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Plantas medicinais e um equívoco fantástico

Publicado em 28 setembro 2010

O "Fantástico" de domingo passado (25/09) deu continuidade à série comandada pelo dr. Dráuzio Varella sobre plantas medicinais, reforçando a tese, por ele defendida com veemência, de que é necessário tomar cuidado com o seu uso porque "nem tudo que é natural, é inofensivo." Até aí nada demais porque todos sabemos que há plantas tóxicas e que há indicações que não servem para coisa alguma, a não ser enganar os incautos, as pessoas fragilizadas, retardando os procedimentos corretos a serem tomados. Há um charlatanismo que vive à sombra das plantas medicinais e que engorda o lucro de laboratórios inescrupulosos ou de picaretas de plantão, como em todos os setores, inclusive na imprensa brasileira.

Mas o programa, que anda perdendo audiência a olhos vistos, não ficou apenas nisso e avançou o sinal de forma perigosa.

Travestida de aula sobre o processo de produção de medicamentos, a fala do dr. Varella fez, acintosamente, o jogo dos laboratórios farmacêuticos, tentando, implicitamente, com exemplos selecionados não aleatoriamente, desestimular o esforço nacional nessa área, como se um país emergente não pudesse (ou não devesse) investir na produção de fármacos. Um recado que faz parte de um lobby conhecido da Big Pharma que, em revistas de negócios (Exame é uma delas) e através de publicações avulsas (circulou uma recentemente encartada no Valor Econômico, tentando pressionar o governo a incluir medicamentos caros no SUS), busca criticar a iniciativa governamental de fazer frente à ganância dos laboratórios.

Essa posição do dr. Varella não é original porque, repetidamente, o professor da UNIP tem defendido os laboratórios farmacêuticos, inclusive saudando-os pelo apoio recorrente a médicos, em particular recém formados, para a participação em Congressos, sob a alegação de que eles fazem isso por absoluta generosidade (!!!!!). Veja a este respeito resposta do dr. Varella publicada na revista Diversa, publicada pela Universidade Federal de Minas Gerais, em novembro de 2008, à pergunta: Como o senhor vê a publicidade agressiva de medicamentos?

"Este é um debate internacional. O mundo inteiro está preocupado com esse assunto, que tem sido tratado por editoriais de revistas médicas. É uma questão com dois lados. De um lado, os laboratórios têm colaborado muito para o desenvolvimento da medicina e para o preparo dos médicos. A maioria dos médicos que viajam para o exterior têm suas despesas pagas pelos laboratórios. Hoje, encontro em congressos internacionais médicos recém-formados que não teriam condições de bancar com recursos próprios o custo de uma participação em eventos do gênero.

De qualquer forma, a medicina, em especial a oncologia, avançou muito por causa dessas possibilidades. Mas não existe uma pressão direta dos laboratórios. Algo do tipo: "paguei sua viagem, você tem que aceitar meu remédio". Isso não existe. O que os laboratórios esperam é que o médico indique uma droga ao perceber que ela age melhor em certa doença...".

Ou seja: o dr. Dráuzio incorpora uma incompreensível ingenuidade (ele não deve ter lido o livro da Márcia Angell - A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos, publicado pela Editora Record) e não acompanha as campanhas sucessivas do Conselho Regional de Medicina e de organismos internacionais da classe médica contra o assédio irresponsável da Big Pharma aos profissionais de saúde em todo o mundo. O dr. Dráuzio Varella ignora (por que será?) que os laboratórios têm sido sistematicamente acusados de ações não éticas para fraudar revistas científicas com o apoio de pesquisadores que assinam artigos que nunca escreveram.

O dr. Dráuzio Varella, que garantiu categoricamente no mesmo programa que os cidadãos podem tomar sem problemas medicamentos que têm bula (ele quis dizer de laboratórios), desconhece que há um número crescente de remédios sendo retirados de circulação pelo impacto nefasto na saúde das pessoas, inclusive aqueles previamente autorizados pelo FDA (vide caso recente do Avandia, para diabetes, e do Vioxx, entre muitos outros, que evidenciam a vulnerabilidade do sistema de vigilância e a má fé de fabricantes). O dr. Dráuzio Varella talvez ignore também o caso do projeto BioAmazônia, com a acusação explicita, por pesquisadores brasileiros, de assalto à biodiversidade e que envolveu a Novartis, no governo do Fernando Henrique Cardoso. Basta colocar projeto Bioamazônia no Google para recuperar opiniões candentes sobre a ação do laboratório, como a do prof. dr. Isaías Raw e até de entidades como a SBPC e mesmo a FAPESP.

