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Planta da Caatinga e Cerrado se revela promissora no tratamento da candidíase

Publicado em 09 outubro 2019

Do solo do Cerrado e da Caatinga, dois biomas brasileiros, nasce o sansão-do-campo, árvore pequena conhecida também como sabiá. Saberes tradicionais de comunidades dali já exploram há tempos as propriedades da Mimosa caesalpiniifolia para a saúde, mas agora um dos poderes desta planta foi descoberto e reforçado pela ciência: o de combater fungos que causam a candidíase, infecção que acomete mulheres e homens nos genitais.

Folhas coletadas em Minas Gerais foram levadas ao laboratório, onde pesquisadores brasileiros, das universidades Estadual Paulista (Unesp) e de Federal de Alfenas (Unifal), e colegas espanhóis conseguiram isolar os compostos químicos do sansão-do-campo e testar as combinações mais eficazes na inibição do crescimento de duas espécies do gênero de fungos Candida, a Candida glabrata e a Candida krusei.

Quatro dos 28 compostos testados apresentaram resultados promissores e serão testados na forma de pomada – a ideia é que ela possa um dia ser uma alternativa ao fluconazol, tratamento antifúngico padrão no tratamento contra a candidíase.

Os fungos do gênero Candida estão normalmente nos nossos corpos, mas em caso de alguma alteração, como a baixa de imunidade, eles podem causar a candidíase, infecção que traz coceira e dor nos órgãos genitais; além de, nos homens, pequenas feridas; e corrimento nas mulheres.

Apesar de causar incômodo, a infecção não apresenta, em geral, graves riscos. No entanto, para pessoas hospitalizadas, ela pode ser mortal, ainda mais em um contexto de resistência a antibióticos.

Ainda que não seja considerada uma infecção sexualmente transmissível (IST), a candidíase pode ser transmitida em relações sexuais.

Projeto de pomada

O fluconazol é considerado eficiente em grande parte dos casos, mas algumas variedades do fungo têm apresentado resistência ao medicamento.

Por isso, os autores do estudo, publicado no periódico Journal of Natural Products e apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), testaram a concentração necessária do fluconazol e de diferentes compostos extraídos das árvores para inibir 50% do crescimento do fungo.

Em alguns testes, os compostos da planta se mostraram mais poderosos para combater, com as menores concentrações, as espécies de Candida testadas do que o próprio fluconazol. Os melhores resultados recaíram sobre a Candida krusei, mas aqueles referentes à Candida glabrata também foram “interessantes”, segundo os autores do artigo.

Não são essas espécies, mas a Candida albicans, porém, as principais causadoras da candidíase.

“Foi realizado o estudo com a Candida albicans, pórem as espécies Candida krusei e Candida glabrata foram as mais promissoras. A candidíase pode ocorrer devido a outras espécies não albicans, por isso a continuação desse estudo com essas espécies”, explicou por e-mail à BBC News Brasil Marcelo José Dias Silva, que conduziu a pesquisa durante o estágio de pós-doutorado na Unesp e também em um período de estudo na Universidade de Cádiz, Espanha.

Os fungos do gênero Candida estão normalmente nos nossos corpos, mas em algumas circunstâncias podem causar a candidíase

Agora, antes de criar uma pomada, os pesquisadores querem testar se os compostos do sansão-do-campo mantêm seus efeitos benéficos ou ainda os têm aumentados quando misturados com adjuvantes – substâncias usadas para potencializar a ação do medicamento no organismo.

“De novembro a janeiro, faremos novos estudos antifúngicos mais aprofundados. Estamos abertos a novas parcerias, industrias que queriam nos ajudar nesse desenvolvimento (da pomada)”, diz Silva.

“O sansão-do-campo apresenta a vantagem de ser uma planta perinifólia, ou seja, apresenta folhas o ano todo. Isso facilita no processo de extração e rendimento das substâncias”.

No país europeu, foi possível submeter as amostras ao chamado fracionamento por cromatografia, uma técnica de laboratório que permite a separação de misturas.

“O extrato do sansão-do-campo é muito complexo. Contém muita clorofila e ácidos graxos, que dificultam a identificação dos compostos presentes”, explica Silva.

Também é múltiplo o uso tradicional e terapêutico de plantas Mimosaceae em terapias. Alguns estudos já mostraram propriedades anticonvulsivas, anti-inflamatórias e cicatrizantes. Quanto à Mimosa caesalpiniifolia, especificamente, suas folhas, a casca do caule e as flores têm sido usadas na medicina tradicional para o tratamento de bronquite, infecções de pele, hipertensão, lesões, inflamação.

Para além da saúde humana, o sansão-do-campo é fundamental na produção de pólen e mel e também na produção de estacas para cercas e cercas-vivas.

Fitoterápicos para driblar a resistência

Segundo definição da Anvisa, fitoterápicos são aqueles ‘obtidos com emprego exclusivo de matérias-primas ativas vegetais’

O trabalho conduzido por Silva faz parte de um projeto de pesquisa maior, coordenado por Wagner Vilegas, da Unesp, e intitulado “”Fitoterápicos padronizados como alvo para o tratamento de doenças crônicas”.

Fitoterápicos são, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), tratamentos “obtidos com emprego exclusivo de matérias-primas ativas vegetais”.

Em 2009, o Ministério da Saúde publicou uma lista chamada Relação Nacional de Plantas Medicinais de Interesse ao SUS (Renisus) com 71 plantas com potencial de gerar produtos de interesse ao Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro. O objetivo da publicação é estimular pesquisas na área, o que aconteceu desde então e contou também com financiamento público.

Entre as plantas registradas – “usadas pela sabedoria popular e confirmadas cientificamente”, segundo comunicado da pasta -, estão a alcachofra, usada para distúrbios de digestão; a aroeira da praia, para inflamação vaginal; e a unha-de-gato, para dores articulares.

O grupo coordenado por Vilegas, por sua vez, já estudou um tratamento da doença de Chagas à base da planta cervejinha-do-campo; ou da diabetes com a pata-de-vaca.

“A descoberta e o desenvolvimento de novas entidades terapêuticas, que com uma combinação apropriada permitem uma considerável redução na concentração necessária dos medicamentos, podem minimizar os efeitos colaterais e a toxicidade observada nas drogas usadas atualmente”, disse Vilegas em um comunicado à imprensa.

“Além disso, podem diminuir o custo final do tratamento e a resistência adquirida por alguns microrganismos.”