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Agência Estado

Planeta pode entrar em colapso neste século

Publicado em 30 março 2005

Cerca de 60% de todos os ecossistemas do planeta estão degradados ou sendo usados de modo não sustentável. Se nada for feito, as conseqüências poderão levar a um cenário desolador em 50 anos.
Estas são as principais conclusões de um estudo realizado por 1.360 especialistas em 95 países: a Avaliação Ecossistêmica do Milênio (AEM). Lançado em 2001, a partir de solicitação feita no ano anterior pelo secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, o projeto divulgou nesta quarta-feira seus primeiros resultados.
"Dentre os problemas mais sérios identificados por esta avaliação estão: as condições drásticas de várias espécies de peixes; a alta vulnerabilidade de 2 bilhões de pessoas vivendo em regiões secas (...); e a crescente ameaça aos ecossistemas das mudanças climáticas e poluição de seus nutrientes", diz uma das principais mensagens do relatório, que tem como título Vivendo além dos nossos meios - O capital natural e o bem-estar humano.

Zonas mortas
A perspectiva é alarmante, advertem os especialistas, já que neste ritmo a devastação de 15 dos 24 ecossistemas do mundo provocará novas doenças, mudanças na qualidade de água, aparição de zonas mortas no litoral ou até o desaparecimento da pesca.
"Em alguns casos, se trata de viver com tempo emprestado", assinala o relatório. Por exemplo, o uso do recurso de água em um ritmo muito maior do que se gera se faz "às custas de nossos filhos".
"No último meio século nós alteramos as estruturas dos ecossistemas globais em uma velocidade mais rápida do que em qualquer outro período da história", afirmou um dos coordenadores da AEM, o norte-americano Harold Mooney, da Universidade de Stanford, em comunicado da instituição.

Ganhos e perdas
Apesar de certas mudanças contribuírem para o bem-estar, como o desenvolvimento das culturas e maiores colheitas, isso ocorreu em troca da deterioração de outros ecossistemas, afetando sobretudo a água e a pesca, ambos com níveis atuais que não poderão agüentar futuras demandas.
Entre 10% e 30% do mundo animal está neste momento em perigo de extinção por causa do uso que o homem fez dos ecossistemas, segundo o estudo. Além disso, o desflorestamento contribui para "a abundância de patógenos, como a malária ou o cólera" assim como o risco de novas doenças.
Por exemplo, 11% dos doentes na África sofrem de malária. Se este mal tivesse sido erradicado há 35 anos, dizem os pesquisadores, a economia do continente teria aumentado por volta de 150 bilhões de euros.
À luz desses dados, o relatório conclui que da humanidade precisa "relaxar as pressões sobre a natureza". Para isso, é necessário adotar "mudanças radicais na forma com que tratamos" o planeta.

Seminário em SP
Os resultados estão sendo apresentados nesta quarta-feira simultaneamente em diversos países. No Brasil, na sexta-feira haverá no auditório do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen), em São Paulo, um seminário para discutir as conclusões. O evento contará com a presença de especialistas do Brasil e de outros países que participaram do estudo, segundo a Agência Fapesp.
Em setembro, os responsáveis pelo projeto divulgarão cinco relatórios técnicos, com um total de mais de 2,5 mil páginas com as relações entre os ecossistemas globais e o bem-estar humano. Até o primeiro trimestre de 2006 deverão ser divulgados 33 estudos relacionados a diferentes regiões do planeta.