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Plástico biodegradável de açúcar está pronto para escala industrial

Publicado em 07 agosto 2012

Há mais dedez anos, a empresa PHB Industrial produz em escala piloto o Biocycle, umplástico biodegradável feito com açúcar de cana. Apesar de dominar a tecnologiapara fabricar diversos produtos com o polímero e para tornar seu custocompetitivo quando comparado ao do plástico convencional, a empresa ainda nãoconseguiu elevar sua produção a uma escala industrial.

Para RobertoNonato, engenheiro de desenvolvimento da PHB Industrial, o caminho mais curtopara levar o Biocycle ao mercado seria uma parceria com a indústriapetroquímica. "Temos tentado isso há alguns anos, mas o pessoal do petróleo nãocostuma conversar com o pessoal do açúcar”, disse durante sua apresentação noworkshop "Produção Sustentável de Biopolímeros e Outros Produtos de BaseBiológica”, realizado na sede da FAPESP.

A históriado Biocycle começou no início dos anos 1990, época em que a Cooperativa dosProdutores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar)procurava outros produtos que pudessem ser fabricados em uma usina de açúcarque não fossem commodities.

Por meio deuma parceria com o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e com o Institutode Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP), a Copersucarconseguiu produzir o polihidroxibutirato (PHB) – um polímero da família dospolihidroxialcanoatos (PHA) com características físicas e mecânicas semelhantesàs de resinas sintéticas como o polipropileno – usando apenas açúcar fermentadopor bactérias naturais do gênero alcalígeno.

Em 1994, umaplanta piloto foi instalada na Usina da Pedra, em Ribeirão Preto. Em 2000, foicriada a PHB Industrial e a tecnologia passou a pertencer ao Grupo PedraAgroindustrial, de Serrana, e ao Grupo Balbo, de Sertãozinho.

Com apoioda FAPESP por meio doPrograma FAPESP Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE) e auxílio depesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFScar), a empresadesenvolveu a tecnologia de produção dospellets –pequenas pastilhascilíndricas feitas com uma mistura de PHB e fibras naturais–, matéria-primausada pela indústria transformadora para produzir utensílios de plástico.

"Inicialmente,nos preocupamos apenas em desenvolver o PHB e achávamos que a indústriatransformadora faria o resto, mas, quando você chega com uma resina nova aomercado, ninguém sabe como processar. Percebemos que era preciso ir além”,disse Nonato àAgência FAPESP.

A técnica demisturar PHB com fibras vegetais trouxe outra vantagem: a redução do custo.Enquanto o quilo do polipropileno custa em torno de US$ 2, o quilo do PHB saipor volta de US$ 5. "Se você mistura com pó de madeira, por exemplo, barateia oproduto e dá a ele características especiais que podem ser interessantes”,explicou o engenheiro.

Diversas aplicações

O PHB é ummaterial duro que pode ser usado na fabricação de peças injetadas etermoformadas, como tampas de frascos, canetas, brinquedos e potes de alimentosou de cosméticos. Também pode ser aplicado na extrusão de chapas e de fibraspara atender a indústria automobilística. Serve ainda para a produção deespumas que substituem o isopor.

"Desenvolvemosdiversas aplicações para o polímero em cooperação com outras empresas. Aindústria automobilística, por exemplo, nos procurou para testar o PHB e vimosque o polímero era viável na fabricação de peças para o interior dos carros.Mas, como ainda não temos condições de produzir em escala industrial, nãoconseguimos entrar no mercado”, disse Nonato.

SegundoNonato, a empresa chegou a ter uma pequena produção industrial de painéis detrator. O produto era mais barato que o equivalente feito com plásticoconvencional e, ainda assim, o negócio não prosperou. "Era uma produção tãopequena para o padrão da indústria, acostumada a comprar centenas de toneladas,que acabaram desistindo por dificuldades operacionais”, disse.

Para ampliara produção, a PHB Industrial teria de aumentar sua planta. Segundo Nonato, issoexigiria um investimento muito superior ao que uma usina de açúcar tem comometa. Seria preciso um parceiro.

Tambémprecisaria de ajuda para dar suporte aos compradores. "É necessário ter umaequipe que vá a campo ensinar qual é a temperatura certa para processar o PHB,o tipo de forma, o tipo de rosca. O mercado é pulverizado e grande parte deleestá na Europa. Somente as grandes petroquímicas teriam condições de dar essesuporte”, disse.

Enquanto noBrasil o mercado para o PHB é restrito a nichos interessados em fabricarprodutos com apelo ecológico a um preço mais elevado, na Europa a busca porprodutos biodegradáveis é grande, segundo Nonato. "Na Europa, a agriculturahidropônica é forte e a legislação ambiental é rígida. Usa-se muito materialbiodegradável em estufas”, contou.

Com o PHB, épossível fabricar braçadeiras para plantas ou tubetes para reflorestamento edepois encaminhar o resíduo plástico para estações de compostagem, onde ele érapidamente absorvido pela natureza.

Enquanto osplásticos tradicionais levam mais de cem anos para se degradar, os produtosfeitos com PHB se decompõem em torno de 12 meses e liberam apenas água edióxido de carbono.

Além daagricultura, o material pode ser usado na fabricação de embalagens paraalimentos, cosméticos e outros produtos oleosos que são de difícil reciclagem."O mercado existe e nosso produto está pronto. O que falta é um canal parachegar ao mercado e um pouco mais de investimento”, disse.

Fonte: Agência Fapesp