Finalmente, o dr. Dráuzio Varella maculou a imagem da Embrapa- Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - uma das instituições mais importantes do País, fazendo generalizações a partir da fala de um velho pesquisador da Amazônia, este sim ingênuo por não perceber a intenção deliberada do professor da Unip de lançá-lo ao escárnio público.

O programa teve outros lances interessantes, como a aproximação da lente da Globo em direção ao barco da UNIP (utilizado para as excursões do prof. Varella) com destaque ao logo do Objetivo, um cursinho desta instituição privada. Alguns colegas estão agora em dúvida se a UNIP é patrocinadora da série do dr. Varella porque a Globo sempre foi muito cuidadosa na divulgação gratuita de empresas. Nada contra isso (empresas podem patrocinar séries), mas esta situação não está explicitada, o que poderia indicar, se for verdade, que está faltando transparência à emissora.

Enfim, como temos insistido, é preciso que enxerguemos além da notícia e esta reportagem do Fantástico tem recados subliminares, tem cheiro de "pau mandado", ainda que o dr. Varella tenha razão em inúmeras observações corretas que fez ao longo do programa.

O professor da UNIP tem prestígio e é um formador de opinião respeitável, com uma indiscutível capacidade de comunicação, mas seria recomendável que a leitura de suas falas também não fosse ingênua porque, como dizem os próprios médicos, não "há almoço grátis" nessa área. No mínimo, o dr. Dráuzio expressa sua opinião (como a da generosidade da Big Pharma) e não está baseado em pesquisas (os dados empíricos o desmentem) quando faz a apologia aos laboratórios farmacêuticos, proclamando-os de "socialmente responsáveis".

Tomamos a liberdade de divergir do dr. Varella: é fundamental que o Governo fortaleça sua política (anda fraquinha) de produção de fármacos, valorizando cada vez mais a massa crítica em pesquisa na área de saúde que temos e centros de excelência como a Fiocruz e o Instituto Butantã, para só citar dois casos.

O papel do pesquisador nesta área não deve ser, como teria pensado a Novartis no projeto Bioamazônia, de mero coletor de material para empresas multinacionais e não devemos nos curvar às investidas e chantagens da Big Pharma. Pelo contrário, devemos dar total apoio à ANVISA que há um tempão tem denunciado a burla repetida, irresponsável, da propaganda de remédios em nosso País, com o incentivo não ético à automedicação.

Muito cuidado com estes programas de domingo em horário nobre porque, pelo que percebemos, podem existir (não tenho dúvida, mas você tem o direito de pensar diferente) interesses subjacentes a reportagens pretensamente isentas e científicas.

Que os cidadãos que assistem ao Fantástico (em número cada vez menor, embora ainda expressivo) não se enganem: não confiem em medicamentos com a assinatura de empresas aparentemente acima de qualquer suspeita. Ter bula não significa nada porque crimes corporativos têm sido cometidos contra todos nós por quem deveria estar zelando pela nossa saúde.

As plantas medicinais podem, em muitos casos, serem verdadeiramente tóxicas, mas tóxicas são também alegações contra uma empresa de pesquisa respeitável, ou favor da Big Pharma, e mesmo a propaganda indisfarçável de uma instituição privada, sem a transparência por parte da emissora que a veicula.

Em tempo: a Embrapa precisa urgentemente submeter alguns de seus pesquisadores a um mídia training. O nosso querido colega da Amazônia, amigo das plantas medicinais, não teve malícia suficiente para perceber que o seu colega, pesquisador da Unip, o estava colocando numa fria. Está na hora de atualizar a Política de Comunicação da Embrapa, que continua no portal da empresa, com a assinatura do governo Fernando Henrique Cardoso e que, ao que parece, deixou de ser internalizada competentemente. Será que os colegas da assessoria desta unidade da Embrapa não perceberam a intenção do dr. Dráuzio Varella e consentiram em deixar a sua querida fonte nesta situação vexatória? Nada justifica a acusação leviana contra a Embrapa, mas ela precisa abrir os olhos com estes interesses privados descarados. Laboratórios farmacêuticos, empresas químicas, agroquímicas e de biotecnologia estão, escandalosamente, se aproximando de empresas de pesquisas e universidades para um esforço planejado de privatização da pesquisa pública. Será que ninguém se dá conta disso ou o processo é mesmo de capitulação?

* Wilson da Costa Bueno é jornalista, professor da UMESP e da USP, diretor da Comtexto Comunicação e Pesquisa. Editor de 4 sites temáticos e de 4 revistas digitais de comunicação