra o lixo seco por mixaria e repassa aos recicladores com até 100% de ágio.

No entendimento de Prates, cabe justamente aos empresários formais moralizar o segmento, com base no atendimento das legislações, pagamento de impostos, respeito ao emprego legal, entre outros quesitos. Ao cumprir esses encargos, os empresários estariam aptos a exigir algum tipo de contrapartida. Uma das reivindicações propostas por Prates seria a isenção do ICMS da energia elétrica como forma de beneficiar aqueles que abriram empresas legais e geram empregos.

Hoje, no Paraná, o ICMS da energia elétrica incidente para a atividade industrial já beira os 30%. “Não queremos ficar isentos de impostos porque todo empreendimento lucrativo deve cumprir suas obrigações. Pedimos apenas algum reconhecimento”, assinala Prates.

A reciclagem compreende três etapas: a terciária (segregação), a secundária (descontaminação-moagem, lavagem e secagem) e a primária, que é a extrusão da resina em granulados. A segregação é fácil de fazer por tipo e cor. Já a secundária exige estação de tratamento de efluente e poço artesiano, com água para descontaminar; e, na maioria dos casos, ninguém quer mexer com a chamada “parte suja” do processo.

Na opinião de Prates, a reciclagem é um mercado promissor porque é uma atividade de solução. De qualquer forma, ele defende uma maior profissionalização dos catadores, que poderiam realizar a etapa terciária e a secundária, com o objetivo de eliminar a presença do sucateiro como elo da cadeia.

O empresário tem um custo de 30 centavos de real por quilo nas etapas terciária e secundária, porém está disposto a treinar os catadores para realizar o serviço e repassar o valor. Contudo, enfrenta barreiras culturais. “Eles não querem fazer. Só querem separar o que é ferroso do não-ferroso.”

Prates já propôs uma parceria com as cooperativas de catadores de Curitiba, mas lamenta não ter sido ouvido. Ele conta que a trajetória para montar a Mennopar começou com um galpão há quinze anos. Depois, ele fez um segundo, perfurou o poço e construiu uma estação de tratamento de efluentes “na cara e na coragem”.

Atualmente a usina pode reciclar até 50 toneladas por mês em resinas convertidas em sacos de lixo, embalagens secundárias para alimentos, ou seja, aquelas colocadas para proteger caixas de leite, latas e outros recipientes, sem risco de contaminação. Além disso, ele recicla bombonas convertidas posteriormente em frascos de óleo lubrificante. Segundo o empreendedor, toda a indústria de alimento usa o reciclado para a embalagem secundária.

De acordo com a organização não-governamental Plastivida, a reciclagem de resinas termoplásticas está dividida em três processos. O primeiro é denominado reciclagem química e consiste na decomposição química dos polímeros para retornarem à indústria na forma de petroquímicos básicos, monômeros ou misturas de hidrocarbonetos, os quais voltam às refinarias ou centrais petroquímicas para a obtenção de produtos nobres de elevada qualidade.

O objetivo da reciclagem química é a recuperação dos componentes químicos individuais para serem reutilizados como produtos químicos ou para a produção de novos plásticos. Essa reciclagem permite tratar a mistura de plásticos e reduzir custos de pré-tratamento, de coleta e seleção. Além disso, permite produzir plásticos novos com a mesma qualidade de um polímero original.

A reciclagem mecânica consiste na conversão dos descartes plásticos pós-industriais ou pós-consumo em grânulos que podem ser reutilizados na produção de outros produtos, como sacos de lixo, solados, pisos, conduítes, mangueiras, componentes de automóveis, fibras, embalagens não alimentícias e muitos outros e possibilita a obtenção de produtos compostos por um único tipo de plástico ou produtos derivados de misturas de diferentes plásticos em determinadas proporções. Estima-se que no Brasil sejam reciclados mecanicamente 15% dos resíduos plásticos pós-consumo.

A reciclagem energética é a queima dos polímeros, mas se diferencia da incineração por utilizar os resíduos plásticos como combustíveis em geração de energia elétrica, como ocorre principalmente no Japão, onde já existem mais de mil usinas de reconversão de lixo seco em eletricidade. “A usina de Saint-Queen, na França, assegura o suprimento de eletricidade para 70 mil pessoas com 15 mil e 400 megawatts/ano, obtidos por reciclagem energética”, sinaliza o site da Plastivida.

O documento da Plastivida diz ainda que junto com a economia e recuperação de energia ocorre também uma redução de 70% a 90% da massa do material. Ao final da queima resta apenas um resíduo inerte esterilizado. Conforme a Plastivida, a energia contida em um quilograma de plásticos é igual à energia existente no mesmo volume de óleo combustível.

Revista Plástico Moderno – Notícias – 01/02/2009 – Págs. 54 e 55