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Planta vermelha é a nova aliada para combater o inseto daltônico

Publicado em 07 abril 2009

Uma nova variedade de algodão, de coloração vermelha, promete ser uma das alternativas mais inusitadas para driblar a ameaça do bicudo, considerado o principal vilão da cotonicultura. Após constatar que o inseto evita naturalmente as plantas avermelhadas, dando preferência às verdes, o pesquisador Milton Fuzatto, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), iniciou estudos que poderão resultar numa planta capaz de reduzir os custos com defensivos químicos, sem perder em produtividade e qualidade da fibra para fins industriais.

A pesquisa consiste no cruzamento entre as variedades Texas Red, cultivada nos EUA, e IAC 87/544, desenvolvida pela instituição brasileira. Conhecida há mais de cem anos, a planta americana sempre repeliu o bicudo, mas é pouco produtiva e não apresenta fibras de boa qualidade. O objetivo, segundo Fuzatto, é chegar a uma nova variedade que, além de não atrair o bicudo, também agregue outras características para torná-la viável economicamente, como alta produtividade e boa porcentagem de fibras.

"Os resultados obtidos até agora são promissores, mas ainda estamos longe da planta ideal", destaca o pesquisador, que não gosta de fazer alarde sobre a novidade. Além dos repasses do governo estadual para o IAC, o trabalho conta com recursos da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Fuzatto não revela cifras, mas diz que os investimentos giram em torno de 5% do montante destinado às atividades de melhoramento genético desenvolvidas pela instituição.

A coloração vermelha no caule e nos ramos do Texas Red resulta de um gene que condiciona a presença do pigmento antocianina no lugar da clorofila. Segundo Fuzatto, há evidências de que esse fator funcionaria como uma espécie de defesa natural contra o bicudo e outras pragas. "Se colocarmos lado a lado uma planta vermelha e uma verde, ele vai direto na verde e despreza a vermelha", garante. As razões para esse comportamento ainda não foram esclarecidas, mas acredita-se que o inseto tenha dificuldade para visualizar tonalidades avermelhadas. "Também pode ser simplesmente uma questão de não-preferência", resume.

Sejam quais forem os fatores que desencadeiam a reação do inseto, a coloração do algodoeiro está longe de constituir uma proteção infalível. Fuzatto explica que o bicudo só desprezará a planta vermelha se tiver a opção de atacar a verde. "Caso contrário, a tendência será voltar-se para aquela que estiver disponível, inclusive a vermelha", pondera. Por essa razão, mesmo que o melhoramento genético resulte na variedade esperada, o pesquisador diz que a melhor estratégia será combinar plantas com colorações diferentes numa mesma área de cultivo.

Iniciados há quinze anos, os ensaios de campo já resultaram em dez linhagens, que estão sendo testadas na fazenda experimental Santa Eliza, em Campinas. Fuzatto está na fase de resseleção genética visando o melhoramento destas linhagens. "Os resultados obtidos até agora mostram que conseguimos produzir uma planta vermelha melhor que a original, mas para chegar a uma variedade comercial ainda precisamos combinar outras características", diz. "Avançamos muito em qualidade e porcentagem de fibra, mas a produtividade ainda está relativamente baixa", completa.