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A Tribuna (Santos, SP) online

Pintou segurança

Publicado em 03 abril 2006

Por Da Reportagem
Dificuldade de respiração, tosse, dispnéia, enxaqueca, náusea, irritação na garganta, câncer e disfunções neurológicas. Esse 'coquetel' de doenças é apenas um dos possíveis efeitos colaterais dos produtos químicos presentes na maioria das tintas para uso imobiliário vendidas atualmente no Brasil.
Além desses impactos diretos no ser humano, essas substâncias ainda são danosas ao ambiente que nos cerca, pois afetam a camada de ozônio - uma faixa de gás localizada entre 16 km e 48 km da superfície terrestre, e que nos protege das nocivas radiações ultravioleta do sol, que podem provocar casos de câncer de pele, catarata e redução do sistema imunológico.
Agora, graças a um novo método desenvolvido pela equipe do engenheiro químico Reinaldo Giudici, será possível fabricar tintas com até dez vezes menos monômeros, que são as substâncias tóxicas responsáveis pela maior parte do cheiro das tintas.
"Os processos mais eficientes para remoção de odor não conseguem concentrações menores do que 1.000 partes por milhão (ppm)", diz o pesquisador, cujo trabalho permitiu a obtenção de tintas com menos de 100 ppm, ou seja, 0,01% ou 0,01 grama de monômero para cada 100 gramas de emulsão polimérica, resina que é o principal componente da tinta. Embora o cheiro não tenha sido totalmente removido, ele ficou quase imperceptível.
O novo produto, ainda em fase de testes no Centro de Engenharia de Sistemas Químicos da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli/ USP), é ideal para hospitais, escolas e restaurantes, locais onde é indesejável a presença de vapores responsáveis pelo odor característico das tintas.
A tecnologia desenvolvida pela equipe da USP levou sete anos para ficar pronta e foi financiada pela FAPESP dentro do programa Parceria para a Inovação Tecnológica (Pite).
A nova tinta chega em um momento especialmente propício. Ainda neste primeiro semestre serão divulgados os resultados de um estudo inédito no País sobre os compostos químicos que entram na fabricação das tintas.

Lei
O trabalho deverá, entre outros aspectos, oferecer subsídios para a criação de legislação ambiental que restrinja o uso de substâncias nocivas nas tintas.
"A nossa expectativa é de que em um futuro próximo, critérios ecológicos estejam agregados aos parâmetros hoje utilizados pelos fabricantes desses produtos, como desempenho, prazo e custo", disse a professora Uemoto, autora do livro 'Projeto, execução e inspeção de pinturas' (editora Nome da Rosa).
Além disso, o trabalho desse grupo de pesquisadores também tem a função de alertar a comunidade para os perigos contidos nas formulações das tintas. "Tanto quem aplica, como quem vai habitar ambientes recém-pintados, devem estar atentos para os riscos que esses produtos podem provocar", salienta a pesquisadora da USP.
O problema, segundo ela, é que nas latas das tintas comercializadas hoje no País, não há qualquer informação dessa natureza para o consumidor. Uemoto explica que apesar dos avanços obtidos nos últimos dez anos, com a diminuição de parte das substâncias nocivas que entram na fabricação das tintas, as indústrias ainda não estão sensibilizadas para o problema.
"A maior preocupação dos fabricantes está restrita ao ambiente industrial, ou seja, com os seus funcionários. É preciso, agora, levar esses cuidados para o consumidor", afirma Uemoto.

Prazos
De acordo com ela, essa preocupação com o usuário das tintas é uma questão "levada muito a sério" na Europa, Estados Unidos, Canadá, Suécia, Noruega, Japão e outros países asiáticos.
Por isso, a professora Uemoto fez uma revisão das principais leis existentes hoje sobre as tintas no mundo. "A mais adequada ao Brasil é a legislação européia", que estabelece diferentes prazos para que os fabricantes reduzam ao máximo os compostos nocivos de seus produtos.
Uemoto espera que o trabalho desenvolvido pelos pesquisadores brasileiros caminhe nesse sentido, definindo prazos e metas a serem cumpridos pelos fabricantes. Em 2004, a indústria de tintas imobiliárias no Brasil colocou no mercado 663 milhões de litros do produto.
Atualmente, segundo a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), o setor trabalha com uma capacidade produtiva total de 1 bilhão de litros e faturamento próximo a US$ 1,5 bilhão, gerando mais de 16 mil empregos diretos e outros cerca de 300 mil indiretos.
O que certas substâncias presentes em determinadas tintas podem provocar

Metil etil cetona
Irritação: pele, nariz, garganta, olhos, edemas pulmonares,

p-Xileno
Irritação: pele, nariz, garganta, olhos, falta de coordenação, náusea, dores abdominais

Hidrazina
Irritação: pele, nariz, garganta, sistema nervoso central, fígado e rins

Trimetilbenzeno
Irritação: pele, nariz, garganta, olhos, sistema respiratório, anemia, dores de cabeça

Etoxietanol
Irritação da vista, sistema respiratório, efeitos no sangue, fígado, rim, pulmão

n-Nonano
Irritação: pele, nariz, garganta, olhos, dores de cabeça, confusão mental, tremor, falta de coordenação motora, pneumonia

n-Hexano
Efeitos neurotóxicos

Acetaldeído
Risco de conjuntivite e efeito cancerígeno