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Pioneiros do conhecimento brasileiro

Publicado em 03 outubro 2008

Por Fábio de Castro

Agência Fapesp

Simpósio na USP homenageia os 80 anos do físico José Goldemberg e os 90 anos do crítico e ensaísta Antonio Candido

 

O simpósio Ciência e Literatura – Duas Visões do Nosso Tempo homenageou, nesta quinta-feira (2/10), os 80 anos do físico José Goldemberg e os 90 anos do crítico e ensaísta Antonio Candido de Mello e Souza. O evento foi realizado pelo Centro Interunidade de História da Ciência da Universidade de São Paulo (USP), dirigido pelo professor Shozo Motoyama, do Departamento de História.

Durante o evento, o diretor científico da Fapesp, Carlos Henrique de Brito Cruz, ressaltou a importância da contribuição de Antonio Candido para a Fundação e para a ciência brasileira. De acordo com ele, graças a Candido no Estado de São Paulo o fomento a pesquisa não se limita às ciências exatas.

“Há muitos anos temos uma situação absolutamente diferente de fundações similares em outros lugares do mundo. A National Science Foundation, nos Estados Unidos, até hoje não financia pesquisas na área de filosofia e literatura, por exemplo, coisa que a Fapesp faz desde 1963, graças à visão dos fundadores e à contribuição do professor Antonio Candido”, disse.

Brito Cruz também destacou a proximidade de Goldemberg com os projetos da Fapesp e sua “imensa e incessante contribuição ao desenvolvimento científico do Brasil”. Segundo ele, a prova dessa contribuição é que Goldemberg participa ativamente de dois importantes programas de pesquisa anunciados recentemente pela Fapesp.

“São programas que tratam de temas profundamente relacionados e nos quais o professor Goldemberg tem atuado muito intensamente como consultor. Trata-se do Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG), lançado em agosto, e do Programa Fapesp de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), lançado em julho”, disse Brito Cruz.

O secretário adjunto de Saneamento e Energia do Estado de S, Ricardo Toledo Silva, lembrou que as atuações de Candido e Goldemberg na sociedade e na comunidade científica têm um ponto em comum: ambos conseguiram articular com sucesso diferentes áreas do conhecimento com grande profundidade teórica e prática.

“Esses dois pioneiros, em sua trajetória, seguiram o caminho mais difícil e mais frutífero. Ambos conseguiram articular, de forma horizontal, o conhecimento de diferentes áreas. Mas, além disso, conseguiram também, por meio de sua intensa atuação pública, algo ainda mais notável: fazer com que esse conhecimento horizontal fosse transferido para a sociedade”, disse Silva, que é professor titular do Departamento de Tecnologia da Arquitetura da USP.

Para descrever a atuação de Candido e Goldemberg, Silva citou o livro O quadrante de Pasteur, de Donald Stokes, que utiliza dois eixos cartesianos para classificar as atividades de pesquisa. O eixo vertical associa a produção científica à sua relevância como gerador de conhecimento fundamental.

O eixo horizontal corresponde à relevância em termos de aplicações imediatas. O quadrante de Pasteur corresponde à área em que há o máximo de conhecimento fundamental associado ao máximo de aplicações. “Goldemberg e Candido estão sem dúvida no quadrante”, afirmou.

O presidente executivo do Centro de Integração Empresa-Escola e diretor da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Luiz Gonzaga Bertelli, fez uma reflexão sobre a importância do trabalho de Goldemberg para reduzir o problema ambiental do aquecimento global.

“Precisamos demonstrar reconhecimento e gratidão a esse grande físico e estadista brasileiro. Seu trabalho em prol das energias limpas e as cinco décadas de sua profunda atuação pública têm ajudado a reduzir os graves problemas dos impactos do consumo energético no meio ambiente”, afirmou.

Segundo Bertelli, diariamente 800 novo veículos passam a circular no congestionado trânsito da capital paulista. Na área metropolitana, o impacto dessa motorização tem sido uma das mais graves ameaças à qualidade de vida dos habitantes.

“Em 2008, temos uma quantidade de carros na cidade cerca de 30% maior que há 20 anos. O estado, que tem 40% da frota automotiva do país, já tem 15 milhões de veículos. São três habitantes para cada carro. Como mostram nossas reuniões no Departamento de Meio Ambiente da Fiesp, graças às iniciativas de Goldemberg quando foi secretário do Meio Ambiente, temos conseguido reduzir as emissões de gases de efeito estufa provenientes dessa situação”, disse.

Contra o desenvolvimentismo

O professor titular do Departamento de História da USP, Nicolau Sevcenko, lembrou que o processo de “introdução da modernidade a qualquer custo”, iniciado no Brasil durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek, em 1955, e que culminaria com o processo de globalização das últimas décadas, agravou as condições sociais e econômicas da população. Segundo ele, intelectuais como Antonio Candido tiveram um papel importante na crítica desses processos.

“Antonio Candido, assim como Goldemberg, sempre lutou contra a lógica perversa do desenvolvimentismo. O conhecimento da literatura e da arte que herdamos de Antonio Candido ao longo dos anos teve um papel emancipador”, apontou.

Antonio Candido iniciou a carreira na USP, em 1942, como assistente de ensino de Fernando Azevedo, em sociologia. No ano seguinte, colaborando com o jornal Folha da Manhã, resenhou os primeiros livros de João Cabral de Melo Neto e Clarice Lispector.

Em 1945, obteve o título de livre-docente e, em 1954, o grau de doutor em Ciências Sociais. Em 1974, tornou-se professor titular de Teoria Literária e Literatura Comparada da USP, contribuindo para a formação de grande parte da intelectualidade nacional. Aposentado em 1978, manteve-se atuante como crítico e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT).

José Goldemberg se formou na USP em 1950, onde concluiu o doutorado em 1954. Em 1957 tornou-se livre-docente e, em 1970, professor titular do Instituto de Física da USP.

Membro da Academia Brasileira de Ciências, foi reitor da USP entre 1986 e 1990. Foi secretário da Ciência e Tecnologia do governo federal (1990-1991), ministro da Educação (1991-1992) e secretário do Meio Ambiente (1992). Foi secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo (2002-2006) e atualmente é pesquisador do Centro Nacional de Referência em Biomassa, vinculado ao Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP.

(Agência Fapesp, 3/10)